A tensão voltou a crescer na região da Barragem Norte, em José Boiteux, após indígenas do povo Laklãnõ-Xokleng retomarem a ocupação da área e anunciarem que novas visitas de autoridades não serão permitidas sem comunicação prévia e autorização das lideranças da comunidade.
A mobilização ocorre poucos dias depois da conturbada visita do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, ao território indígena. A agenda, realizada em 8 de julho de 2026, deveria servir para acompanhar obras na barragem, mas terminou em discussão, troca de acusações e forte repercussão nas redes sociais.
Vídeos divulgados por indígenas mostram o governador discutindo com integrantes da comunidade e respondendo com um palavrão durante as cobranças. Posteriormente, a Associação da Juventude Indígena Xokleng publicou uma nota de repúdio, afirmando que a entrada na terra indígena teria ocorrido sem comunicação prévia ou autorização das lideranças locais.
Promessas que atravessam décadas
O conflito não pode ser resumido a um simples desentendimento ocorrido durante uma visita oficial. Por trás da discussão existem reivindicações que se arrastam há mais de duas décadas.
Em agosto de 2025, o Ministério Público Federal informou que um acordo havia sido articulado para iniciar o cumprimento de uma decisão judicial de 2003, relacionada às compensações pelos impactos da Barragem Norte sobre a Terra Indígena Laklãnõ-Xokleng e municípios vizinhos.
O pacote anunciado ultrapassava R$ 70 milhões e previa habitações, estradas, pontes, estrutura escolar e cultural, melhorias no fornecimento de energia elétrica e outras intervenções. O próprio MPF registrou o compromisso estadual de construir 40 unidades habitacionais para famílias indígenas, incluindo moradores de áreas de risco e famílias instaladas nas proximidades da barragem.
As lideranças, entretanto, afirmam que parte dos compromissos históricos ainda não foi efetivamente concluída. Também relatam problemas relacionados ao isolamento de aldeias, alagamentos, abastecimento de água, transporte emergencial e atendimento à saúde.
Diante desse histórico, o Governo do Estado precisa apresentar mais do que vídeos, discursos e números. É necessário divulgar cronogramas, contratos, medições, valores pagos e o estágio real de cada obra prometida.
Governo afirma que obras continuam
O Governo de Santa Catarina sustenta que as obras seguem normalmente e afirma estar cumprindo os compromissos assumidos com a comunidade.
Durante a visita, Jorginho Mello declarou que o acordo inicialmente previa 20 moradias, mas que o Estado estaria construindo mais de 40 casas. O número de 40 unidades também aparece no acordo divulgado oficialmente pelo Ministério Público Federal em 2025.
O anúncio das casas é importante, mas não encerra o debate. Construir moradias não autoriza qualquer governo a ignorar protocolos de entrada em território indígena, tratar cobranças legítimas como provocação política ou substituir negociação por confronto.
Ao mesmo tempo, impedir indefinidamente o acesso técnico à barragem também pode agravar os riscos. A estrutura tem papel estratégico na contenção de cheias no Vale do Itajaí, e qualquer impasse que prejudique manutenção, fiscalização ou operação pode atingir milhares de moradores.
É justamente por isso que a responsabilidade do governo é ainda maior.
Não se governa uma crise com arrogância
Apoiadores do governador tentam transformar o episódio em uma disputa simplista entre “progresso” e “atraso”. Essa narrativa ignora a complexidade histórica da Barragem Norte e os prejuízos enfrentados pela comunidade indígena desde sua implantação.
Também é irresponsável tratar todas as críticas ao governo como perseguição eleitoral. Cobrar respeito, transparência e cumprimento de decisões judiciais não significa ser contra a segurança da população do Vale.
Da mesma forma, defender o povo Laklãnõ-Xokleng não significa aceitar que a barragem fique sem manutenção ou impossibilitada de cumprir sua função.
O que falta é justamente aquilo que deveria ter vindo antes de qualquer visita: planejamento, diálogo institucional e respeito entre as partes.
Prefeitos precisam deixar o silêncio
Prefeitos dos municípios sujeitos a enchentes não podem permanecer como espectadores de um conflito que envolve diretamente a segurança da população.
É necessário que os gestores municipais se mobilizem, cobrem reuniões com o Governo do Estado, participem das negociações com as lideranças indígenas e exijam um plano público para a conclusão das obras e para a operação segura da barragem.
O debate não deve ser conduzido por torcidas políticas, ataques pessoais ou publicações nas redes sociais. A vida de moradores do Alto e Médio Vale do Itajaí não pode depender do humor de autoridades ou da capacidade de diálogo depois que o conflito já está instalado.
Desgaste também pode chegar às urnas
O episódio representa mais um foco de desgaste político para Jorginho Mello às vésperas do processo eleitoral de 2026.
Caso o governo continue apostando na confrontação, deixe de esclarecer o andamento das obras ou não consiga reconstruir o diálogo com os indígenas, a crise poderá atingir diretamente sua imagem entre moradores dos municípios que dependem da Barragem Norte.
A água não escolhe partido, ideologia ou candidato. Quando as chuvas fortes chegam, indígenas, moradores das cidades, comerciantes e agricultores enfrentam os mesmos riscos.
O governador precisa decidir se pretende administrar o problema ou apenas disputar uma narrativa política sobre ele.
Santa Catarina não precisa de mais um confronto. Precisa de respeito ao povo Laklãnõ-Xokleng, segurança para os moradores do Vale e cumprimento integral dos compromissos assumidos.
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