Noutra vida, fui corredor. De maratonas, esclareço. Não de credores, embora, dependendo da época, essa segunda modalidade talvez exigisse um preparo físico ainda maior.
Certa feita, inscrevi-me na Maratona de Berlim. Não estava exatamente na melhor forma. Calculava terminar os 42.195m em aproximadamente 4h10’, o que, convenhamos, já representa uma considerável demonstração de insanidade para alguém que poderia estar tranquilamente tomando cerveja e comendo salsichas numa das cidades mais interessantes da Europa.
Ocorre que, no momento da inscrição, a organização da prova exigia que informássemos nossa melhor marca anterior. No meu caso, 3h48’, obtidas na Maratona de Lima. A finalidade era bastante razoável: distribuir os participantes em grupos conforme seu desempenho, evitando que corredores mais lentos atrapalhassem os mais rápidos. Uma espécie de segregação esportiva socialmente aceita, na qual ninguém se ofende por ser colocado entre os ruins. Pelo menos até a largada.
Assim, embora estivesse preparado para correr em 4h10’, fui colocado entre atletas que pretendiam terminar a prova em menos de quatro horas.
Resultado: concluí a maratona em 3h52’!
Dezoito minutos a menos do que havia previsto. Para quem não corre maratonas, talvez pareça pouca coisa. Para quem corre, é praticamente a diferença entre chegar ao destino de tênis ou de ambulância.
Não havia treinado mais. Não havia emagrecido durante a noite, nem descobrira nenhuma técnica secreta de respiração no Youtube. Simplesmente estava cercado de pessoas que corriam mais rápido do que eu.
E corri com elas.
Desde então, carrego uma convicção que, embora não seja propriamente uma descoberta científica, me parece bastante razoável: somos, em grande medida, o resultado do ambiente em que vivemos.
Tenho a impressão de que, se tivesse acontecido o contrário - estivesse preparado para correr em 3h50’, mas largasse entre os corredores das 4h10’ -, provavelmente terminaria depois das quatro horas.
É claro que há exceções. Sempre existe aquele sujeito obstinado, disciplinado, imune às influências externas, que progride mesmo cercado de preguiçosos. Geralmente é o mesmo que acorda às quatro da manhã, toma banho gelado e publica frases motivacionais no status do WhatsApp. Não é exatamente o tipo de pessoa com quem eu gostaria de passar um fim de semana.
Mas exceções não invalidam a regra.
E a regra, suspeito, é que a média nos puxa. Para cima ou para baixo.
Daí surge um dos dilemas mais interessantes da existência humana: é melhor ser o melhor entre os piores ou o pior entre os melhores?
Há uma expressão bastante conhecida, especialmente no mundo corporativo: ser cabeça de sardinha ou rabo de baleia. A primeira opção oferece a vantagem de estar na liderança, ainda que de um cardume sem grandes pretensões. A segunda exige aceitar a humilhante condição de ser a parte menos nobre de um animal extraordinário.
A escolha não é tão simples quanto parece.
Ser o mais inteligente de um grupo tem vantagens inegáveis. Nossa autoestima agradece. Nossas opiniões raramente são contestadas. Nossas piadas parecem mais engraçadas. Eventualmente, até nossas bobagens são recebidas como demonstrações de genialidade.
É uma vida confortável.
O problema é que, quando ninguém nos contradiz, começamos a desconfiar de que somos realmente brilhantes. E, quando finalmente acreditamos nisso, já não há muito que fazer. A estupidez alcançou seu estágio mais perigoso: a autoconfiança.
Por outro lado, conviver com pessoas mais inteligentes, cultas, preparadas ou talentosas pode ser uma experiência profundamente desagradável.
Elas sabem coisas que ignoramos. Fazem perguntas para as quais não temos respostas. Apresentam argumentos que desmontam convicções que levamos décadas construindo.
É humilhante.
E, justamente por isso, pode ser extraordinário.
O pai do meu amigo Valmor Simas, que por sinal também se chamava Valmor Simas, costumava repetir uma frase brilhante:
"Se queres ser bom, anda entre os bons."
O velho Valmor, sem precisar organizar seminários de liderança, elaborar apresentações em PowerPoint ou cobrar uma fortuna por uma mentoria, havia resumido uma das mais importantes lições sobre desenvolvimento humano.
A mesma ideia aparece naquele conhecido conselho: "Se você é a pessoa mais inteligente da mesa, provavelmente está sentado à mesa errada".
Naturalmente, há um inconveniente nessa filosofia. Se todos a seguíssemos rigorosamente, passaríamos a vida trocando de mesa, até que o último sujeito, convencido de sua própria superioridade, terminasse jantando sozinho.
Mas o raciocínio permanece válido.
Ambientes nos moldam.
Uma pessoa curiosa, cercada de gente curiosa, tende a aprender mais. Um profissional competente, convivendo com profissionais ainda melhores, tende a aperfeiçoar suas habilidades. Um leitor, rodeado de pessoas que leem, acaba descobrindo livros que jamais encontraria sozinho (viva os Clube de Livros!)
O inverso também acontece.
Quando convivemos exclusivamente com pessoas que pensam como nós, leem os mesmos autores, repetem as mesmas opiniões e compartilham as mesmas indignações, o mundo vai ficando perigosamente pequeno.
Tudo se torna previsível. As conversas, as conclusões, os inimigos e até as piadas.
É como frequentar uma biblioteca em que todos os livros têm o mesmo título, escritos pelo mesmo autor, com a mesma conclusão. O leitor pode sair de lá muito satisfeito. Dificilmente sairá mais inteligente.
E aqui convém fazer uma distinção importante: não estou falando de dinheiro, posição social, diplomas ou sobrenomes. Há pessoas extraordinárias que jamais frequentaram uma universidade e doutores cuja principal contribuição ao conhecimento humano foi demonstrar que o diploma não impede ninguém de ser idiota.
Falo de disposição intelectual. De curiosidade. De humildade para aprender. Da capacidade de reconhecer que alguém sabe mais do que nós sem interpretar isso como uma ofensa pessoal.
Também não estou sugerindo que abandonemos nossos amigos porque não leram Dostoiévski, não conhecem a segunda lei da termodinâmica ou confundem Kant com um atacante de um time europeu. Amizade não é concurso público. E a vida seria insuportável se precisássemos demonstrar competência intelectual antes de pedir um chope.
O problema não está em conviver com pessoas diferentes, nem em cultivar relações nas quais somos mais experientes. Está em transformar a própria zona de conforto num limite para o crescimento.
Não pretendo aqui repetir a ladainha dos coachs sobre a necessidade de abandonar a zona de conforto. Particularmente, gosto muito da minha. Tenho um sofá excelente e não vejo razão filosófica para desprezá-lo.
O que me parece insensato é querer crescer sem jamais ser desafiado. Esperar que nossas ideias amadureçam sem confrontá-las com outras. Desejar uma vida intelectualmente rica enquanto passamos os dias conversando apenas com quem concorda conosco.
É querer aprender a nadar sem entrar na água. Ou, pior, acreditar que somos excelentes nadadores porque somos os melhores da banheira.
Mas, afinal, qual é a resposta certa? Ser cabeça de sardinha ou rabo de baleia?
Depende (ok, resposta de advogado).
Depende do que cada um deseja da vida. Das ambições que possui. Da importância que atribui ao reconhecimento, à tranquilidade, ao aprendizado e ao próprio desenvolvimento.
Não há pecado algum em estar satisfeito com o que se é. Nem obrigação moral de transformar a existência numa competição interminável de aperfeiçoamento. Às vezes, a pessoa só quer viver em paz, cuidar das plantas da sacada e alimentar os passarinhos sem que algum entusiasta da produtividade lhe pergunte quais são suas metas para o próximo trimestre.
O que não me parece possível é querer as duas coisas ao mesmo tempo: permanecer eternamente no mesmo ambiente, protegido das comparações e dos desafios, e esperar que dele surja, por algum milagre, uma versão muito melhor de nós mesmos.
Talvez a questão não seja escolher definitivamente entre ser cabeça ou cauda, sardinha ou baleia.
Talvez seja saber quando precisamos liderar e quando precisamos aprender. Quando temos algo a ensinar e quando é hora de reconhecer que estamos cercados de gente que sabe mais.
E, sobretudo, ter coragem de mudar de cardume quando percebemos que já não estamos nadando para lugar algum.
Em Berlim, descobri que era capaz de correr mais rápido do que imaginava. Não porque alguém me dissesse que eu era bom, mas porque havia pessoas à minha frente me mostrando que era possível.
Desde então, desconfio dos (raros) ambientes nos quais sou sempre o primeiro, tenho sempre razão e minhas ideias são sempre as melhores.
Pode ser que eu tenha me tornado um gênio.
Mas é muito mais provável que esteja correndo na turma errada.
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