A região conhecida como Pequena África, no Rio de Janeiro, que pulsa com história e manifestações da cultura afro-brasileira, busca um reconhecimento turístico internacional que ainda não alcançou. Apesar de roteiros tradicionais como Cristo Redentor e Pão de Açúcar dominarem as visitas, o Cais do Valongo, um marco da diáspora africana, e seus arredores oferecem uma profunda conexão com a formação do Brasil, mas carecem de destaque global.
O Cais do Valongo, Patrimônio Mundial da UNESCO, foi o principal porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Sua importância histórica para a compreensão da diáspora africana e da constituição brasileira é inegável. No entanto, especialistas reunidos no recente Feira Preta Festival, realizado no Píer Mauá, debateram a necessidade de elevar a Pequena África ao patamar de atração turística internacional de relevância.
Antonio Pita, jornalista e um dos fundadores da plataforma Diáspora Black, ressalta que, apesar de o Rio de Janeiro ser frequentemente associado a praias e festas, a dimensão histórica e cultural da Pequena África ainda não é plenamente integrada ao imaginário turístico global.
A região é um centro vital para a cultura afro-brasileira, abrigando o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e a histórica Pedra do Sal, todos parte do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana. O tradicional Afoxé Filhos de Gandhi, um dos blocos afro mais antigos do Rio, também tem sua sede na área, celebrando a herança africana anualmente.
Pita celebra o crescente interesse pela região, que já atrai visitantes para locais como a Pedra do Sal e o Largo da Prainha, além de museus como o MAR e o Museu do Amanhã. Contudo, ele lamenta que muitos turistas deixem de conhecer o Cais do Valongo e, consequentemente, de compreender a profunda influência da Pequena África no desenvolvimento do samba, do carnaval e na própria ocupação da cidade.
Adriana Barbosa, diretora executiva da Preta Hub, enfatiza o significado de sediar a Feira Preta em um local com tamanha carga histórica. Ela destaca a transição de um espaço que foi mercado de escravizados para um polo de empreendedorismo e criatividade negra, onde a identidade e a inovação africana são protagonistas.
Investimento em divulgação e políticas públicas
Emily Borges, afro-turismóloga e fundadora da Etnias Turismo e Cultura, defende a inclusão da Pequena África em guias turísticos e roteiros de grandes agências, além de campanhas de divulgação em pontos estratégicos como aeroportos. Ela acredita que o turismo de experiência, focado na memória e conexão, é um luxo cada vez mais buscado.
Pita complementa, afirmando que operadores de turismo e hotéis precisam incluir ativamente este destino em suas ofertas. Ele aponta para um possível viés racista que dificulta a promoção de destinos genuinamente afro-brasileiros, contrastando com o sucesso de outros roteiros menos históricos, mas com forte apelo visual, como o da Rocinha.
Especialistas e moradores convergem na cobrança por apoio governamental para a Pequena África, solicitando investimentos em infraestrutura, sinalização, conservação urbana e segurança pública. A visão é que um território bem cuidado para seus residentes é fundamental para atrair e satisfazer os turistas.
O Ministério do Turismo tem demonstrado apoio à transformação da Pequena África em um roteiro internacional, com a realização do Black Travel Summit em 2025. Iniciativas como o edital Rede Memória Viva, promovido pelo Diáspora Black e Feira Preta, visam capacitar organizações locais e mapear roteiros afro com potencial de desenvolvimento comunitário, fortalecendo a valorização da herança africana.
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