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EDITORIAL — OPINIÃO > COLONIZAÇÃO

Santa Catarina não é só alemã: até Blumenau e Pomerode têm uma história muito mais diversa do que muitos imaginam

Presença de italianos, portugueses, poloneses, africanos e povos indígenas revela que a identidade catarinense vai muito além da colonização germânica. A origem do sobrenome da deputada Júlia Zanatta ajuda a levantar essa reflexão.

Santa Catarina não é só alemã: até Blumenau e Pomerode têm uma história muito mais diversa do que muitos imaginam
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Quando se fala em Santa Catarina, especialmente em cidades como Blumenau e Pomerode, a colonização alemã costuma ocupar o centro das atenções. A arquitetura enxaimel, as festas típicas, a gastronomia e os costumes preservados ao longo das gerações transformaram a herança germânica em um dos principais símbolos culturais e turísticos do estado.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre reconhecer a forte influência alemã e afirmar que Santa Catarina, Blumenau ou Pomerode possuem uma população exclusivamente descendente de alemães.

A história demonstra que essa exclusividade não existe.

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O território catarinense já era ocupado por povos indígenas antes da chegada dos europeus. Posteriormente, recebeu portugueses, açorianos, alemães, italianos, poloneses e outros grupos. A presença africana e afrodescendente também faz parte dessa formação histórica, embora frequentemente tenha recebido menor visibilidade.

Essa diversidade pode ser observada tanto nas grandes cidades quanto em comunidades do interior.

Blumenau não começou com os alemães

Um dos dados mais importantes está registrado na própria história oficial de Blumenau.

Segundo a Prefeitura Municipal, a região já era habitada por populações indígenas, entre elas os Kaingang e Xokleng, antes da criação da colônia fundada por Hermann Bruno Otto Blumenau, em 1850.

Também existiam famílias estabelecidas em localidades como Belchior, Ribeirão Garcia e nas proximidades do Rio Itajaí-Açu.

Isso demonstra que a presença humana na região antecede a fundação da colônia alemã.

A administração municipal reconhece ainda que, após os primeiros colonizadores alemães, chegaram italianos, poloneses e descendentes de portugueses provenientes de outras regiões catarinenses.

Portanto, embora a imigração alemã tenha sido determinante para o desenvolvimento da cidade, ela não representa a totalidade de sua formação histórica.

Italianos também ajudaram a construir Blumenau

A participação italiana na história de Blumenau não é apenas uma referência genérica à imigração europeia.

Em 2026, a Prefeitura divulgou uma pesquisa do historiador Gabriel Dalmolin sobre a chegada e o estabelecimento de imigrantes italianos da Lombardia na antiga Colônia Blumenau.

O estudo amplia o conhecimento sobre a contribuição italiana para a formação da cidade e demonstra que diferentes grupos participaram de seu desenvolvimento.

Essa presença também se estendeu ao Médio Vale do Itajaí, alcançando localidades que posteriormente deram origem a municípios com forte tradição italiana.

Blumenau tornou-se conhecida nacionalmente pela preservação da cultura germânica, mas sua trajetória histórica também reúne outras identidades.

E Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil?

Pomerode ocupa um lugar especial nessa discussão.

Conhecida como a Cidade Mais Alemã do Brasil, o município preserva uma importante herança cultural ligada aos imigrantes germânicos, especialmente aos pomeranos.

A colonização da região do Rio do Testo ganhou força a partir de 1861, com a chegada de famílias europeias que contribuíram para estabelecer as comunidades que deram origem ao município.

A influência germânica permanece visível na arquitetura, nas tradições familiares, na gastronomia, no idioma e nas manifestações culturais.

Contudo, essa característica histórica não significa que todos os atuais moradores de Pomerode sejam descendentes de alemães.

Ao longo do tempo, o município também recebeu migrantes de outras localidades e formou novas famílias com diferentes origens.

A própria documentação da Câmara Municipal reconhece os efeitos das migrações e da miscigenação na composição da população.

Assim, Pomerode pode preservar legitimamente o título de Cidade Mais Alemã do Brasil sem que isso signifique uma população exclusivamente alemã.

Ser uma cidade marcada pela cultura germânica não é o mesmo que ser uma cidade formada somente por descendentes de alemães.

Júlia Zanatta e a importância das diferentes origens

Um exemplo que permite ampliar essa reflexão é o da deputada federal Júlia Pedroso Zanatta, nascida em Criciúma, no Sul de Santa Catarina.

O sobrenome Zanatta possui origem linguística e histórica associada à Itália, especialmente à região do Vêneto.

A parlamentar nasceu em 20 de março de 1985, é formada em Direito e Jornalismo e iniciou sua trajetória eleitoral em Criciúma, onde disputou a prefeitura em 2020.

Eleita deputada federal em 2022, conquistou a reeleição em outubro de 2026, com 560.223 votos.

Sua história pessoal reforça a oportunidade de discutir a diversidade de origens presentes no estado.

Entretanto, é importante registrar que a origem italiana de um sobrenome não comprova automaticamente toda a ascendência familiar de uma pessoa.

No caso de Júlia Zanatta, a documentação pública examinada não permite identificar com segurança todos os ramos de sua árvore genealógica nem confirmar ou excluir eventuais antepassados alemães.

O exemplo, portanto, serve para demonstrar que diferentes tradições de nomes e histórias familiares coexistem em Santa Catarina, e não para estabelecer uma ascendência exclusiva da parlamentar.

A imigração italiana tem um peso expressivo na história catarinense

Em 2025, quando Santa Catarina celebrou os 150 anos da grande imigração italiana, a Assembleia Legislativa divulgou um levantamento histórico que apresentou estimativas de que entre 60% e 70% dos catarinenses possuiriam alguma ascendência italiana.

O número chama a atenção porque contrasta com a imagem frequentemente associada ao estado, marcada pela forte visibilidade da cultura alemã.

Mas existe uma ressalva importante: essas estimativas não representam uma contagem censitária de ascendências exclusivas. Uma mesma pessoa pode descender de italianos, alemães, portugueses e outros povos simultaneamente.

A contribuição italiana é especialmente visível no Sul, no Oeste e em diferentes localidades do Vale do Itajaí.

Ao mesmo tempo, a colonização portuguesa e açoriana deixou marcas profundas no litoral, enquanto outras correntes migratórias ajudaram a formar a diversidade encontrada no interior.

A história indígena e africana não pode ser esquecida

Outro ponto fundamental é que a história de Santa Catarina não começou com a imigração europeia.

Muito antes da chegada de alemães e italianos, o território era habitado por povos originários, entre eles Guarani, Kaingang e Xokleng.

A presença indígena integra a história da ocupação territorial, dos caminhos, das relações sociais e dos conflitos que marcaram a formação catarinense.

Da mesma forma, africanos e afrodescendentes participaram da construção econômica, social e cultural do estado.

Reduzir toda a história catarinense à colonização europeia significa deixar de lado parcelas importantes da população e de sua memória.

Valorizar a cultura alemã não significa apagar as outras

Não há dúvidas sobre a importância dos imigrantes alemães para Santa Catarina.

Seu legado está presente na economia, na indústria, na arquitetura, na educação, nas manifestações culturais e na identidade de diferentes municípios.

Blumenau e Pomerode são exemplos expressivos dessa herança.

Entretanto, reconhecer essa contribuição não exige ignorar outras origens.

Uma cidade pode celebrar suas tradições alemãs e, ao mesmo tempo, reconhecer a participação de italianos, portugueses, poloneses, indígenas, afrodescendentes e tantos outros grupos que integram sua história.

A preservação cultural ganha ainda mais significado quando acompanhada do reconhecimento da diversidade.

Ser catarinense é muito mais do que ter ascendência alemã

Santa Catarina foi construída por diferentes povos, em diferentes momentos históricos.

A influência alemã é uma das mais conhecidas e valorizadas, mas não representa a totalidade da identidade catarinense.

Blumenau não possui uma história exclusivamente alemã. Pomerode, apesar de sua predominante herança germânica, também não pode ser definida como uma comunidade de ascendência exclusivamente alemã.

O mesmo raciocínio vale para todo o estado.

A verdadeira identidade catarinense não está na existência de uma única origem, mas na convivência de múltiplas histórias, famílias e tradições que ajudaram a construir Santa Catarina.

Reconhecer essa diversidade não diminui a importância dos colonizadores alemães. Pelo contrário: permite compreender sua contribuição dentro de uma história muito maior.

Santa Catarina tem raízes alemãs, italianas, portuguesas, africanas, indígenas e muitas outras. E nenhuma delas, isoladamente, representa todos os catarinenses.

FONTE/CRÉDITOS: REDAÇÃO

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