Um estudo inédito divulgado nesta terça-feira (26) revela que aproximadamente 50% dos estudantes brasileiros do ensino básico não identificam a educação antirracista em suas rotinas escolares. O levantamento, fundamentado em dados do Saeb 2023, evidencia que o combate à desigualdade racial ainda enfrenta barreiras estruturais para se tornar uma prática efetiva nas salas de aula de todo o país.
A análise foi realizada por meio de uma cooperação técnica entre o Núcleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e os institutos Alana e Geledés. O objetivo central foi mensurar como as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino de história e cultura africana e indígena, estão sendo percebidas por quem frequenta a escola.
Para famílias como a da advogada Karina Berardo, mãe de jovens negros em Brasília, projetos que abordam a herança cultural negra ainda são exceções. Ela observa que, embora o tema tenha ganhado espaço no ensino médio com uma perspectiva mais positiva, as discussões costumavam ser limitadas ao período da escravidão durante o ensino fundamental.
Descompasso entre professores e alunos
A pesquisa aponta uma desconexão significativa entre o discurso docente e a experiência discente. Enquanto mais de 70% dos professores afirmam abordar as desigualdades raciais com frequência, menos da metade dos alunos reconhece essa prática em seus educadores.
Segundo a pesquisadora Eliane Firmino, do Cebrap, essa diferença de percepção serve como um termômetro para a efetividade das políticas públicas. Ela ressalta que a aplicação da legislação ocorre de maneira heterogênea, evidenciando as limitações do sistema educacional brasileiro atual.
Desafios na rede privada e pública
A ausência do debate é ainda mais acentuada nas instituições particulares. O estudo mostra que 60,8% dos alunos da rede privada não reconhecem discussões raciais, contra cerca de 51% na rede pública. A socióloga Flávia Rios, da USP, alerta que as escolas privadas têm sido menos cobradas pela implementação das leis.
Flávia Rios defende que a legislação precisa de maior consistência transdisciplinar para que não dependa apenas de iniciativas isoladas. Para a especialista, o foco deve ser a mudança de mentalidades e a promoção de comportamentos cidadãos que respeitem a diversidade étnico-racial do Brasil.
Necessidade de monitoramento e formação
Para Suelaine Carneiro, do Instituto Geledés, a solução passa obrigatoriamente pela fiscalização rigorosa e pelo investimento em materiais didáticos adequados. Ela enfatiza que o engajamento de professores não negros é crucial para que a educação das relações étnico-raciais alcance todos os grupos.
Beatriz Benedito, do Instituto Alana, reforça que o apoio governamental é indispensável para institucionalizar essas políticas. A ideia é garantir que crianças e adolescentes se vejam como protagonistas no aprendizado da história negra e indígena, fortalecendo sua identidade e cidadania.
O estudo conclui que é urgente ampliar a diversidade racial entre os docentes e promover uma formação continuada para gestores. A meta é evitar que o tema seja tratado apenas de forma episódica, como ocorre frequentemente em datas específicas como o Dia da Consciência Negra.
Embora o caminho seja longo, há sinais de progresso. Juliana Couto, servidora pública e pesquisadora, relata que o cenário atual, apesar de ainda registrar casos de preconceito, é superior ao de décadas passadas. Ela acredita que os esforços de hoje beneficiarão as futuras gerações de estudantes.
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