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Santa Catarina, o mito da pureza política e a hipocrisia seletiva contra a cultura

Por anos, uma frase passou a ser repetida como verdade absoluta nos discursos políticos e nas redes sociais: “Santa Catarina é próspera porque nunca foi governada pelo PT.”

Santa Catarina, o mito da pureza política e a hipocrisia seletiva contra a cultura
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Santa Catarina, o mito da pureza política e a hipocrisia seletiva contra a cultura

Por anos, uma frase passou a ser repetida como verdade absoluta nos discursos políticos e nas redes sociais: “Santa Catarina é próspera porque nunca foi governada pelo PT.” A frase é forte, rende aplausos em bolhas ideológicas e funciona como slogan eleitoral. Mas, quando confrontada com a realidade, ela começa a desmoronar.

Santa Catarina, de fato, tem uma trajetória política majoritariamente distante da esquerda no comando do governo estadual. A lista histórica de governadores mostra gestões ligadas a partidos como PFL, PP, PMDB, PSDB, DEM, PSD, PSL e, atualmente, PL. Mas reduzir a prosperidade catarinense à ausência do PT no governo é uma simplificação rasa, conveniente e perigosa.

O problema do Brasil — e de Santa Catarina — nunca foi apenas um partido. O problema é a corrupção travestida de moralidade, a hipocrisia ideológica e a cegueira seletiva de quem condena o adversário, mas passa pano para os próprios aliados.

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Nos últimos anos, Santa Catarina viu crescer uma sequência constrangedora de operações policiais envolvendo prefeitos, contratos públicos e suspeitas de corrupção. Levantamento publicado em janeiro de 2026 apontou 29 prefeitos presos no estado desde 2021, muitos em investigações ligadas a fraudes, corrupção e contratos públicos. Em 2024, o estado já havia registrado 18 prefeitos presos em pouco mais de um ano, envolvendo siglas como MDB, PL, PP, PSD, Patriota, Podemos e Republicanos.

Ou seja: se a ausência do PT fosse vacina contra corrupção, Santa Catarina não estaria acumulando manchetes policiais envolvendo administrações municipais.

Blumenau, uma das vitrines econômicas e culturais do estado, também entrou nesse debate. Investigações envolvendo contratos públicos, merenda escolar e suspeitas de favorecimento político passaram a expor rachaduras na imagem de eficiência administrativa. O deputado estadual Ivan Naatz, do próprio PL, chegou a pedir CPI para apurar contrato da merenda escolar em Blumenau, apontando suspeitas que ganharam forte repercussão política.

O mesmo ambiente político que costuma atacar a Lei Rouanet como “mamata” para artistas é o que recorre ao mecanismo quando o interesse local ou institucional fala mais alto. Em 2026, a Oktoberfest Blumenau teve autorização para captar mais de R$ 4 milhões via Lei Rouanet para os desfiles da 41ª edição da festa, segundo publicações nacionais e regionais.

A contradição é evidente: quando o recurso vai para artista independente, teatro, cinema, música ou cultura popular, parte da direita chama de desperdício. Quando o incentivo beneficia grandes eventos, marcas consolidadas ou projetos próximos do poder econômico, a crítica desaparece ou vira “valorização da tradição”.

A Lei Rouanet não deveria ser tratada como inimiga da cultura, nem como cofre particular de grupos influentes. Ela é um instrumento público de incentivo cultural e precisa de fiscalização, transparência e critérios claros. O que não dá é para demonizar a cultura quando ela vem da periferia, do teatro, da arte urbana ou do cinema nacional, e bater palma quando o mesmo mecanismo financia eventos prestigiados pela elite local.

A hipocrisia também aparece no tratamento dado aos artistas urbanos. Em Blumenau, ações contra pichação ganharam força com discursos públicos que colocaram toda manifestação visual de rua no mesmo pacote da criminalidade. O empresário Luciano Hang participou de ações simbólicas contra pichações e a frase “pixação não é arte, é sujeira” ganhou repercussão nas redes locais. O debate é legítimo quando fala de dano ao patrimônio, mas se torna pobre quando transforma toda expressão urbana em caso de polícia e, ao mesmo tempo, abre espaço para “artistas” fabricados por inteligência artificial em eventos culturais.

A Oktoberfest Blumenau 2026, por exemplo, anunciou novidades envolvendo tecnologia, inteligência artificial e atrações culturais, enquanto a cidade segue debatendo o lugar do artista humano, da cultura de rua e dos mecanismos públicos de incentivo. A pergunta que fica é incômoda: a cultura só é aceita quando é domesticada, patrocinada e autorizada pelo poder?

No plano nacional, a contradição também é gritante. O Ministério da Cultura foi extinto no início do governo Bolsonaro e transformado em estrutura menor dentro de outros ministérios, sendo recriado em 2023 no governo Lula. Ainda assim, setores que atacaram por anos a política cultural passaram a relativizar financiamentos privados milionários para produções alinhadas ao seu próprio campo político.

O caso do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, trouxe nova polêmica após reportagens apontarem que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria pago cerca de R$ 61 milhões para financiar a produção, enquanto áudios divulgados indicaram negociação de valores ainda maiores envolvendo Flávio Bolsonaro. A discussão ganhou força justamente porque a Lei Rouanet sempre foi usada como espantalho por parte do bolsonarismo.

O ponto central não é defender partido A ou partido B. O ponto é admitir que corrupção, oportunismo e uso político da cultura não têm ideologia fixa. Existem pessoas honestas e desonestas na esquerda, no centro e na direita. O que destrói o debate público é a cegueira de quem só enxerga crime quando o acusado veste a camisa do adversário.

Santa Catarina é um estado forte, trabalhador e produtivo. Mas prosperidade econômica não pode servir de cortina para esconder escândalos, prisões, suspeitas de corrupção e contradições políticas. A moralidade pública não se mede por antipetismo, por discurso religioso, por bandeira partidária ou por postagem de rede social. Mede-se por transparência, investigação séria, respeito ao dinheiro público e coerência.

Está na hora de Santa Catarina parar de repetir slogans e começar a encarar seus próprios fantasmas.

Porque, como lembra a frase atribuída a Santo Agostinho, “não sacia a fome quem lambe pão pintado”. E não há prosperidade real quando a ética é apenas uma pintura bonita sobre uma parede rachada.

Observação editorial: todos os investigados e citados em operações ou denúncias devem ter garantido o direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência até decisão final da Justiça.

FONTE/CRÉDITOS: Jornal Stettiner Kurier

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