Aguarde, carregando...

TERÇA - FEIRA 26/05/2026
Notícias/Cotidiano

Da fila do osso à gasolina: o que os dados revelam sobre Bolsonaro e Lula

Inflação, combustíveis, emprego, fome, saúde, crises políticas e guerras internacionais mostram que os dois governos enfrentaram cenários difíceis — mas os números também colocam à prova a memória seletiva de parte do debate político brasileiro.

Da fila do osso à gasolina: o que os dados revelam sobre Bolsonaro e Lula
REDAÇÃO
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Da fila do osso à gasolina: o que os dados revelam sobre Bolsonaro e Lula

Inflação, combustíveis, emprego, fome, saúde, crises políticas e guerras internacionais mostram que os dois governos enfrentaram cenários difíceis — mas os números também colocam à prova a memória seletiva de parte do debate político brasileiro.

Quatro ou cinco anos podem parecer pouco tempo, mas, na política brasileira, às vezes são suficientes para que determinados fatos desapareçam da memória coletiva.

Hoje é comum encontrar brasileiros indignados com o preço dos alimentos, dos combustíveis, dos medicamentos e das contas domésticas. Reclamar é legítimo. O problema começa quando a comparação com o passado é feita ignorando aquilo que efetivamente aconteceu.

Leia Também:

Durante o governo de Jair Bolsonaro, especialmente entre 2020 e 2022, o Brasil atravessou uma combinação extremamente dura de pandemia, desemprego elevado, perda de renda e inflação. Em 2021, cenas de brasileiros procurando ossos e restos de carne para alimentação ganharam repercussão nacional. Reportagens daquele período registraram aumento expressivo da procura por esse tipo de doação. Uma fotografia de um açougue anunciando “osso R$ 4,00 o quilo”, frequentemente reutilizada posteriormente nas redes sociais, foi confirmada pela Reuters como sendo de outubro de 2021.

Isso não significa que todos os brasileiros estivessem “comendo osso”, nem que a pobreza tenha começado naquele governo. Significa, porém, que a chamada “fila do osso” existiu e tornou-se um dos símbolos sociais da crise econômica daquele período.

Gasolina chegou a R$ 10? Os dados precisam ser colocados corretamente

Outro ponto frequentemente citado é a gasolina.

A afirmação de que o brasileiro pagava R$ 10 por litro como preço médio nacional não encontra respaldo nos dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo.

Mas a gasolina realmente atingiu preços muito elevados.

Na semana entre 19 e 25 de junho de 2022, ainda no governo Bolsonaro, a gasolina comum alcançou R$ 7,39 por litro na média nacional, segundo a ANP. Era uma alta de quase 30% em doze meses. Depois de alterações tributárias e quedas posteriores dos preços, a média recuou para R$ 5,74 no fim de julho daquele ano.

No fim de julho de 2026, durante o governo Lula, a média nacional estava em aproximadamente R$ 6,56 por litro. Portanto, nominalmente, está abaixo do pico nacional observado em junho de 2022, mas continua suficientemente elevada para pesar no orçamento das famílias.

A comparação séria, portanto, não deve dizer que “a gasolina custava R$ 10 no Brasil”, mas também não pode fingir que os combustíveis eram baratos há quatro anos.

Inflação: 2021 foi um dos momentos mais difíceis

O comportamento da inflação também ajuda a compreender por que tantas famílias sentiram forte perda de poder de compra durante a reta final do governo Bolsonaro.

O IPCA fechou 2021 em 10,06%. Em 2022 ficou em 5,79%, mas o grupo Alimentação e Bebidas avançou expressivos 11,64% naquele ano.

No governo Lula, o IPCA terminou 2023 em 4,62%, 2024 em 4,83% e 2025 em 4,26%. Até junho de 2026, último dado disponível em 8 de agosto, a inflação acumulada em doze meses estava em 4,64%.

Isso não quer dizer que os preços “baixaram”.

Quando a inflação diminui, normalmente significa que os preços continuam aumentando, porém em velocidade menor. Por isso, uma família pode ouvir que a inflação está controlada e, ao mesmo tempo, chegar ao supermercado com a sensação perfeitamente real de que tudo continua caro.

Essa diferença entre inflação menor e preços baratos é fundamental para compreender a insatisfação atual.

Emprego mostra uma diferença importante entre os períodos

No mercado de trabalho, os indicadores atuais são melhores.

Em 2022, último ano do governo Bolsonaro, a taxa média anual de desemprego foi de 9,3%, embora tenha apresentado forte queda em relação aos 13,2% de 2021. Ou seja: houve recuperação importante do emprego na reta final daquele governo.

Em 2025, já no governo Lula, a média anual caiu para 5,6%, menor nível da série histórica iniciada em 2012. No trimestre encerrado em junho de 2026, recuou novamente, chegando a 5,4%.

Também houve recuperação dos rendimentos. Em 2025, o rendimento real habitual dos trabalhadores chegou a aproximadamente R$ 3.560, segundo o IBGE.

Portanto, dizer que “nada melhorou” no atual governo contraria os indicadores do mercado de trabalho. Da mesma maneira, seria incorreto ignorar que a recuperação do emprego já havia começado durante 2022.

Economia: Bolsonaro enfrentou pandemia; Lula enfrenta juros, dívida e desaceleração

Qualquer comparação econômica responsável precisa considerar os choques externos enfrentados por cada governo.

Bolsonaro assumiu em 2019 e, pouco mais de um ano depois, enfrentou a pandemia de Covid-19. Em 2020, o PIB brasileiro caiu 3,3%. A economia posteriormente reagiu: 2021 terminou com forte crescimento e, em 2022, o PIB avançou 3,0%.

No governo Lula, o PIB cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e desacelerou para 2,3% em 2025.

Mas existe um problema importante nas contas públicas atuais.

No início de 2023, a dívida bruta do governo geral estava em torno de 73% do PIB. Em junho de 2026, chegou a 81,9% do PIB, aproximadamente R$ 10,8 trilhões. Nos doze meses encerrados em junho, somente os juros nominais do setor público alcançaram R$ 1,16 trilhão, equivalentes a 8,8% do PIB.

Além disso, mesmo após cortes recentes, a Selic está em 14% ao ano, ainda em nível elevado, encarecendo financiamentos, crédito às empresas, cartão, empréstimos e o próprio custo da dívida pública.

Portanto, o governo Lula apresenta números melhores de emprego e inflação do que aqueles observados nos momentos mais críticos do governo Bolsonaro, mas enfrenta um desafio fiscal que não pode ser minimizado.

Fome: a “fila do osso” foi real, mas o problema exige cuidado com propaganda

A insegurança alimentar também melhorou nos anos seguintes à pandemia.

Em 2023, 9,4% dos domicílios brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar moderada ou grave. Em 2024, o IBGE identificou queda nos três níveis de insegurança alimentar.

A FAO posteriormente confirmou que o Brasil voltou a ficar abaixo do limite de 2,5% de prevalência de subnutrição utilizado para definir o chamado Mapa da Fome.

Há, entretanto, um detalhe importante para evitar propaganda política: o cálculo que retirou o Brasil do Mapa da Fome utilizou o triênio 2022–2024. Ou seja, inclui o último ano de Bolsonaro e os dois primeiros anos do atual governo Lula.

A melhora existe e os números precisam ser reconhecidos. A tentativa de transformar todo o resultado exclusivamente em mérito de um lado político simplifica uma realidade muito mais complexa.

Saúde: pandemia marcou Bolsonaro; dengue marcou Lula

Na saúde pública, provavelmente está uma das diferenças mais importantes entre os dois períodos.

Bolsonaro enfrentou uma crise sanitária sem precedentes recentes: a Covid-19. Nenhum governo brasileiro das últimas décadas havia precisado administrar uma pandemia daquela dimensão.

Mas a condução federal da crise também provocou fortes controvérsias. A CPI da Pandemia investigou ações e omissões do governo federal. Em depoimento ao Senado, representante da Pfizer afirmou que a empresa havia oferecido dezenas de milhões de doses ao Brasil ainda em 2020 e que o primeiro contrato somente seria fechado em março de 2021.

O governo Lula não enfrentou uma pandemia equivalente, mas também passou por uma grave emergência sanitária.

Em 2024, o Brasil registrou aproximadamente 6,6 milhões de casos de dengue e mais de 6 mil mortes, números recordes na série histórica, colocando novamente estados, municípios e o SUS sob enorme pressão.

Ou seja: comparar simplesmente números da saúde sem considerar a natureza das crises enfrentadas por cada administração produziria uma conclusão enganosa.

Política: dois períodos marcados por polarização

Na política institucional, o governo Bolsonaro foi marcado por confrontos frequentes envolvendo Presidência, Supremo Tribunal Federal, Tribunal Superior Eleitoral e o sistema eleitoral.

Em 2023, o TSE declarou Bolsonaro inelegível por oito anos ao reconhecer, por maioria de votos, abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores realizada em julho de 2022.

O governo Lula, por sua vez, praticamente começou sob uma crise institucional.

Em 8 de janeiro de 2023, apenas uma semana depois da posse, manifestantes invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. Os acontecimentos deram origem a investigações, uma CPMI no Congresso e centenas de processos judiciais.

A polarização política, portanto, não terminou com a troca de presidente. Continua sendo um dos maiores problemas do Brasil.

O mundo também mudou — e nenhum presidente governa dentro de uma bolha

Existe outro erro muito comum no debate político: responsabilizar exclusivamente o presidente da República por todo aumento ou queda de preços.

Durante o governo Bolsonaro, a economia mundial foi atingida primeiro pela pandemia e pelas interrupções das cadeias globais de produção.

Depois veio a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. O Banco Mundial estimava naquele ano uma alta superior a 50% nos preços internacionais de energia, enquanto petróleo, trigo, fertilizantes e outras commodities sofreram forte pressão.

Esses fatores ajudaram a elevar combustíveis e alimentos no mundo inteiro — inclusive no Brasil.

Lula também governa em um ambiente internacional complicado.

Além da continuidade das tensões geopolíticas, o cenário de 2026 passou a sofrer forte pressão de conflitos no Oriente Médio. O Banco Mundial projeta aumento de 24% nos preços internacionais da energia em 2026 em decorrência desse choque.

O país também enfrenta uma nova disputa comercial com os Estados Unidos. Em julho de 2026, o governo Donald Trump anunciou tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros, atingindo setores importantes das exportações. O Brasil contestou as medidas na Organização Mundial do Comércio.

O FMI projeta crescimento mundial de apenas 3,0% em 2026, em um ambiente caracterizado por guerras, tensões comerciais e incerteza econômica.

Afinal, estava tudo bem antes e tudo está ruim agora?

Os números dizem que não.

Também não dizem o contrário.

O Brasil de 2021 e 2022 enfrentou inflação elevada, alimentos disparando, gasolina acima dos R$ 7 na média nacional, desemprego ainda alto e cenas reais de brasileiros buscando ossos e restos de carne.

Ignorar isso porque se simpatiza com Jair Bolsonaro é substituir memória por preferência política.

Mas também seria intelectualmente desonesto afirmar que, no governo Lula, todos os problemas desapareceram.

A gasolina continua cara. O supermercado continua pesando no bolso. A dívida pública aumentou significativamente, os juros continuam muito elevados, o crescimento econômico desacelerou em 2025 e o Brasil enfrenta novas ameaças vindas da economia internacional.

Ao mesmo tempo, os dados mostram desemprego muito menor, inflação abaixo daquela observada no auge da crise de 2021 e melhora nos indicadores de renda e segurança alimentar.

A conclusão mais responsável é simples: nem o Brasil de Bolsonaro foi o paraíso que alguns hoje tentam reconstruir pela memória, nem o Brasil de Lula está livre de problemas graves.

Governos devem ser cobrados pelos resultados que entregam, mas a cobrança precisa utilizar a mesma régua.

Se gasolina a R$ 7,39, inflação acima de 10%, desemprego e famílias buscando ossos eram problemas quatro anos atrás, continuam sendo problemas quando situações semelhantes atingem outro governo.

E se emprego, renda ou inflação apresentam melhora hoje, os números também precisam ser reconhecidos — independentemente de quem esteja sentado no Palácio do Planalto.

Democracia madura não se constrói escolhendo quais números enxergar. Constrói-se cobrando todos os governos, com a mesma intensidade, diante dos mesmos fatos.

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Vale Europeu Notícias
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR