A Operação “Pão e Circo”, deflagrada nesta terça-feira, 7 de julho de 2026, pelo GAECO, com apoio do Ministério Público de Santa Catarina e da Polícia Civil, abriu uma crise política e institucional em Santa Catarina ao mirar um suposto esquema envolvendo cartel, fraude em licitações de shows, corrupção e lavagem de dinheiro em contratos públicos do setor de eventos.
Entre os investigados está o vereador de Indaial Carlos Eduardo Cunha, conhecido como Dudu Cunha, empresário do ramo de eventos, ligado à DCX Eventos e presidente municipal do MDB. Segundo informações atribuídas ao pedido apresentado pelo Ministério Público à Justiça, o parlamentar teria aparecido entre os alvos de um requerimento de prisão preventiva no âmbito da investigação.
De acordo com o MPSC, a operação apura a existência de um cartel formado por empresários do setor de eventos que, ao longo dos anos, teriam estruturado um esquema para fraudar licitações, eliminar concorrentes, manipular preços e dominar o mercado de shows com artistas de renome nacional em municípios catarinenses. A investigação também aponta suspeitas de pagamento e recebimento de propina, além de lavagem de dinheiro para ocultar valores obtidos com as possíveis irregularidades.
Ao todo, a operação previu o cumprimento de 50 mandados de busca e apreensão em 19 municípios, sendo 18 em Santa Catarina e um no Rio Grande do Sul. Também houve determinação de bloqueio de cerca de R$ 9 milhões em bens e valores, medida tomada para garantir eventual ressarcimento aos cofres públicos caso as suspeitas sejam confirmadas no decorrer do processo.
Foram cumpridos 49 dos 50 mandados de busca e apreensão, em residências e prédios públicos, contra servidores, ex-servidores, empresários e outros investigados. A reportagem também destacou que as ordens foram autorizadas pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina porque parte dos investigados possui foro por prerrogativa de função.
Conforme informações divulgadas sobre o pedido do Ministério Público, o requerimento de prisão preventiva incluía oito investigados: seis empresários do setor de eventos e dois prefeitos em exercício. Entre os nomes citados estavam José Clemir Spinelli, sua esposa e sócia Maria Clara Martins, Eder Coelho, da E3 Eventos, Carlos Eduardo Cunha, o Dudu Cunha, da DCX Eventos, o casal Cleiciane Gomes e Valmir Alberto da Silva, da CJR Produções, o então prefeito de Mafra, Emerson Maas, e o prefeito de Governador Celso Ramos, Marcos Henrique da Silva, que foi afastado do cargo durante a operação.
Apesar da amplitude do pedido, apenas um mandado de prisão preventiva foi cumprido nesta terça-feira: o do empresário José Clemir Spinelli. O caso segue sob sigilo, e novas informações dependem da liberação oficial dos autos ou de manifestações da Justiça e do Ministério Público.
A lista de municípios onde houve diligências inclui Indaial, Apiúna, Brusque, Mafra, Governador Celso Ramos, Itapema, Porto Belo, Bombinhas, Canoinhas, São Bento do Sul, Três Barras, Itaiópolis, Palhoça, Abdon Batista, Aurora, Laurentino, Pouso Redondo, Santa Terezinha e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
O nome da operação carrega forte simbolismo. “Pão e Circo” faz referência à prática política da Roma Antiga, quando governantes ofereciam alimento e espetáculos públicos para distrair a população enquanto mantinham privilégios e poder. No contexto catarinense, a escolha do nome ganha peso: a investigação mira justamente contratos públicos de shows e eventos que, segundo a suspeita, poderiam ter sido usados para alimentar um mercado viciado, com prejuízo à concorrência e possível dano ao dinheiro do contribuinte.
Em manifestação preliminar, Dudu Cunha informou que ainda não teve acesso aos autos da operação e, por isso, desconhece o teor completo da investigação. O vereador afirmou que seus advogados buscam informações junto aos órgãos responsáveis e que irá se pronunciar no momento oportuno. Ele também declarou estar tranquilo, dizendo que “não deve nada”, e ressaltou que deixou de promover eventos.
A Câmara de Vereadores de Indaial informou que não irá se manifestar oficialmente neste momento, alegando que ainda não recebeu comunicação formal sobre o caso.
A operação atinge um ponto sensível da política regional: o uso de dinheiro público em eventos, shows e festas municipais. Em tempos de cobrança por transparência, saúde, educação, infraestrutura e responsabilidade fiscal, a suspeita de cartel em contratações artísticas reacende uma pergunta incômoda: quantos contratos celebrados em nome da cultura, do lazer e da festa popular serviram, na prática, para beneficiar grupos privados e agentes públicos?
É importante destacar que todos os citados são considerados investigados, e não condenados. A responsabilidade criminal ou civil de cada um dependerá do avanço das apurações, da análise das provas, do contraditório e da decisão final da Justiça.
Mesmo assim, a Operação “Pão e Circo” já impõe um desgaste político imediato, especialmente aos agentes públicos citados. Em Indaial, a presença do nome de um vereador em uma investigação dessa dimensão coloca a Câmara sob pressão e exige respostas institucionais à altura da gravidade do caso. Quando o assunto envolve licitação, dinheiro público e suspeita de corrupção, o silêncio político pode até ser estratégico, mas dificilmente será suficiente diante da cobrança da população.
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