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OS FANTASMAS DE CANASVIEIRAS

Sobre amor ou liberdade

OS FANTASMAS DE CANASVIEIRAS
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Duas pequeninas borboletas amarelas disputavam a brisa, voando de flor em flor, indiferentes ao mundo dos homens. Bailavam ao murmúrio de um riacho, onde duas pretas castigavam fazenda contra as pedras, arrancando dos lençóis a alvura que a Nhá exigia depois de sujá-los nas madrugadas de amores.

Pousaram, as borboletas, numa flor de marcela que ornava a margem do córrego. Ali, ajoelhadas sobre pedras escorregadias, trabalhavam duas irmãs, filhas da Nega Bertholina, esfregando panos que, juntos, valiam mais do que as duas.

A mais velha chamava-se Carretel.

Nome de gente é que não era, mas nome de escravizado não precisava ser. Fora um capricho de Nhozinho, ainda moleque, que um dia cismou de chamá-la assim. Bateu o pé, fez birra, não houve argumento que o demovesse. E Carretel ficou sendo Carretel, como se nome também fosse coisa que se pudesse tirar de alguém.

Já era mulher feita. Tinha seu homem, Tamía, e tinha sonhos. Ousava sonhar, embora não soubesse bem com quê. Sofria quieta, como aprendera com a mãe e como, antes dela, haviam aprendido tantas outras.

Augustinha era a outra.

Moça-menina. Ainda virgem. Tinha uma voz bonita, dessas que pareciam nascer de algum lugar muito fundo da alma, mas ninguém lhe ouvia um pio. Durante o dia, sumia dentro de si. À noite, quando a senzala adormecia e até os grilos pareciam cansados, soltava um choro comprido, quase um uivo. Um lamento que atravessava as frestas do pau-a-pique e se perdia na escuridão.

Mas só chorava de noite.

De dia, nem parecia existir.

 

Não era grande o sítio dos Manduca, nas Canavieiras, Ilha de Santa Catharina. Os pretos não passavam de doze, contando os velhos e os que ainda mal sabiam andar. A casa-grande, que de grande tinha mais o nome do que as dimensões, era branca de cal, erguida com pedra, barro e óleo de baleia. A senzala, bem dizer, era extensão da casa: paredes de pau-a-pique, cobertura de palha, chão de terra batida. Ali os pretos descansavam as dores do corpo.

As da alma, não.

Essas não conheciam repouso.

E os uivos de Augustinha, nas madrugadas, lembravam que havia dores para as quais nem o sono servia de remédio.

Longe dali, para as bandas do Rio de Janeiro, os maçons fervilhavam o Império com ideias republicanas e abolicionistas. Falava-se em liberdade, igualdade, fraternidade. Palavras bonitas, pronunciadas em salões iluminados, entre charutos, vinhos e  casaca.

Nas Canavieiras, entretanto, o mormaço parecia conservar a escravidão em salmoura. O tempo não andava. O vento Sul não vinha. E a liberdade, se existia, devia morar muito longe.

Talvez chovesse.

Melhor recolher os troços antes que a chuva sujasse o que já estava lavado.

Carretel e Augustinha juntaram os lençóis, equilibraram as trouxas e tomaram a picada de volta.

Vinham vindo para a prisão.

A única vida que conheciam.

 

Carretel entrou na casa-grande para cuidar dos afazeres. Augustinha escapuliu para debaixo de uma caramboleira, onde costumava se esconder do mundo e, às vezes, de si mesma.

Havia hóspedes na casa.

Um deles era Eusébio, português recém-chegado, amigo chegado de Nhozinho. Homem de fala arrastada, modos de quem estava habituado a ser atendido e olhos que demoravam mais do que deviam sobre as mulheres.

Desde que vira Carretel, alguma coisa lhe desarranjara o juízo.

Cruzaram-se na cozinha.

Ela baixou os olhos.

O português aproximou-se, primeiro com palavras, depois com o corpo, até que Carretel se viu encurralada entre a mesa e a parede. Não ousou levantar o rosto. Sabia que, naquela casa, até um olhar podia ser interpretado como insolência.

E insolência de escravizado tinha preço.

Eusébio falou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Ela não respondeu.

Permaneceu imóvel, os pretos olhos presos ao chão, como se pudesse desaparecer dentro dele.

 

Lá fora, Augustinha brincava com pedrinhas e cantarolava cantigas que só ela conhecia, agachada à sombra da caramboleira.

Foi quando sentiu.

Primeiro, um desconforto. Depois, a umidade quente escorrendo pelas pernas.

Sangrava.

Fazia dias que o corpo lhe dava avisos. Os seios cresciam, os quadris se arredondavam, as roupas pareciam encolher. Bertholina percebera. Mãe percebe essas coisas antes mesmo que as filhas saibam nomeá-las.

Mas não fora só Bertholina.

Luizinho, o mais novo dos Manduca, também vinha reparando.

E reparava demais.

 

Na cozinha, Carretel continuava plantada, com os olhos fincados nos próprios pés.

Sob a caramboleira, Augustinha chorava baixinho.

Era seu último choro de menina.

Nenhuma das duas sabia disso.

Eusébio, afinal, cansou-se do silêncio de Carretel e recolheu-se à sala. Mas o que para ela fora apenas mais uma humilhação, para ele transformou-se em febre.

Naquela noite não dormiu.

Os lábios grossos da preta, o cheiro de fumaça e riacho entranhado em sua pele, o jeito arredio com que baixava a cabeça — tudo lhe povoava os pensamentos. A presença daquela mulher ausente invadia-lhe o quarto, deitava-se sobre os lençóis, perturbava-lhe o juízo.

Virava-se na cama. Espantava os mosquitos. Bebia água. Abria a janela.

Nada.

 

Mal o dia nasceu, encontrou Bertholina na cozinha, de olhos arregalados e mãos ocupadas.

Perguntou pela filha.

A velha respondeu apenas o necessário.

Bertholina tinha aprendido, havia muitos anos, que certas perguntas dos brancos eram mais perigosas do que suas ordens.

Mais um dia nascia para se arrastar.

Augustinha andava sumida, descobrindo as dores e os desconfortos de um corpo que já não lhe pertencia inteiramente. Carretel, por sua vez, esquivava-se da presença incômoda do português, cujos olhos a procuravam a todo instante.

Tamía percebeu.

Percebeu antes mesmo que Carretel lhe dissesse qualquer coisa. Percebeu pelo modo como o português a seguia com os olhos. Pelo silêncio da mulher. Pela maneira como ela evitava passar diante da varanda.

Mas que podia fazer?

Seus grilhões não eram apenas os de ferro. Havia outros, invisíveis, que lhe prendiam os braços sempre que pensava em reagir.

Restava-lhe olhar.

E esperar pela noite.

Porque as noites eram suas.

Naquela senzala de telhado de palha, entre o cheiro da terra úmida e o rumor dos insetos, Carretel voltava a ser mulher de Tamía. Não a escravizada dos Manduca. Não a preta sobre quem o português deitava os olhos.

A mulher de Tamía.

A pele de Carretel era a alforria que Tamía conhecia.

Durante algumas horas, quando os corpos se encontravam e o mundo desaparecia do lado de fora, não havia senhores, nem ordens, nem açoites.

Havia os dois.

E isso, para Tamía, era tudo.

Cinco noites se passaram.

Cinco noites em que Eusébio mal pregou os olhos, consumido por uma paixão que confundia desejo com direito de posse.

Até que não suportou mais.

Procurou Nhozinho, seu amigo, e foi direto ao assunto.

_ Venda-me.

Nhozinho soltou uma gargalhada.

_ Enxerga-te, amigo Eusébio!

_ Fala-me um preço.

_ A Carretel?

_ A própria.

Nhozinho tornou a rir. Mas, vendo que o português não brincava, o riso lhe morreu nos lábios.

Havia coisas que se negociavam entre amigos. Cavalos, terras, dívidas. Pessoas escravizadas também, naturalmente.

Mas Carretel era da casa.

E, sobretudo, havia Tamía.

Não que o sofrimento de um escravizado lhe tirasse o sono. O problema era outro: pretos contrariados davam trabalho.

E Nhozinho detestava trabalho.

Enquanto isso, Augustinha aprendia a conviver com as dores novas de seu corpo. Seus uivos já não se ouviam na calada das noites de corujas. Mudava com a lua, como se ambas compartilhassem algum segredo antigo.

Carretel continuava fugindo de Eusébio.

Até que, num meio-dia abafado, o português a interceptou no corredor, quando levava uma travessa de comida fumegante para a sala.

Puxou-a para um canto.

Ela assustou-se. A travessa quase lhe escapou das mãos.

Eusébio falou depressa, com aquele sotaque carregado que Carretel mal compreendia. Prometeu-lhe coisas, falou de terras distantes, de uma vida diferente, de um lugar onde ninguém lhe daria ordens.

Carretel pouco ouviu.

Até que uma palavra lhe atravessou o peito.

“Liberdade”.

Foi como se o mundo parasse.

Liberdade.

A palavra ficou suspensa entre os dois.

Carretel conhecia seu significado, embora nunca tivesse experimentado a tal coisa. Ouvira falar dela nas conversas dos brancos, nos sermões do padre, nos murmúrios que às vezes chegavam de longe.

Mas nunca lhe fora oferecida.

Não a ela.

Eusébio repetiu a promessa.

Levá-la-ia consigo. Para longe dos Manduca. Para longe das Canavieiras. Para longe daquela vida.

Carretel não respondeu.

A comida queimava-lhe as mãos através do barro quente.

Desvencilhou-se e ganhou a sala de jantar, onde serviu os senhores sem levantar os olhos.

Eusébio já estava sentado, recomposto, como se nada tivesse acontecido.

Mas acontecera.

 

 

Naquela noite, Carretel deitou-se com Tamía.

Ele a procurou como sempre fazia. Beijou-lhe o pescoço, acariciou-lhe os braços, trouxe-a para junto de si.

Mas Carretel não estava ali.

Seu corpo estava.

Sua alma, não.

Tamía percebeu no primeiro beijo. Percebeu no silêncio, na ausência dos gestos conhecidos, na maneira como ela fitava o escuro por cima de seu ombro.

Ainda assim, amou-a.

Como se pudesse trazê-la de volta.

Como se o amor fosse uma corda forte o bastante para impedir que alguém partisse.

Quando tudo terminou, Carretel adormeceu em seus braços, exausta, enquanto o corpo de Tamía ainda ardia.

Ele, porém, não conseguiu dormir.

Sabia.

Não sabia de Eusébio, nem das palavras trocadas no corredor, nem dos planos que começavam a nascer. Mas sabia que alguma coisa mudara.

A mulher que abraçava já não cabia inteiramente em seus braços.

E chorou.

Chorou em silêncio, para não a acordar.

Havia muito que Tamía não chorava.

Na mesma senzala, Augustinha dormia como um anjo. Seu corpo crescia, descobria mistérios, aprendia a ser mulher. Mas o sono ainda lhe devolvia, por algumas horas, a inocência que o dia ameaçava roubar.

 

Assim amanheceram os dias seguintes.

Augustinha cada vez mais mulher.

Carretel cada vez menos de Tamía.

 

Até que Carretel falou.

Não de Eusébio, a princípio.

Falou de liberdade.

Falou de fugir. De atravessar os matos, alcançar o porto, embarcar para qualquer lugar onde ninguém lhes conhecesse os nomes. Falou de uma vida em que pudessem acordar quando quisessem, trabalhar para si, ter filhos que não pertencessem a outros homens.

Tamía escutou tudo.

Em silêncio.

Depois, negou.

Conhecia o destino dos pretos escravizados que fugiam. Conhecia os cães, os capitães do mato, os ferros, os castigos. Conhecia, sobretudo, a história do próprio pai.

Não queria repeti-la.

Carretel insistiu.

A liberdade na fuga ou a morte na fuga. Que diferença fazia morrer tentando, se viver era aquilo?

Para Tamía, fazia toda a diferença.

Porque viver, ainda que escravizado, significava continuar ao lado dela.

Mas Carretel já não aceitava que o amor fosse motivo suficiente para permanecer cativa.

E foi assim que Tamía a perdeu.

Não numa noite. Não numa discussão. Não num gesto de traição.

Perdeu-a aos poucos, para uma palavra.

Liberdade.

Uma palavra que Eusébio pronunciara com sotaque português e que Tamía, apesar de todo o amor, não podia lhe oferecer.

O português, por sua vez, também se fizera escravizado. Não dos Manduca, nem de grilhões, mas de seus próprios desejos.

A diferença era que seus grilhões tinham chave.

 

Enquanto Carretel descobria que a liberdade podia custar o amor, Augustinha descobria que crescer podia custar muito mais.

Luizinho vinha acompanhando seus passos.

O mais novo dos Manduca já não conseguia disfarçar o interesse pela menina. Via-a passar pelo terreiro, agachar-se junto ao fogão, recolher os panos, carregar água.

E olhava.

Augustinha não percebia.

Ou, se percebia, não compreendia.

Era ainda uma menina, apesar dos sangues que lhe anunciaram a chegada de outra idade.

Certa manhã, foi sozinha ao riacho lavar os linhos dos senhores.

O caminho era conhecido. A picada descia entre árvores, atravessava um trecho de mato fechado e terminava junto às pedras onde as duas irmãs costumavam trabalhar.

Augustinha levava a trouxa equilibrada sobre a cabeça.

Cantarolava.

Talvez a mesma cantiga que entoara sob a caramboleira.

Luizinho a seguiu.

Não havia ninguém por perto.

O riacho continuou correndo. As árvores permaneceram imóveis. Os pássaros, indiferentes, cantavam em algum lugar.

E Luizinho fez mal à menina.

Fez-lhe um mal para o qual Augustinha não tinha palavras.

Quando tudo terminou, ela ficou algum tempo entre as pedras, sem saber o que fazer com o próprio corpo.

O sangue misturou-se à água.

Depois, aos trapos.

Augustinha lavou-os.

Lavou-os outra vez.

Esfregou até os dedos doerem.

Voltou para casa em silêncio.

Não contou à mãe. Não contou à irmã. Não contou a ninguém.

Naquela noite, não houve uivos.

Nem nas seguintes.

Augustinha, que antes chorava quando a tristeza lhe transbordava do peito, descobriu uma dor tão grande que nem o choro conseguia alcançar.

E emprenhou calada.

 

 

Três vezes por ano, a casa-grande das Canavieiras se esvaziava.

Os Manduca seguiam para Nossa Senhora do Desterro, levando consigo roupas, mantimentos, criados e os pretos escravizados necessários à viagem. Eram ocasiões de missa, festas, negócios e encontros com parentes.

Dessa vez, partiriam para a Festa do Divino Espírito Santo.

A viagem levava dois dias, quando o tempo ajudava.

Não choveu.

O carro de bois avançava vagarosamente pelos caminhos, rangendo e resmungando como se também lamentasse o peso que carregava.

Bertholina seguia a pé.

Observava Augustinha, cujo andar já não era o mesmo. A menina se cansava com facilidade, evitava certos movimentos, levava às vezes a mão ao ventre.

A velha conhecia os sinais.

E conhecia os homens.

Não lhe escapava, tampouco, o modo como Luizinho desviava os olhos quando Augustinha se aproximava.

Bertholina não perguntou nada.

Talvez porque já soubesse.

Talvez porque temesse ouvir.

Talvez porque, naquela vida, uma mãe pudesse fazer muito pouco com a verdade.

Tamía seguia junto ao carro, bufando mais que os bois.

Carretel caminhava adiante, os olhos molhados, procurando não olhar para trás.

Já sentia saudades.

Já sentia arrependimento.

E ainda nem partira.

Eusébio cavalgava mais à frente, montado no cavalo branco que Tamía encilhara naquela manhã. Ao seu lado seguia Nhozinho, cúmplice dos planos que se desenrolariam durante a festa.

A ironia teria feito rir qualquer um que não estivesse condenado a vivê-la: Tamía preparara, com as próprias mãos, a montaria do homem que lhe levaria a mulher.

 

Chegaram a Desterro e foram recebidos na casa da família, onde os aguardava Nhô Manduca, doutor e Deputado Provincial.

A cidade estava em festa.

As ruas ganhavam cores, os sinos repicavam, os devotos se apinhavam diante da igreja. Havia música, bandeiras, procissões e promessas feitas ao Divino.

A missa arrastou-se em latim sacro, entre velas, incenso e orações.

Os pretos dos quatro cantos da ilha permaneciam ao fundo do templo, de pé, descalços, enquanto os senhores ocupavam os melhores lugares.

Diante das pedras que guardavam a memória do sangue de Dias Velho, os homens rezavam por salvação.

Uns pela salvação da alma.

Outros, sem ousar pedir em voz alta, pela salvação do corpo.

 

E a festa foi tomando corpo e graça.

Augustinha, que em outros anos procurava esconder-se, dessa vez permaneceu junto dos seus senhores, observando a multidão.

Havia uma vida crescendo dentro dela.

Uma vida que não pedira.

Uma vida que chegaria ao mundo trazendo no sangue a história de uma violência que ninguém haveria de contar.

Pela primeira vez, Augustinha olhou para as crianças que corriam pela praça e pensou no rebento que carregava.

Não sabia se o amaria.

Não sabia se conseguiria.

Mas levou a mão ao ventre.

E ali a deixou por muito tempo.

 

 

Eusébio vacilou.

Talvez fosse o medo. Talvez o peso das consequências. Talvez a consciência tardia de que a liberdade prometida a Carretel lhe custaria uma vida inteira de conveniências.

Mas havia prometido.

E Carretel acreditara.

Ao fim, decidiu cumprir a palavra.

 

Naquela noite, Carretel procurou Bertholina.

A mãe estava sentada junto à parede, com as mãos pousadas sobre o colo. Parecia esperá-la.

Carretel ajoelhou-se.

Pediu-lhe a bênção.

Bertholina pousou a mão sobre a cabeça da filha.

Não perguntou para onde iria.

Não perguntou com quem.

Mães sabem mais do que dizem.

Depois, Carretel procurou Tamía.

Ele também sabia.

Sabia havia dias, talvez semanas. Sabia desde aquela primeira noite em que a mulher adormecera em seus braços com a alma voltada para outro lugar.

Carretel pediu-lhe licença.

Era um pedido impossível.

Como pedir licença a alguém para lhe arrancar o coração?

Tamía não respondeu de imediato.

Lá fora, os sinos da igreja repicavam.

Por fim, baixou a cabeça.

Não a abençoou.

Não a amaldiçoou.

Apenas chorou.

 

Partiram do porto do Desterro enquanto os senhores adormeciam, embriagados de cachaça, festa e suas próprias frivolidades.

Carretel embarcou sem olhar para trás.

Talvez temesse que, se olhasse, não tivesse coragem de seguir.

Talvez soubesse que a liberdade exigia, antes de tudo, a crueldade de uma despedida.

Eusébio tomou-lhe a mão.

A embarcação afastou-se lentamente.

Desterro foi ficando pequena.

Depois, as luzes.

Depois, a ilha.

E Carretel, pela primeira vez na vida, não sabia o que a esperava ao amanhecer.

Era uma sensação terrível.

Era uma sensação maravilhosa.

Era a liberdade.

 

 

Bertholina não derramou uma lágrima sequer quando soube da partida.

Mas também não sorriu.

Nunca mais.

Tamía voltou às Canavieiras e continuou trabalhando para os Manduca.

Não tornou a procurar outra mulher.

Quando Augustinha deu à luz um menino, foi ele quem ajudou a criá-lo. Chamaram-lhe de Tomás.

Tamía tomou conta do pequeno como se fosse seu. Ensinou-lhe o que sabia, protegeu-o como pôde, deu-lhe o afeto que a vida lhe negara o direito de oferecer aos próprios filhos.

Mas em Augustinha nunca encostou um dedo.

Talvez por respeito. Talvez porque reconhecesse nela uma dor que não podia reparar. Talvez porque, depois de perder Carretel, houvesse compreendido que o amor também podia existir sem exigir coisa alguma em troca.

Augustinha nunca mais teve homem.

Viveu muitos anos.

Envelheceu entre os Manduca, vendo o filho crescer, as estações se sucederem e os senhores mudarem de rosto, mas não de maneiras.

Morreu velha.

Sem dores.

Sem uivos.

Sem cantigas.

Tomás cresceu entre os Manduca, seus parentes apenas de sangue, embora jamais de condição.

Teve quatro filhas, todas mulheres.

Rosa. Maria. Eusébia. E Bertolina.

A última recebeu o nome em homenagem à velha Nega Bertholina, mãe de Carretel e Augustinha.

De Carretel nunca mais se soube.

Talvez tenha chegado a Portugal. Talvez tenha conhecido outras terras. Talvez tenha vivido feliz ao lado de Eusébio, ou talvez descoberto que a liberdade prometida por um homem podia ser apenas outra forma de prisão.

Ninguém sabe.

Seu nome desapareceu dos registros, das conversas, das lembranças.

Mas nem tudo desaparece quando alguém deixa de ser lembrado.

Há histórias que permanecem nas paredes das casas, nas raízes das árvores, no leito dos riachos. Histórias que se recusam a morrer porque nunca puderam ser inteiramente contadas.

E há fantasmas que não assombram por maldade.

Assombram porque ainda esperam justiça.

 

Dizem que, nas tardes quentes das Canavieiras, quando o Nordeste tarda e o riacho corre preguiçoso entre as pedras, borboletinhas amarelas ainda podem ser vistas disputando a brisa.

Voam de flor em flor.

Pousam nas marcelas.

E parecem vigiar, com uma compaixão que os homens nunca tiveram, o lugar onde duas lindas pretas lavavam roupas que não eram suas.

Uma sonhava com a liberdade.

A outra ainda não sabia que precisava dela.

 

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FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

Comentários

Autor da postagem
Raquel Sabrina Silva • 26/10/2026 18:37
Que texto mais lindo ♥️♥️
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