Semana passada fui de carro de Blumenau a Florianópolis e experimentei um *suco do que é ser brasileiro*.
Tão logo deixei a BR470, em Navegantes, dobrei a direita e peguei a BR101. Dali a Floripa era só "seguir reto toda vida”. Estiquei o pescoço, me ajeitei no banco e acelerei até atingir os 100 quilômetros por hora, limite daquele trecho. Então acionei o piloto automático (ou cruise control) e programei o carro para permanecer exatamente naquela velocidade. Pronto! Agora era ir até a capital sem me preocupar em controlar a velocidade e, acaso distraído, ser multado por excesso. Como estava dentro do limite, poderia relaxar na pista da esquerda, destinada aos veículos leves, devidamente em conformidade com a lei. Nem mais. Nem menos.
Acontece que antes mesmo de chegar em Itajaí, descobri o primeiro problema: ninguém parecia particularmente interessado no meu experimento. Fui ultrapassado pela direita duas vezes, recebi umas três saraivadas de farol alto de quem vinha atrás e queria passar e, para completar a cadeia alimentar rodoviária, eu mesmo precisei dar sinal de luz para dois carros que passeavam pela faixa da esquerda a menos de 80 km/h. O piloto automático, concebido para manter uma velocidade constante, tornou-se praticamente inútil.
Entre Itajaí e Balneário Camboriú, veio a fila. Quilômetros de arranca-e-para, sem obra, sem acidente, sem manifestação nem alguma explicação extraordinária. Apenas o fenômeno coletivo da freada: um freia, o de trás freia mais, o seguinte quase para e, alguns quilômetros depois, centenas de pessoas estão imóveis tentando descobrir o que aconteceu. Para ajudar, tem ainda os espertos que entram nas marginais para “ganhar tempo” e depois retornavam à rodovia alguns metros adiante, obrigando todo mundo de trás a frear novamente. É uma modalidade bastante brasileira de eficiência: cada um economiza trinta segundos para, juntos, todos perderem vinte minutos.
Durante as filas, surgiram as motos, transitando entre os carros e buzinando indignadas sempre que algum automóvel ousava mudar de faixa. O curioso era a convicção. A buzina não dizia “cuidado”, mas “saia da frente, estou passando”. O corredor entre duas filas de automóveis parecia ter adquirido, por algum dispositivo legal que desconheço, a natureza de faixa exclusiva para motocicletas.
Na descida do Morro do Boi, novo capítulo. Mesmo respeitando o limite de 60 km/h, não pude usar o piloto automático porque o freio-motor era insuficiente para impedir que o carro ganhasse velocidade. Assim, passei a descida inteira administrando o pedal do freio, atento ao velocímetro e aos radares, numa atividade que se parecia menos com dirigir e mais com desarmar uma bomba: 59, 61, freia; 58, solta; 62, freia de novo.
De Tijucas em diante, com o trânsito mais livre, resolvi dar uma nova chance ao cruise control. Durou pouco. Bastava eu me aproximar de um veículo mais lento para que algum motorista à direita decidisse, precisamente naquele instante, entrar na minha frente para ultrapassar o carro que seguia adiante. Freio. Piloto automático desligado. Retoma a velocidade. Liga novamente. Dois minutos depois: outro carro entra. Freio. Desliga. Retoma. Liga.
Em algum momento, vencido pelo cansaço moral, lembrei-me da margem considerada na fiscalização eletrônica (10% de tolerância) e ajustei o piloto para 109 km/h, tentando recuperar não apenas o tempo perdido, mas alguma dignidade (e, confesso, tendo ultrapassando uns dois pela direita, não sem antes tentar a a seta e o sinal de luz).
No fim, cheguei em Florianópolis quase três horas depois, cansado e irritado.
Mas por que “suco do que é ser brasileiro”?
Experimente cumprir rigorosamente a regra enquanto todos ao seu redor negociam com ela. Você será ultrapassado por quem acha a lei excessivamente rigorosa, atrasado por quem acha que ela não se aplica a si, prejudicado pelo esperto que descobriu um atalho, hostilizado por quem transformou uma conveniência em direito adquirido e, no final, provavelmente começará a flexibilizar a regra também. Não necessariamente porque deixou de acreditar nela, mas porque descobriu que obedecê-la sozinho custa caro.
Talvez esteja aí uma das nossas tragédias cotidianas: o brasileiro não quer propriamente viver sem regras. Quer regras para os outros e exceções para si. O sujeito que exige passagem acima do limite de velocidade é primo daquele que estaciona “só cinco minutinhos” em local proibido, que fura a fila porque está com pressa e que reclama da corrupção enquanto procura alguém “que conhece alguém” para resolver seu problema.
Em suma: eu saí de Blumenau disposto a obedecer a lei e cheguei a Florianópolis negociando com ela. Foram menos de 150 quilômetros para o sistema começar a me corromper.
Definitivamente, o Brasil e a BR101 não são para amadores.
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