Toda vez que os trabalhadores conquistam um direito, a reação de setores do empresariado é praticamente idêntica: dizem que empregos serão destruídos, empresas irão quebrar e a economia entrará em colapso.
A retórica muda pouco. Mudam apenas as épocas.
Foi assim na luta pelo fim da escravidão. Foi assim com a criação da previdência social, das férias remuneradas, do 13º salário, do FGTS, das horas extras e agora volta a ser assim diante da discussão sobre redução da jornada de trabalho, fim da escala 6x1 e implementação das 40 horas semanais.
A história mostra, porém, que os trabalhadores sempre estiveram do lado certo.
QUANDO A LIBERDADE “AMEAÇAVA A ECONOMIA”
Na época da abolição da escravidão, setores da elite econômica afirmavam que o país quebraria sem o trabalho escravo. Diziam que a libertação dos escravizados destruiria a produção e inviabilizaria os negócios da chamada “Casa Grande”.
A liberdade humana era tratada como ameaça econômica.
Ainda assim, a escravidão acabou. E a sociedade avançou.
Previdência social: diziam que seria o fim das empresas
Em 1923, a Lei Eloy Chaves criou o primeiro sistema de aposentadorias e pensões do Brasil. Mais uma vez, surgiram vozes afirmando que os custos trabalhistas destruiriam as empresas.
Décadas depois, a Previdência Social se consolidou como um dos pilares mínimos de proteção da classe trabalhadora.
O mesmo aconteceu com praticamente todos os direitos conquistados posteriormente.
Horas extras, férias e descanso: direitos tratados como “exagero”
Antes da Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, jornadas de 10, 12 ou até mais horas diárias eram comuns. A regulamentação das horas extras foi recebida com resistência patronal.
Disseram que seria impossível pagar.
Disseram que quebraria empresas.
Depois vieram as férias remuneradas. Primeiro 15 dias, depois 20, até chegar aos atuais 30 dias garantidos constitucionalmente. Também afirmaram que o direito ao descanso destruiria empregos e inviabilizaria negócios.
Mas o que destrói vidas não é o descanso.
É a exploração sem limites.
O MESMO DISCURSO CONTRA O 13º E O FGTS
Quando o 13º salário foi criado, em 1962, houve intensa campanha empresarial dizendo que a medida causaria desemprego em massa.
O mesmo ocorreu com o FGTS, em 1966.
A LÓGICA ERA SEMPRE A MESMA: qualquer melhoria na vida do trabalhador seria “insustentável”. Décadas depois, esses direitos são vistos como básicos por grande parte da sociedade.
QUASE 40 ANOS SEM REDUÇÃO DA JORNADA E MUITOS AVANÇOS NA PRODUTIVIDADE E TECNOLOGIAS
Desde a Constituição de 1988, que reduziu a jornada semanal de 48 para 44 horas, o trabalhador brasileiro praticamente não teve avanços estruturais no tempo de trabalho.
Enquanto isso:
* a produtividade aumentou;
* a tecnologia avançou;
* a automação cresceu;
* os lucros empresariais dispararam em diversos setores;
* e bilhões em investimentos públicos impulsionaram empresas privadas.
Mesmo assim, os ganhos produzidos pelo avanço tecnológico raramente foram convertidos em mais qualidade de vida para quem trabalha.
Ao contrário: muitos direitos foram enfraquecidos, especialmente após a reforma trabalhista de 2017 e a ampliação da terceirização da atividade-fim.
A LUTA PELAS 40 HORAS E PELO FIM DA ESCALA 6X1
A defesa da jornada de 40 horas semanais e do fim da escala 6x1 não é radicalismo.
É continuidade histórica.
Toda conquista trabalhista importante nasceu enfrentando resistência econômica e política. Nenhum direito foi entregue espontaneamente.
Todos foram conquistados com organização popular, pressão sindical, mobilização social e luta política.
O trabalhador produz mais do que nunca. A tecnologia nunca avançou tanto. Portanto, é legítimo perguntar:
se a produtividade aumentou, por que o povo continua trabalhando tanto enquanto poucos concentram cada vez mais riqueza?
Reduzir a jornada não significa destruir a economia.
Significa dividir melhor o tempo, a riqueza, a saúde e a dignidade.
A história não absolve a exploração
Os mesmos argumentos usados hoje contra a redução da jornada já foram usados contra praticamente todos os direitos trabalhistas da história brasileira.
Disseram que férias destruiriam empresas.
Disseram que aposentadoria era inviável.
Disseram que o 13º causaria falências.
Disseram que limitar jornadas quebraria o país.
Erraram antes.
E podem estar errando novamente.
A história mostra que sociedades avançam quando o desenvolvimento econômico é acompanhado de dignidade humana, proteção social e valorização do trabalho.
O futuro não pode ser apenas tecnológico. Precisa ser humano também.
E toda vez que trabalhadores conquistam mais tempo de vida, descanso e dignidade, a sociedade inteira avança junto.
Me orgulho por fazer parte deste debate, quiçá a mais importante das lutas da minha história, dar dignidade ao trabalhador!
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