O Brasil, definitivamente, entrou numa nova era do debate público. Já não discutimos inflação, educação, infraestrutura ou propostas concretas para melhorar a vida das pessoas. Evoluímos. Agora o destino da nação repousa sobre uma questão muito mais profunda e civilizatória: produtos com lote final 1.
Bastou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária suspender cautelarmente alguns itens específicos para que a internet se transformasse numa espécie de tribunal medieval digital, onde especialistas instantâneos em vigilância sanitária, química industrial e geopolítica internacional passaram a emitir sentenças definitivas entre um café e outro.
De um lado, surgiram os arautos do apocalipse cosmético: “Está provado! É o colapso moral da República!”
Do outro, os defensores épicos do frasco e da embalagem: “Trata-se de uma conspiração arquitetada pelas forças ocultas do mercado!”
E assim, em questão de horas, uma medida técnica dessas que órgãos reguladores fazem rotineiramente justamente para averiguar, corrigir e proteger o consumidor foi promovida à condição de capítulo central da guerra ideológica nacional.
No Brasil polarizado, nem um lote escapa da militância. Se a tampa veio torta, há um plano político. Se o rótulo desbotou, é perseguição institucional. Se a fiscalização atuou, golpe. Se não atuasse, omissão criminosa.
Talvez esteja faltando algo revolucionário no debate público: bom senso.
Porque, no mundo real, suspensão cautelar não é veredito final, fiscalização não é palanque, e nem todo procedimento técnico precisa virar combustível para narrativas histéricas de ambos os lados.
Mas isso exigiria um esforço quase sobrenatural de certa parcela do ecossistema digital: ler antes de opinar, compreender antes de compartilhar e, sobretudo, aceitar que nem todo acontecimento precisa ser encaixado à força no roteiro delirante da própria bolha ideológica.
No fim, sobra uma legião de comentaristas políticos de embalagem, gente que transforma meia informação em tese de doutorado e um print de rede social em perícia técnica. Alienados tão convictos quanto desinformados, capazes de defender ou condenar qualquer coisa desde que isso alimente a seita virtual da vez.
E talvez a maior tragédia do “caso IPÊ” nem seja o lote final 1, mas o fato de que tanta gente esteja desperdiçando preciosos minutos dab própria existência para ouvir opiniões tão rasas que não sustentariam nem o peso de uma tampa de detergente.
FONTE/CRÉDITOS: Alfroh Postai
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