Tenho um defeito que cultivo com certo constrangimento: indigno-me com rapidez. Às vezes, mais rápido do que leio. Continuo achando uma péssima ideia que um vereador carioca resolva disputar uma vaga ao Senado por Santa Catarina apenas porque descobriu que o mapa do Brasil permite esse tipo de turismo eleitoral. O Senado, até onde a Constituição ainda me consta, representa os Estados, e não uma franquia nacional de sobrenomes famosos. Sempre me pareceu estranho imaginar um senador conhecendo primeiro o caminho para Brasília e só depois o caminho para Urubici.
Foi nesse espírito patriótico de alcance estadual que li a manchete do Jornal Razão: "Carlos Bolsonaro escolhe paranaense e gaúcho como suplentes para concorrer ao Senado por SC." Era um verdadeiro escárnio! Fiz, então, o que qualquer cidadão moderno faz diante de uma manchete que confirma exatamente aquilo que ele já pensa: tirei um print e distribuí em grupos de WhatsApp como quem presta um relevante serviço à Pátria.
Algumas horas depois descobri que a Pátria sobreviveria sem a minha colaboração: um amigo – desses inconvenientes que insistem em conferir os fatos antes de concordar comigo – explicou que os tais "estrangeiros" eram Rafael Caleffi, ex-prefeito de São Lourenço do Oeste, e o pastor Balduíno Rodrigues Ferreira, liderança consolidada em Joinville. Sim, um nasceu no Paraná e o outro no Rio Grande do Sul. Mas ambos fizeram suas vidas em Santa Catarina. Tornaram-se catarinenses pela vida, e não apenas pelo CEP.
Continuo convencido de que existe uma diferença enorme entre construir uma vida inteira em Santa Catarina e simplesmente alugar um endereço eleitoral por alguns meses. Não se trata de exigir certidão de nascimento barriga-verde, mas de reconhecer vínculos reais com a comunidade que se pretende representar, seja tendo assistido um clássico Figueirense x Avaí, pego chuva em Joinville, parado na fila na BR 101 entre Itapema e Balneário, enfrentado uma enchente, seja tendo ido à Festa do Pinhão.
O episódio, entretanto, deixou uma lição maior do que a discussão sobre candidaturas. Eu, que costumo defender o pensamento crítico, fui vítima do velho impulso de compartilhar primeiro e conferir depois. A manchete havia sido construída exatamente para isso: provocar indignação imediata. Não era necessariamente falsa; era apenas engenhosamente incompleta. E, numa época em que manchetes são consumidas muito mais do que textos inteiros, isso basta para moldar opiniões.
Estamos entrando na primeira grande eleição da era da inteligência artificial plena. Curiosamente, o maior risco talvez não seja a inteligência das máquinas, mas a ansiedade dos humanos. Talvez o maior dever do eleitor não seja escolher rapidamente um candidato, mas aprender a desconfiar daquilo que desperta emoções rápidas demais. Não são apenas consumidores, clientes de bancos ou usuários da internet que se tornaram alvos preferenciais de golpistas. O eleitor também entrou na lista. E, no mercado da desinformação, a mercadoria mais valiosa continua sendo a nossa pressa.
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