Quem foi criança nos anos 1980 e 1990 era bombardeado com propagandas de brinquedos (“Toda a criança tem a Estrela dentro do coração”), de cigarro (“Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum”) e de bebidas alcoólicas (“A Kaiser é uma grande cerveja, a Kaiser é uma grande cerveja...”). Ao longo das décadas seguintes, essas propagandas foram restringidas ou proibidas. A sociedade acabou percebendo que nem toda atividade econômica pode ser promovida sem limites e que a liberdade de anunciar encontra seu freio quando começa a produzir danos coletivos (alguns mais nocivos e imediatos que outros).
No caso dos brinquedos, entendeu-se que a publicidade dirigida às crianças explorava justamente sua maior vulnerabilidade: a incapacidade de distinguir plenamente o entretenimento da persuasão comercial.
Já no caso das bebidas alcoólicas, reconheceu-se que o álcool, embora seja uma droga lícito, produz graves consequências sociais e sanitárias, pelo não poderia continuar sendo vendido como sinônimo de felicidade, virilidade, sucesso ou popularidade.
Com o cigarro, a conclusão foi ainda mais contundente: a ciência demonstrou que sua publicidade incentivava o consumo de um produto responsável por milhões de mortes evitáveis, especialmente entre jovens que iniciavam precocemente o hábito de fumar (um dia precisaremos falar sobre os vapes!).
Agora, a história parece se repetir. Vivemos uma verdadeira avalanche de propagandas de casas de apostas. As "bets" patrocinam campeonatos, clubes, programas esportivos, influenciadores digitais e ocupam, diariamente, os intervalos da televisão e redes sociais. A mensagem é sempre a mesma: apostar (diga-se, a qualquer hora do dia ou da noite, e em qualquer lugar com wi-fi ou 5G) seria uma forma de se divertir, ganhar algum dinheiro fácil ou, simplesmente, tornar um Operário versus Luverdense num jogo emocionante.
Pouco se fala sobre quem desenvolve dependência (graças às altas doses de dopamina, o neurotransmissor do prazer) ou sobre as famílias que veem suas economias desaparecerem em poucos cliques.
Estudos recentes apontam que as apostas online passaram a figurar entre os principais fatores associados ao endividamento das famílias brasileiras, superando variáveis tradicionalmente relevantes, como o custo do crédito. Paralelamente, pesquisas estimam que milhões de brasileiros apresentam comportamento de risco relacionado às apostas, enquanto estudos calculam que os danos econômicos decorrentes da ludopatia (compulsão incontrolável por jogos de azar), da depressão e dos suicídios associados ao jogo alcançam dezenas de bilhões de reais por ano.
Sempre que a sociedade percebeu que determinada publicidade produzia danos relevantes, o Estado interveio. Foi assim com os brinquedos dirigidos às crianças. Foi assim com o álcool. Foi assim com o cigarro. Não porque esses produtos tenham sido necessariamente proibidos (embora se recomende que seu acesso seja dificultado), mas porque se reconheceu que a liberdade econômica não inclui o direito de estimular comportamentos potencialmente nocivos por meio de campanhas milionárias, cuidadosamente planejadas para despertar desejos, criar ilusões e reduzir a percepção dos riscos.
Talvez estejamos vivendo exatamente esse momento em relação às apostas esportivas. É bem possível que logo olhemos para os comerciais das "bets" com o mesmo espanto com que hoje assistimos às antigas propagandas de cigarro, nas quais médicos recomendavam determinada marca ou atletas apareciam fumando (“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”, legislou Gerson, nosso Canhotinha de Ouro). A pergunta que ficará é simples: se já sabemos dos prejuízos sociais, financeiros e psicológicos provocados pelo jogo compulsivo, por que esperar mais uma geração de endividados, dependentes e famílias destruídas para fazer com as apostas o que já fizemos com os brinquedos, o álcool e o cigarro?
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