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EDITORIAL — OPINIÃO > POLÍTICA

Deus, Pátria e Família: de que adianta defender valores cristãos enquanto se espalha ódio contra o próximo?

Em nome da política, pessoas que dizem defender a fé, a família e os princípios cristãos transformam as redes sociais em tribunais de intolerância. Afinal, onde ficaram o amor, o respeito e os ensinamentos de Jesus Cristo?

Deus, Pátria e Família: de que adianta defender valores cristãos enquanto se espalha ódio contra o próximo?
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Vivemos tempos preocupantes. A intolerância política parece ter ultrapassado os limites do debate democrático e, em muitos casos, está destruindo algo que deveria estar acima de qualquer ideologia: o respeito ao próximo.

O mais triste é perceber que parte desse comportamento vem justamente de pessoas que se apresentam como defensoras de Deus, da Pátria e da Família. Pessoas que levantam a bandeira da família tradicional, frequentam igrejas, citam versículos bíblicos e afirmam seguir os ensinamentos de Jesus Cristo, mas que, diante de uma opinião política diferente, parecem esquecer tudo aquilo que dizem acreditar.

É importante deixar claro: não se trata de atacar uma religião, uma igreja ou todos aqueles que defendem valores conservadores. Trata-se de questionar a incoerência de quem utiliza a fé como discurso, mas pratica a intolerância como atitude.

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Quando a política se torna mais importante que o amor ao próximo

Nas redes sociais, vemos manifestações de pessoas que não se contentam em discordar politicamente. Algumas chegam ao ponto de pedir a demissão de trabalhadores simplesmente porque votaram em determinado candidato ou manifestaram uma opinião contrária à sua.

Outras defendem boicotes a estabelecimentos comerciais apenas porque seus proprietários pensam diferente. Há ainda quem transforme comentários e publicações em verdadeiros ataques pessoais, com ofensas, humilhações e tentativas de prejudicar a vida profissional de quem não compartilha das mesmas convicções.

Mas precisamos fazer algumas perguntas.

Desde quando pensar diferente se tornou motivo para tirar o emprego de alguém?

Desde quando votar em outro candidato significa perder o direito de trabalhar, sustentar a família e viver com dignidade?

Desde quando uma preferência política passou a determinar quem merece respeito?

Aquele funcionário que está sendo atacado também tem uma família. Também precisa pagar suas contas, colocar comida na mesa e cuidar dos filhos.

O comerciante que está sendo perseguido também gera empregos, paga impostos e luta diariamente para manter seu negócio funcionando.

Que tipo de sociedade estamos construindo quando desejamos a ruína financeira de alguém simplesmente porque essa pessoa não pensa como nós?

Onde estão os princípios bíblicos que tanto defendem?

É impossível falar sobre esse comportamento sem lembrar dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Em Mateus 22:39, encontramos um dos maiores mandamentos:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Jesus não ensinou que devemos amar apenas aqueles que votam no mesmo candidato, frequentam a mesma igreja ou compartilham das nossas opiniões.

O amor ao próximo não deveria depender de partido político, ideologia, religião ou posição social.

Em Mateus 5:44, Jesus também ensina a amar os inimigos e orar por aqueles que nos perseguem.

Então, fica a reflexão: como alguém pode afirmar que segue os ensinamentos de Cristo enquanto utiliza as redes sociais para desejar o desemprego, o fracasso e o sofrimento de outra pessoa?

Como é possível levantar a Bíblia com uma mão e, com a outra, escrever mensagens de ódio contra quem pensa diferente?

A fé não deveria ser uma arma para atacar pessoas. Deveria ser um caminho para promover a paz, a solidariedade, a humildade e o perdão.

Deus não pertence a nenhum partido político

Talvez um dos maiores equívocos dos nossos tempos seja a tentativa de transformar Deus em propriedade de uma ideologia política.

Há quem se comporte como se apenas um grupo tivesse o direito de falar em nome da fé, da moralidade e dos valores familiares.

Mas desde quando Deus tem partido político?

Desde quando alguém recebeu autoridade para determinar que somente suas opiniões representam a verdade absoluta?

A democracia existe justamente porque as pessoas têm o direito de pensar diferente, escolher seus representantes e expressar suas convicções.

Ninguém é obrigado a concordar com tudo. Discordar faz parte da liberdade de expressão. Criticar governos, políticos e decisões públicas também é um direito legítimo.

Entretanto, existe uma diferença enorme entre defender uma ideia e tentar destruir a vida de alguém por pensar diferente.

A liberdade de expressão não deveria ser confundida com a liberdade de humilhar, perseguir e desumanizar o próximo.

E isso vale para todos os lados do espectro político.

Que família estamos defendendo quando desejamos destruir a família dos outros?

Essa talvez seja uma das maiores contradições.

Como alguém pode afirmar que defende a família e, ao mesmo tempo, pedir que um trabalhador seja demitido por causa de seu voto?

Como defender os valores familiares enquanto se deseja que um pequeno comerciante perca seus clientes e sua fonte de renda por discordâncias políticas?

A família que merece proteção não é apenas aquela que pensa como nós.

É também a família do trabalhador que votou diferente. É a família do comerciante que possui outra visão de mundo. É a família de quem frequenta outra igreja, segue outra religião ou simplesmente não professa nenhuma fé.

Defender a família significa reconhecer o valor e a dignidade de todas as famílias, inclusive daquelas que não compartilham das nossas escolhas.

Não existe coerência em pregar o amor dentro de um templo religioso e incentivar a hostilidade fora dele.

Pastores e lideranças religiosas também precisam refletir

A responsabilidade de quem exerce liderança religiosa é ainda maior.

Pastores e outros líderes espirituais exercem influência sobre pessoas que procuram orientação, esperança e conforto.

Por isso, suas palavras precisam ser acompanhadas de responsabilidade.

O altar não deveria ser transformado em palanque de intolerância, assim como a fé não deveria servir de justificativa para alimentar divisões entre brasileiros.

Liderar espiritualmente não significa exigir que todos tenham a mesma preferência política. Significa, entre outras coisas, ensinar o respeito, a compaixão e a convivência com as diferenças.

Felizmente, existem inúmeras lideranças religiosas que trabalham diariamente pela paz, ajudam famílias necessitadas e demonstram, por meio de atitudes, aquilo que pregam.

São esses exemplos que deveriam ganhar força.

Afinal, o verdadeiro testemunho de fé não está apenas nas palavras pronunciadas durante um culto, mas principalmente na maneira como tratamos as pessoas fora da igreja.

Por que não trocar o ódio pela oração?

Aos que passam horas nas redes sociais atacando pessoas, promovendo perseguições e desejando o fracasso de quem pensa diferente, fica um convite à reflexão:

Por que não utilizar parte desse tempo para orar pelo Brasil?

Por que não dobrar os joelhos e pedir a Deus sabedoria para nossos governantes, independentemente de quem esteja no poder?

Por que não pedir paz para nossas famílias, oportunidades para os desempregados, saúde para os enfermos e esperança para aqueles que enfrentam dificuldades?

O Brasil precisa de pessoas dispostas a construir pontes, não de indivíduos empenhados em levantar muros entre irmãos, amigos, vizinhos e colegas de trabalho.

Precisamos de mais empatia e menos arrogância. Mais diálogo e menos ataques. Mais solidariedade e menos perseguição.

Acima de tudo, precisamos compreender que nenhuma eleição, nenhum presidente e nenhum partido político deveria valer mais do que a dignidade humana.

Uma reflexão necessária: de nada adianta falar de Deus e esquecer o próximo

Não podemos permitir que o extremismo político nos faça perder a humanidade.

É possível ser conservador, progressista, de direita, de esquerda ou de centro e, ainda assim, respeitar quem pensa diferente.

É possível defender nossas convicções com firmeza sem desejar o sofrimento alheio.

E é perfeitamente possível ter fé sem transformar a religião em instrumento de divisão.

Aos que tanto proclamam “Deus, Pátria e Família”, fica uma pergunta sincera:

Onde está o amor ao próximo que Jesus tanto ensinou?

Porque a Pátria também é formada por aqueles que votaram diferente.

Porque a Família também é a família daquele trabalhador que vocês querem ver desempregado.

E porque Deus, para quem professa a fé cristã, não deveria ser lembrado apenas nos discursos, mas também nas atitudes.

Antes de publicar mais uma ofensa, incentivar uma perseguição ou desejar o fracasso de alguém, vale fazer uma pergunta simples:

Jesus Cristo aprovaria a maneira como estou tratando essa pessoa?

Talvez esteja faltando menos disputa para provar quem tem razão e mais humildade para reconhecer que ninguém é dono absoluto da verdade.

O Brasil não precisa de mais ódio disfarçado de patriotismo, nem de intolerância disfarçada de fé. Precisa de respeito, responsabilidade, compaixão e amor ao próximo.

Porque, no fim das contas, não é o tamanho da Bíblia que alguém carrega, a quantidade de versículos que publica ou o volume com que proclama sua fé que revela seus valores.

É a maneira como trata o próximo, principalmente quando esse próximo pensa diferente.

E fica a reflexão final:

De que adianta querer salvar a Pátria, defender a Família e falar tanto em Deus, se, no caminho, esquecemos justamente de amar as pessoas?

FONTE/CRÉDITOS: REDAÇÃO

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