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TERÇA - FEIRA 26/05/2026
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Tarifaço EUA-Brasil: impacto limitado na balança comercial, mas forte na indústria

Especialistas veem prejuízo concentrado em setores exportadores como máquinas, aço e calçados, com motivações políticas por trás das medidas de Donald Trump.

Tarifaço EUA-Brasil: impacto limitado na balança comercial, mas forte na indústria
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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O tarifaço EUA-Brasil, imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, deve gerar efeitos restritos na balança comercial do país. Contudo, especialistas preveem um impacto considerável em setores específicos da indústria, mesmo que as medidas do governo Donald Trump atinjam apenas 18% do total das exportações nacionais destinadas ao mercado estadunidense.

Conforme análise de especialistas consultados pela Agência Brasil, os segmentos mais vulneráveis a perdas de competitividade são aqueles com alta dependência das exportações para os Estados Unidos e menor flexibilidade para encontrar novos mercados. Indústrias como as de máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis estão entre as mais impactadas.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) revelam que, no primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou um déficit de US$ 1,5 bilhão em sua relação comercial com os Estados Unidos. Isso significa que as importações superaram as exportações em igual montante.

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Este cenário de desequilíbrio persiste, com superávit para os Estados Unidos, mesmo diante da retração do comércio bilateral observada desde o ano anterior. A diminuição das trocas comerciais tem sido uma tendência notável.

Comércio bilateral em retração

No primeiro semestre, o volume total das trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos atingiu US$ 36,4 bilhões. Esse valor representa uma queda significativa de 12,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior, indicando uma desaceleração.

As exportações brasileiras apresentaram uma retração de 13%, somando US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos diminuíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões. Consequentemente, o Brasil encerrou o período com um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão, reafirmando o desequilíbrio.

Embora as exportações em junho tenham registrado um crescimento de 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões, esse resultado foi impulsionado principalmente por uma alta de 11% nos preços médios. O volume físico de produtos embarcados, na verdade, sofreu uma queda de 6,6%.

Impacto concentrado e a visão dos especialistas

Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), avalia que o tarifaço dificilmente impactará o desempenho geral da balança comercial brasileira. Isso ocorre porque os Estados Unidos representam atualmente uma fatia menor das exportações do país.

"Alterar o saldo da balança em termos macroeconômicos é pouco provável", explica Valls. Ela ressalta que o principal mercado do Brasil é a Ásia, com destaque para a China, e que a participação das exportações para os Estados Unidos diminuiu para cerca de 9,4% do total.

A economista complementa que os efeitos mais notáveis do tarifaço serão percebidos por empresas e setores industriais que possuem uma maior dependência do mercado americano para suas vendas.

"Você pode ter efeitos mais microeconômicos sobre empresas, principalmente dos setores de máquinas, equipamentos, madeira e calçados", exemplifica Lia Valls, destacando a vulnerabilidade desses segmentos.

José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), partilha da mesma visão, descartando um impacto significativo do tarifaço sobre o superávit comercial brasileiro.

Ele esclarece que "o superávit comercial brasileiro é derivado exclusivamente das commodities", bens primários com cotação internacional. O tarifaço, segundo Castro, não atingiu justamente as commodities nas quais o Brasil compete com os Estados Unidos, como soja, suco de laranja e carnes.

A indústria nacional como principal afetada

Para José Augusto de Castro, a indústria nacional, que se dedica à produção de bens de maior valor agregado, será a mais prejudicada pelas novas tarifas.

"Nós temos um superávit comercial grande, mas um déficit comercial de manufaturados gigantesco", afirma Castro. Ele enfatiza que "esse déficit é que preocupa, porque é o setor manufatureiro que gera emprego no Brasil", apontando para a importância estratégica da indústria.

O presidente da AEB ainda aponta que essas novas barreiras tarifárias podem acabar beneficiando concorrentes internacionais do Brasil.

"Como a sobretaxa atingiu diretamente os produtos manufaturados, abre mercados para outros países que antes não exportavam esses produtos e agora passam a ocupar esse espaço", explica, indicando uma possível reconfiguração das cadeias de suprimentos.

Motivações políticas por trás das tarifas americanas

Na análise de Lia Valls, a imposição de tarifas elevadas pelos Estados Unidos transcendeu critérios puramente econômicos, passando a incorporar argumentos de cunho político. Essa perspectiva ganha força pelo fato de o Brasil, ao contrário da maioria dos países, apresentar um déficit comercial com os EUA.

"Quando ele [Trump] aumentou para 40%, os argumentos realmente eram muito mais de caráter político. Não tinha muito argumento econômico nessa história", comenta a pesquisadora, reforçando a dimensão não-econômica da decisão.

A economista acrescenta que questões como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o sistema Pix e até políticas ambientais foram usadas como justificativas para a ampliação das sanções comerciais.

A ineficácia de uma possível retaliação brasileira

O governo federal brasileiro considera a possibilidade de acionar a Lei da Reciprocidade Econômica como resposta ao tarifaço americano. No entanto, os especialistas consultados expressam ceticismo quanto aos benefícios de tal medida retaliatória.

Lia Valls argumenta que o Brasil não possui a capacidade necessária para infligir perdas significativas aos Estados Unidos por meio de retaliação.

"O problema é que a gente não tem capacidade de retaliação contra os Estados Unidos. Se você não consegue causar um dano efetivo ao outro, acaba revertendo contra você. O ganho seria pequeno", afirma Valls.

A pesquisadora sugere que "o caminho é denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC)", buscando uma solução diplomática e multilateral em vez de um confronto direto.

José Augusto de Castro também compartilha da opinião de que uma resposta tarifária por parte do Brasil seria ineficaz.

"Não acredito em retaliação. O comércio internacional é feito de negociações, não de retaliações", declara Castro. Ele é categórico ao afirmar que "o Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar".

O presidente da AEB conclui que "na teoria, a reciprocidade parece adequada, mas, na prática, é muito difícil implementá-la", alertando para os riscos e a complexidade de tal estratégia.

Detalhes dos produtos e setores atingidos

As tarifas foram aplicadas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento que os Estados Unidos utilizam para implementar medidas comerciais unilaterais.

Embora a alíquota padrão estabelecida seja de 25%, para 24% dos produtos afetados, essa taxa pode chegar a 50%. Essa elevação ocorre porque o tarifaço se somou a outras tarifas já impostas anteriormente pelos Estados Unidos.

Os setores mais diretamente afetados incluem aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira. Por outro lado, aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja foram poupados das sobretaxas.

FONTE/CRÉDITOS: Wellton Máximo - Repórter da Agência Brasil

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