A violência contra a mulher no Brasil não escolhe templo, bairro, classe social ou discurso religioso. Mas os dados mais recentes expõem uma ferida que muita gente ainda prefere esconder: mulheres evangélicas também estão no centro da violência doméstica e muitas vezes enfrentam, além do agressor, o peso do silêncio, da vergonha, da dependência emocional, da pressão familiar e de interpretações religiosas usadas para manter relações abusivas.
Entre 2018 e 2025, o Brasil registrou crescimento preocupante nos feminicídios. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram 1.229 vítimas em 2018; 1.330 em 2019; 1.354 em 2020; 1.347 em 2021; 1.455 em 2022; 1.475 em 2023; 1.492 em 2024; e 1.568 em 2025. Em 2026, o alerta continuou aceso: apenas no primeiro trimestre, entre janeiro e março, o país registrou 399 vítimas de feminicídio, o pior primeiro trimestre da série histórica, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgados pela imprensa nacional.
É importante destacar: não existe, nos registros públicos nacionais, uma série oficial de feminicídios separada por religião da vítima ou do agressor. Ou seja, não é correto afirmar que há uma “taxa oficial de feminicídio entre evangélicos” de 2018 a 2026. O que existe, e é grave, são pesquisas de vitimização que mostram a presença significativa da violência doméstica entre mulheres que se identificam como evangélicas.
A pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, apontou que 42,7% das mulheres que se identificaram como evangélicas relataram já ter sofrido violência ou agressão praticada por parceiro íntimo ou ex-parceiro íntimo ao longo da vida. Entre mulheres católicas, o índice foi de 35,1%. O dado não significa que a religião cause a violência, mas revela que o ambiente religioso não tem blindado mulheres contra agressões dentro de casa.
O perfil dos feminicídios no Brasil mostra um padrão brutal e repetitivo. Entre 2021 e 2024, 59,4% das vítimas foram mortas pelo companheiro, 21,3% pelo ex-companheiro, 10,2% por outros familiares, 4,2% por conhecidos e apenas 4,9% por desconhecidos. Em 97,3% dos casos, o autor era homem. A casa, lugar que deveria representar proteção, aparece como cenário central da morte: 66,3% dos feminicídios ocorreram dentro da residência da vítima.
O dado derruba a falsa ideia de que o maior perigo está sempre na rua. Para milhares de mulheres, inclusive mulheres de fé, o risco mora ao lado, divide a cama, frequenta a família, posa de “homem de bem” e, muitas vezes, é protegido por discursos de aparência moral. O feminicídio quase nunca começa no assassinato. Antes dele, geralmente há controle, humilhação, ameaça, ciúme obsessivo, isolamento, agressões físicas, violência sexual, violência psicológica e tentativa de impedir que a mulher rompa o relacionamento.
A pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também mostra que, nos últimos 12 meses analisados, os principais autores da violência mais grave contra mulheres foram cônjuge, companheiro, namorado ou marido, com 40%, e ex-cônjuge, ex-companheiro ou ex-namorado, com 26,8%. Isso reforça que a violência de gênero no Brasil é, em grande parte, íntima, doméstica e praticada por alguém conhecido da vítima.
Quando o recorte chega às mulheres evangélicas, a discussão se torna ainda mais delicada — e necessária. Pesquisas e especialistas apontam que igrejas podem funcionar como espaço de acolhimento, escuta e proteção. Porém, também podem se transformar em barreira quando a vítima é aconselhada a “orar mais”, “suportar”, “preservar o casamento” ou “esperar o agressor mudar”, em vez de ser orientada a buscar a rede de proteção, registrar boletim de ocorrência e pedir medida protetiva.
Reportagem do Brasil de Fato, com base em dados da pesquisa do Fórum e do Instituto DataSenado, destacou que 53% das mulheres em situação de violência procuram primeiro a igreja antes mesmo da família ou dos serviços públicos. Esse número mostra o tamanho da responsabilidade das lideranças religiosas: a primeira escuta pode salvar uma vida ou empurrar a vítima de volta para o ciclo de violência.
A polêmica, portanto, não está em atacar a fé evangélica. Está em perguntar por que, em pleno 2026, ainda existem mulheres ouvindo que denunciar agressor é “destruir a família”. Família não se preserva com medo. Casamento não é cárcere. Fé não pode ser usada como algema. Nenhuma doutrina, púlpito, liderança ou interpretação religiosa pode estar acima da Lei Maria da Penha, da dignidade da mulher e do direito à vida.
O perfil do agressor também precisa ser encarado sem maquiagem. Na maior parte dos casos, não se trata de um desconhecido violento que aparece do nada. É o parceiro, o ex, o homem que não aceita o fim da relação, que tenta controlar a rotina, a roupa, o celular, as amizades, o trabalho e a liberdade da mulher. Muitas vezes, ele alterna ameaça e pedido de perdão, agressão e promessa de mudança, violência e discurso de arrependimento. Esse ciclo é conhecido e, quando ignorado, pode terminar em morte.
Outro dado preocupante é que parte das vítimas já havia buscado ajuda. Em uma análise de 1.127 feminicídios em unidades da federação selecionadas, 148 mulheres, ou 13,1%, foram assassinadas mesmo tendo medida protetiva de urgência vigente no momento do crime. Isso mostra que a medida protetiva é fundamental, mas precisa vir acompanhada de fiscalização, monitoramento do agressor, resposta rápida da polícia e rede de apoio ativa.
Entre mulheres evangélicas, o desafio é duplo: romper com o agressor e romper com o silêncio. Muitas vítimas têm medo de perder a comunidade, serem julgadas, culpabilizadas ou acusadas de “falta de fé”. É justamente por isso que igrejas, pastores, missionárias, lideranças e comunidades precisam assumir uma posição clara: acolher a vítima, jamais proteger o agressor; orientar denúncia, jamais abafar crime; defender a vida, jamais romantizar sofrimento.
O Brasil já passou da fase de tratar feminicídio como caso isolado. Os números mostram uma tragédia nacional. De 2018 a 2025, foram mais de 11,4 mil mulheres assassinadas em feminicídios no país. Em 2026, os dados do primeiro trimestre indicam que a crise continua. Enquanto isso, milhares de mulheres seguem tentando sobreviver dentro de casa, inclusive dentro de lares que se apresentam como cristãos.
A pergunta incômoda precisa ser feita: quantas mulheres ainda vão morrer porque alguém confundiu submissão com virtude, silêncio com fé e violência doméstica com “problema de casal”?
Feminicídio é crime. Violência doméstica é crime. Agressor não precisa de cobertura moral, religiosa ou familiar. Precisa ser denunciado, investigado, responsabilizado e afastado da vítima. E toda mulher, seja evangélica, católica, de outra religião ou sem religião, tem direito de viver sem medo.
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