Cerca de 7,5 mil óbitos e 29 mil hospitalizações anuais no Brasil estão associados a cânceres provocados pelo HPV, com 85% dos casos afetando mulheres. Grande parte dessas ocorrências é considerada evitável, seja pela identificação e tratamento de lesões precursoras ou, principalmente, pela vacinação.
Esses dados provêm de um estudo publicado na revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics, que analisou informações oficiais do Ministério da Saúde entre 2011 e 2019, período anterior aos impactos da pandemia de covid-19 nos indicadores de saúde.
A diretora executiva de Pesquisa de Dados de Mundo Real da farmacêutica MSD, Cintia Parellada, ressalta a importância do estudo ao alertar sobre os múltiplos tipos de câncer que o HPV pode desencadear. Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores avaliaram ocorrências e estimaram a proporção de casos atribuíveis ao vírus, com base em dados consolidados pela literatura médica.
O câncer de colo do útero se mantém como a principal preocupação, sendo responsável por 74,3% das hospitalizações e 77,3% das mortes no período estudado. Contudo, observa-se que um em cada quatro pacientes desenvolveu a doença em outras localizações, totalizando mais de 50 mil hospitalizações.
Cintia Parellada explica que o foco exclusivo no câncer de colo do útero pode gerar a falsa impressão de que apenas mulheres necessitam de vacinação. No entanto, o HPV está ligado a oito tipos de cânceres que afetam ambos os sexos: colo do útero, vagina, vulva, ânus, pênis, além dos cânceres de orofaringe, laringe e cavidade oral (cabeça e pescoço).
O câncer anal demonstrou o maior crescimento em ocorrências, com um aumento de 3,1% nas hospitalizações e 10,9% na mortalidade. Homens que mantêm relações sexuais com homens e indivíduos imunocomprometidos são particularmente suscetíveis.
A diretora executiva também aponta que os cânceres de cabeça e pescoço afetam quatro vezes mais homens do que mulheres. Essa disparidade contribui para que, em países com controle avançado do câncer de colo do útero, o problema do HPV se torne mais proeminente em homens.
Ela alerta que, diferentemente do câncer de colo do útero, os cânceres de cabeça e pescoço não possuem lesões precursoras tratáveis, tornando a vacinação a única forma de prevenção primária eficaz.
O estudo revela uma tendência preocupante no câncer de colo do útero: após uma queda de 4,7% nas hospitalizações entre 2011 e 2016, houve um crescimento de 3,9% no período de 2016 a 2019. A mortalidade seguiu um padrão similar, com queda de 0,7% no primeiro período e aumento de 1,5% no segundo.
Outro dado alarmante é a análise etária. Enquanto outros tipos de câncer relacionados ao HPV geralmente se manifestam a partir dos 40 ou 50 anos, as hospitalizações por câncer de colo do útero já são significativas a partir dos 30 anos. A idade média das pacientes diagnosticadas é de 47 anos, uma década a menos que em outros tipos de câncer, e a média de idade dos óbitos é de 56 anos.
Cintia Parellada enfatiza que o câncer de colo do útero é o que mais acomete mulheres em idade reprodutiva e o que apresenta maior incidência nessa faixa etária. Ela menciona que apenas 40% das mulheres realizam o Papanicolau periodicamente, resultando em diagnósticos de tumores já invasivos.
O Papanicolau, ou exame preventivo, é crucial para a detecção precoce do HPV e de lesões pré-cancerosas no colo do útero. O acompanhamento ou tratamento dessas lesões pode impedir a progressão para o câncer.
Recentemente, o Ministério da Saúde atualizou suas diretrizes, recomendando que todas as mulheres e pessoas com útero, entre 25 e 64 anos, realizem o teste DNA-HPV oncogênico. Este exame identifica não apenas a presença do vírus, mas também seu tipo, pois apenas algumas cepas possuem potencial cancerígeno.
Um resultado negativo para o teste DNA-HPV permite que o exame seja repetido em cinco anos. Em caso de resultado positivo, são necessários exames adicionais para confirmar ou descartar lesões ou câncer, e iniciar o tratamento. As autoridades de saúde projetam a erradicação do câncer de colo do útero em 20 anos, com a combinação de rastreamento organizado, tratamento oportuno e alta cobertura vacinal.
Cintia Parellada reforça que, apesar dos desfechos graves, o câncer de colo do útero oferece uma janela significativa para prevenção. O período entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento de uma lesão precursora é de aproximadamente dois anos, e a progressão de uma lesão precursora para o câncer pode levar até dez anos.
Essa janela temporal ressalta a importância da vacinação precoce. Uma pessoa que inicia a vida sexual aos 15 anos pode desenvolver câncer de colo do útero até os 30 anos, se não estiver protegida.
A vacina contra o HPV foi integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2014 e já demonstra impacto na redução da incidência de câncer e lesões precursoras. Contudo, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima mais de 19 mil novos casos anuais entre 2026-2028, um aumento de 14% em relação ao triênio anterior.
A vacina é recomendada para todas as crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, pois sua eficácia é máxima antes do início da atividade sexual. O Ministério da Saúde promove atualmente uma campanha de vacinação de resgate para jovens de até 19 anos que não foram imunizados na idade adequada.
Adicionalmente, a vacina é indicada para pessoas imunocomprometidas, vítimas de abuso sexual, com papilomatose respiratória recorrente, usuárias de profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) e pacientes com histórico de lesões pré-cancerosas de alto grau. Para outros públicos, a vacina está disponível em clínicas privadas.
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