A formação de novas carteiras de investimentos pelo Banco Master, com o objetivo de captar recursos no mercado durante um período de crise de liquidez, foi o gatilho que alertou o Banco Central (BC) sobre irregularidades na gestão da instituição financeira. A informação foi divulgada nesta terça-feira (19) pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, durante uma audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.
A liquidez bancária refere-se à capacidade de um banco de dispor de fundos suficientes para honrar seus compromissos de curto prazo.
“Um banco com dificuldades de liquidez não forma carteiras; ele as vende. A questão que nos chamou a atenção foi a criação de novas carteiras em vez da venda das existentes. Essa incongruência alertou o BC imediatamente”, explicou Galípolo aos senadores.
O presidente do BC reforçou a atuação da autoridade monetária no caso do Banco Master, que enfrenta acusações de fraudes financeiras bilionárias.
Galípolo mencionou que, em novembro de 2024, foi firmado um termo de compromisso com o Master, estabelecendo um prazo de seis meses para que o banco ajustasse sua governança, capital e liquidez.
Inicialmente, o Master buscou captar recursos no mercado com garantias do Fundo de Garantia de Créditos (FGC). Contudo, surgiram restrições para essa captação. Posteriormente, o banco tentou obter fundos de investimento, mas sem sucesso.
“O banco intensificou a venda de carteiras, especialmente para o BRB, um processo que já vinha ocorrendo desde 2023, mas com uma nova urgência”, detalhou Galípolo.
A venda de carteiras de investimentos do Master ao Banco Regional de Brasília (BRB), uma instituição pública vinculada ao Governo do Distrito Federal, está sob investigação da Polícia Federal. Há suspeitas de fraude em cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos negociados. O BRB chegou a propor a aquisição do Master, mas a operação foi vetada pelo BC.
A partir de janeiro de 2025, com o Master criando novas carteiras de investimentos em meio a problemas de liquidez, o BC estabeleceu um grupo dedicado à análise dessas operações. A liquidação extrajudicial do Banco Master ocorreu dez meses depois, em 18 de novembro de 2025, após a recusa da compra pela BRB.
Antes da liquidação, o Banco Master apresentou uma nova proposta que envolvia supostos investidores árabes, cujas identidades não foram confirmadas pelo presidente do BC.
“Após a rejeição da compra pelo BRB, o banco solicitou ao FGC e ao BC uma autorização para uma autoliquidação, reconhecendo sua inviabilidade e propondo a transferência para esses investidores árabes. Nunca tive conhecimento de quem seriam”, concluiu Galípolo.
Risco sistêmico
O presidente do Banco Central reiterou que a liquidação do Banco Master não representou um risco sistêmico para o mercado financeiro, que pudesse desencadear uma crise bancária generalizada.
“Trata-se de um banco com menos de 0,5% do sistema bancário, portanto, sem risco sistêmico. A preocupação principal residia nas operações realizadas com os fundos do Banco Master”, afirmou.
Galípolo ressaltou que a liquidação de uma instituição não deve ser vista como uma punição aos seus gestores, especialmente quando os clientes são os mais afetados.
“Punir uma instituição que foi vítima de má gestão é um erro, pois agrava o prejuízo para as vítimas, incluindo os correntistas. A liquidação de uma instituição ocorre quando ela atinge um ponto de não retorno”, explicou.
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