Sempre fico inquieto (leia-se, irritado) quando ouço alguém defender a meritocracia como se ela fosse a explicação suficiente para o sucesso, um dos pilares do capitalismo. Curiosamente, quem costuma exaltá-la é justamente quem mais desfrutou de uma série de privilégios (ainda que não os perceba ou não queria admitir). Não estou dizendo que essas pessoas não trabalharam duro. Estou apenas lembrando que esforço e privilégio não são conceitos incompatíveis.
Pense nos empresários bem-sucedidos, os self-made man, aqueles que se julgam grandes exemplos ou legitimados a ensinar os outros a como empreender e como enriquecer. E se lhes retirassem tudo (o patrimônio acumulado, a rede de contatos construída ao longo dos anos, a reputação conquistada e toda a estrutura que conseguiu organizar)? Se, mesmo assim, eles conseguirem criar uma empresa de sucesso do zero, a partir de uma ideia inteiramente nova, então, de fato, eles terão autoridade para dizer que dominam a fórmula mágica.
É óbvio que essas pessoas existem e merecem ser admiradas (e não invejadas, como acontece muito no Brasil). Mauá, admirado e invejado no século XIX, foi um exemplo.
Acontece que o sucesso nasce da combinação de vários fatores, como esforço, competência, circunstâncias favoráveis e... sorte. Ou seja, “estar no lugar certo na hora certa”. Evidentemente, de nada adianta estar no lugar preciso e na hora exata, se a pessoa não souber identificar a oportunidade ou, principalmente, não estiver preparada para aproveitá-la.
Daí – no estar preparado – que entra a questão da meritocracia: partimos todos do mesmo lugar, ou há quem largue na frente (porque os pais, por exemplo, ralaram para posicioná-lo melhor)? É que tem quem se vanglorie (e se justifique) do mérito dos pais ou dos avós, mas daí é outra história. E, sinceramente, quem pode ser censurado por querer proporcionar aos filhos melhor escola, melhores contatos, maior estabilidade e mais oportunidades do que ele(a) próprio(a) as teve? O mérito dos pais não se transmite geneticamente, mas seus efeitos sim.
Ou seja, se você está onde está graças ao esforço dos seus antepassados, não me venha com chorumelas! Você não é um meritocrata, mas um privilegiado.
Querem outros privilégios ocultos? Cor da pele, gênero, orientação sexual, o bairro onde cresceu, a qualidade da educação recebida, o ambiente familiar, a rede de relacionamentos, a condição econômica, etc.
Enquanto essas variáveis continuarem influenciando as oportunidades de cada um, me desculpem, falar em meritocracia em estado puro é, no mínimo, uma simplificação excessiva.
Quer ver como funciona? E se o Barão de Mauá fosse preto e tivesse começado a vida como escravo, teria chegado aonde chegou? Talvez até tivesse, por mérito próprio (e ele tinha muitos!), mas ele teria, no mínimo, muito mais dificuldade em ganhar o título nobiliárquico que tornou famoso até os dias de hoje.
Em tempo: eu tenho lugar de fala – por sinal, precisamos falar disso algum dia! – para tratar de (inexistência de) meritocracia: sou branco, homem e heterossexual; nasci e cresci em cidades prósperas e seguras; vim de uma família estruturada, onde recebi muito amor; estudei a vida inteira em escola particular; sempre tive uma biblioteca à minha disposição; ingressei no mercado de trabalho já sob a estabilidade do Plano Real, etc. Se estudei mais do que a maioria dos meus pares? Provavelmente. Trabalhei mais do que a maioria? Possivelmente. Mas, sem dúvida alguma, eu não sou um self-made man. Eu vim trazido, de braço em braço, até aqui.
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