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TERÇA - FEIRA 26/05/2026
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A CULPA NÃO É DO PATINETE

Quando a falta de bom senso de alguns ameaça uma boa solução de mobilidade

A CULPA NÃO É DO PATINETE
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Tenho grande simpatia por qualquer ideia que consiga tirar um carro da rua. Talvez porque tenha passado boa parte da juventude num ônibus da Glória, eu aprendi, na prática, que cidades melhores não são aquelas onde cabem mais automóveis, mas aquelas onde menos pessoas precisam deles. Hoje já não posso opinar sobre a qualidade do transporte coletivo, mas continuo torcendo por qualquer alternativa que faça o trânsito respirar. Daí meu entusiasmo pelos patinetes elétricos. Gosto tanto dos modelos em que se vai em pé - perfeitos para percorrer aqueles últimos quilômetros que transformam um trajeto rápido numa eternidade - como daqueles que lembram as antigas mobiletes, os tais autopropelidos. 

Aliás, uso patinete com frequência para circular pelo Centro e pelos bairros próximos. E sempre penso a mesma coisa ao ver um enxame de estudantes indo ou voltando da escola sobre duas rodas: cada um deles representa um carro a menos parado no semáforo. Claro que meu lado romântico preferiria que eles montassem bicicletas, mas me resignei ao fato de que cada geração escolhe seus próprios brinquedos  (depois de certa idade, a gente descobre que implicar com certas coisas não muda absolutamente nada).

Pois bem.

Confesso que não me surpreendeu que Blumenau tenha demorado até o final de 2025 para regulamentar a circulação de ciclomotores, bicicletas elétricas e veículos autopropelidos, por meio da Lei Municipal nº 9.324. Ao contrário do que ocorreu em diversas cidades do Brasil afora, onde o uso desordenado levou rapidamente a proibições e restrições, por aqui a convivência sempre pareceu relativamente civilizada.

O problema é que a turma passa dos limites. 

Tornou-se comum ver autopropelidos transportando três pessoas — geralmente adolescentes —, patinetes circulando em alta velocidade sobre as calçadas, jovens sem capacete disputando espaço com automóveis e alternando entre pista e passeio como se não houvesse regras. Há quem trate a calçada como extensão da rua e quem a utilize até como estacionamento. Não é difícil entender por que cresce a pressão por restrições mais severas.

O problema nunca foi o veículo, mas o comportamento de parte de seus usuários. Minha mãe costuma dizer que "os justos pagam pelos pecadores", e temo que seja exatamente isso que esteja a caminho de acontecer. Balneário Camboriú já proíbe menores de 16 anos de conduzirem patinetes elétricos e outros veículos motorizados em vias públicas. São Paulo e Rio de Janeiro vedam a circulação de patinetes nas calçadas, restringindo seu uso a ciclovias, ciclofaixas e vias compatíveis. Paris, por sua vez, tornou-se a primeira grande capital europeia a banir completamente os patinetes elétricos compartilhados.

Repito: continuo gostando dos patinetes. Continuo achando que fazem parte da solução, e não do problema. Mas soluções têm um defeito curioso: exigem usuários minimamente responsáveis. Caso contrário, acabam recebendo o mesmo tratamento dispensado a tantas outras boas ideias que morreram não por serem ruins, mas porque alguns resolveram exagerar.

A pergunta que fica é: queremos preservar essa alternativa de mobilidade ou preferimos abusar dela até que reste apenas a proibição? Porque, se continuarmos confundindo liberdade com ausência de responsabilidade, a resposta acabará vindo em forma de novas leis — e dificilmente elas serão mais permissivas do que as atuais.

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER (@ESCRITOR_FERNANDOBECKER)

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