O Brasil viveu, entre 1964 e 1985, um dos períodos mais sombrios de sua história política: a ditadura militar, instaurada por um golpe de Estado que derrubou o presidente democraticamente eleito João Goulart. O regime foi conduzido por militares com apoio explícito de setores da direita política, elites econômicas, parte da imprensa, empresários e grupos civis que viam no autoritarismo uma forma de conter avanços sociais e o fortalecimento de movimentos populares.
O golpe foi justificado sob o discurso do combate ao comunismo e da defesa da “ordem”, da “família” e da “pátria”. Na prática, o que se seguiu foi a suspensão da democracia, o fechamento do Congresso em diversos momentos, a cassação de mandatos, a extinção de partidos políticos e a supressão de direitos fundamentais. A Constituição foi rasgada por atos institucionais, especialmente o AI-5, que institucionalizou a censura, a repressão e a perseguição política.
Durante os 21 anos de ditadura, o Brasil registrou prisões arbitrárias, tortura, assassinatos, desaparecimentos forçados e censura à imprensa, fatos amplamente documentados por comissões oficiais, como a Comissão Nacional da Verdade. Artistas, jornalistas, estudantes, sindicalistas, religiosos e opositores políticos foram alvos diretos do regime. A repressão não distinguiu ideologias: qualquer voz dissonante era tratada como ameaça.
Embora o regime se apresentasse como defensor da moral e dos valores tradicionais, sua sustentação se deu pela força, pelo medo e pela violência institucionalizada. A economia, frequentemente citada por defensores do período como exemplo de eficiência, foi marcada por crescimento concentrado, aumento da desigualdade social e endividamento externo elevado, cujo impacto foi sentido por décadas.
A ditadura brasileira foi, portanto, um projeto político autoritário de direita, alinhado à lógica da Guerra Fria e apoiado por interesses internos e externos, inclusive com influência direta dos Estados Unidos. Negar essa origem ou relativizar seus crimes é reescrever a história e enfraquecer a memória democrática do país.
Relembrar esse período não é revanchismo, mas compromisso com a verdade histórica. Democracia não é concessão de governos ou de líderes, mas uma construção permanente da sociedade. Quando setores políticos, ainda hoje, defendem intervenção militar, relativizam a tortura ou atacam instituições democráticas, reacendem fantasmas de um passado que o Brasil não pode repetir.
Conhecer a ditadura implantada pela direita no Brasil é essencial para compreender que autoritarismo não tem cor ideológica única, mas no caso brasileiro teve lado, apoio e responsabilidade bem definidos — e deixou feridas que ainda não cicatrizaram completamente.
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