Especialistas reunidos em um seminário na Câmara dos Deputados nesta terça-feira (9) apresentaram um panorama dos desafios ambientais e econômicos envolvidos na transição energética, propondo estratégias para a substituição gradual de combustíveis fósseis. As discussões enfatizaram a necessidade de estabelecer metas anuais claras, prazos definidos e a criação de fundos específicos para garantir a justiça climática durante este processo.
Carolina Marçal, coordenadora de projetos do Instituto ClimaInfo, apontou a necessidade de o Brasil resolver suas contradições internas na condução da agenda energética. Ela observou que, enquanto o país se posiciona como líder global em questões climáticas, há uma expansão contínua da indústria fóssil, inclusive em áreas sensíveis como a Margem Equatorial.
Ricardo Fuji, analista do WWF Brasil, detalhou os altos custos sociais e o potencial de emissão de 446 milhões de toneladas de CO2 associados à exploração de petróleo na foz do rio Amazonas. Ele sugeriu que um investimento semelhante em fontes de energia limpa, como a produção de eletricidade renovável, seria mais vantajoso.
“Com o mesmo investimento de R$ 32 milhões destinado à Foz do Amazonas, seria possível implementar um parque e linhas de transmissão para gerar energia renovável”, exemplificou Fuji.
Impactos Geopolíticos e Subsídios
O debate também abordou o cenário geopolítico que influencia os preços internacionais dos derivados de petróleo. A organização 350.org Brasil informou que a indústria petrolífera registrou lucros de US$ 150 bilhões nos primeiros 50 dias da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Esse conflito impactou o custo de vida em países importadores de petróleo, que representam dois terços da população mundial.
João Cerqueira, diretor da 350.org no Brasil, ressaltou o alto nível de subsídios que o setor de combustíveis fósseis recebe globalmente. Ele apelou aos parlamentares para aprovarem o Projeto de Lei 219/25, que visa proibir novos subsídios ao carvão mineral, e rejeitarem propostas que mantêm esses subsídios no Brasil até 2050.
O deputado Fernando Mineiro (PT-RN), um dos organizadores do evento, elogiou a estratégia do governo federal no manejo da crise energética, enfatizando que a ação política, e não o mercado, posicionou o Brasil de forma mais favorável em comparação a outras nações.
Energia e Custos para o Consumidor
A relação entre a política energética e a conta de luz também foi tema de discussão. Leandro Moreira, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), mencionou os esforços para reduzir o peso dos subsídios na tarifa energética, citando o Projeto de Lei de Responsabilidade Tarifária (PLP 100/26) em análise na Câmara.
Bruna Targino, do Instituto E+ Transição Energética, defendeu um foco nacional em planejamento de longo prazo, financiamento e estratégia industrial, especialmente diante das novas oportunidades em mineração e energia. Ela alertou para o risco de substituir a dependência de combustíveis fósseis por uma nova dependência tecnológica e de materiais.
“Precisamos tratar agendas como a de minerais críticos estratégicos como agendas industriais, com agregação de valor, considerando rastreabilidade, circularidade e salvaguardando robustos padrões socioambientais”, afirmou Targino.
O seminário foi organizado pelas Comissões de Meio Ambiente, da Amazônia e de Defesa do Consumidor da Câmara.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se