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AVÓS: UMA TECNOLOGIA OBSOLETA

Sobre a geração que se conectou ao mundo e se desconectou da família.

AVÓS: UMA TECNOLOGIA OBSOLETA
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Dias desses, escrevi sobre o processo inexorável de esquecimento da sabedoria popular. Hoje quero falar sobre um fenômeno que talvez tenha alguma relação com aquilo. Talvez, reitero.

Afinal, vivemos tempos em que qualquer afirmação categórica exige, no mínimo, duas ressalvas e um pedido antecipado de desculpas.

Refiro-me à aparente desconexão dos jovens de hoje em dia com suas próprias famílias. Não com os pais, necessariamente (até porque estes continuam sendo indispensáveis para o pagamento das contas, o transporte aos compromissos e a manutenção do plano da internet). Falo dos avós, tios, primos e demais integrantes daquela instituição que, antigamente, atendia pelo nome de família e hoje parece funcionar como um grupo de WhatsApp em que os jovens nunca se manifestam.

Quando eu era criança, a casa da avó era um lugar mágico. Havia sempre alguma coisa acontecendo, ainda que, aparentemente, não acontecesse nada. O avô ocupava sua poltrona diante da televisão, exercendo uma autoridade que dispensava Constituição e direito ao contraditório. Bastava começar o jornal para que o silêncio se tornasse obrigatório. Ninguém ousava mudar de canal. Até porque, naquela época, mudar de canal exigia levantar do sofá (a recíproca valia para quando passava desenho animado, Os Trapalhões ou ou Chaves)

A casa da avó era onde se passavam alguns dias das férias, onde se ficava quando estava doente, onde se comia o que não havia em casa e onde se aprendia o que não se ensinava na escola. Ali se ouviam histórias de família, receitas, fofocas, crendices, rezas, ditados populares e informações absolutamente inúteis que, décadas depois, se revelariam fundamentais para compreender a vida. Os valores eram transmitidos por osmose (hoje, talvez fosse mais adequado falar por Bluetooth, embora suspeite que os jovens não aceitariam o pareamento).

Era também onde se encontravam os primos, os tios e uma quantidade considerável de parentes cujo grau de parentesco ninguém sabia explicar, mas que todos tratavam com intimidade. Havia um sujeito chamado de "tio" que, na verdade, era primo de segundo grau da cunhada do avô. Pouco importava. Era tio, e pronto. Ninguém precisava apresentar certidão de nascimento para participar do almoço ou para tomar um café no meio da tarde de quarta-feira.

E, sobretudo, era onde se demorava. Essa talvez seja a principal diferença. Na casa da avó não havia pressa. As visitas não eram encaixadas entre dois compromissos. Não se precisava justificar a permanência com alguma atividade produtiva. Ficava-se. Conversava-se. Ouvia-se. Às vezes, passava-se uma tarde inteira sem fazer absolutamente nada, o que hoje seria considerado um gravíssimo desperdício de potencial.

Para se ter ideia do que estamos perdendo, até hoje sei de cor as datas de aniversário e os signos de todos os meus tios e primos, sem precisar recorrer ao Facebook. Já não tenho a mesma certeza de que meus filhos saibam o nome completo dos seus. Não que isso tenha grandes utilidades, mas era possível se situar no mundo.

Minha avó reunia os netos para contar histórias. Algumas eram verdadeiras. Outras, inventadas. Eu ouvia tudo com curiosidade e atenção. Aquelas conversas ajudaram a formar quem sou. Não havia slides, mapa mental, estratégias dopaminérgicas, avaliação de desempenho ou certificado de participação. Havia uma avó contando histórias. E funcionava.

Mas também é verdade que, naquela época, os avós não precisavam terminar de criar os netos, ajudar a sustentá-los ou assumir a responsabilidade permanente por sua educação. Eram só avós. Tinham o privilégio de mimar, aconselhar, oferecer doces escondidos, devolver as crianças aos pais quando a situação saía do controle e, volta e meia, dar um puxão de orelha (no sentido literal). Hoje, muitos acumulam as funções de babá, motorista e/ou financiador, tudo isso sob permanente risco de serem acusados de interferência indevida.

Tenho a impressão – e é perfeitamente possível que eu esteja errado – de que parte dos jovens (lamentavelmente) perdeu alguma coisa na relação com os avós. Não necessariamente o amor, mas a disposição para a convivência. A avó, que antes representava um porto seguro, tornou-se, em certos casos, uma senhora inconveniente que insiste em telefonar (!?) justamente quando o(a) neto(a) está ocupado(a) assistindo a um vídeo de alguém ensinando como dobrar uma camiseta ou passar por uma fase do jogo de videogame.

A avó pergunta se ele está comendo direito, se está estudando, se precisa de alguma coisa. Um verdadeiro atentado à privacidade. Quer saber como foi a escola, como estão os amigos, se está namorando. Um interrogatório digno de uma CPI. O(A) neto(a) responde com monossílabos, quando responde. Afinal, está ocupado9a) demais compartilhando com dezenas de (semi)conhecidos detalhes de sua intimidade.

Antigamente, a avó dava um dinheirinho escondido no aniversário. Hoje, corre o risco de ser considerada uma pessoa que não respeita limites e insiste em invadir o espaço pessoal do(a) neto(a). Há uma inversão curiosa nessa relação: antes, o neto tinha medo de decepcionar a avó; agora, é a avó que parece ter medo de desagradar o neto. Pede licença para ligar, desculpa-se por perguntar e agradece quando recebe uma resposta com mais de três palavras. 

Não sei exatamente quando nem como isso começou a mudar. Suspeito de uma combinação de fatores. A substituição das casas com jardim por apartamentos empilhados, onde até uma visita precisa ser anunciada à portaria. O desaparecimento dos almoços de domingo. A fragmentação das famílias. A pressa permanente. E, principalmente, a substituição do sentimento de pertencimento a uma família, a um bairro e a uma comunidade pela sensação de pertencer ao mundo inteiro ou o medo de perder alguma coisa (FOMO).

O jovem de hoje está conectado a tudo. Sabe o que aconteceu há cinco minutos em Tóquio, acompanha a vida de um ator espanhol e se diverte com as diabruras de um cachorro na Califórnia. Mas talvez não saiba que sua avó passou a semana doente. Não por maldade. Apenas porque a avó não publicou um vídeo sobre o assunto no Tik-Tok, com música triste e legendas automáticas.

A casa da avó, por sua vez, também perdeu parte do encanto. Já não é o lugar onde se vai espontaneamente passar a tarde, mas um compromisso familiar do qual se participa mediante coação dos pais. A visita costuma começar com uma pergunta fundamental: "o Wi-Fi está funcionando?". Se não tiver, a permanência é reduzida ao mínimo necessário para não caracterizar abandono afetivo.

É verdade que os avós igualmente mudaram. Muitos trocaram as histórias de família pelas correntes do Facebook, as receitas de bolo pelas teorias conspiratórias e as conversas de domingo pelas discussões políticas. A avó que antes ensinava a fazer pão agora pode estar ocupada brigando com um desconhecido sobre a “última do Alexandre de Moraes”. O avô, que exigia silêncio para assistir ao jornal, descobriu o WhatsApp e passou a distribuir notícias alarmantes sobre a iminente invasão do exército venezuelano na fronteira.

Também é justo reconhecer que nem todas as famílias de antigamente eram esse paraíso de afeto que a memória, excelente falsificadora de documentos, insiste em nos apresentar. Havia conflitos, autoritarismo, ressentimentos e avós que estavam longe de merecer uma estátua na praça. E há, felizmente, muitos jovens que ainda cultivam relações maravilhosas com seus familiares.

Generalizar seria injusto. Mas suspeitar, convenhamos, ainda não foi proibido.

O que me preocupa não é propriamente a falta de respeito aos mais velhos. É a perda de uma oportunidade extraordinária de aprender com eles. Os avós são uma espécie de biblioteca viva, com a vantagem de que os livros nos abraçam, oferecem café e, eventualmente, colocam dinheiro no nosso bolso. São testemunhas de um mundo que desapareceu e guardiões de histórias que, quando deixam de ser contadas, desaparecem junto com eles.

Talvez estejamos criando uma geração que conhece o mundo inteiro, mas desconhece a própria história. Que tem acesso a toda a informação produzida pela humanidade, mas não sabe por que o bisavô veio morar naquela cidade, como os avós se conheceram ou de onde surgiu aquele sobrenome esquisito. Jovens capazes de conversar com uma inteligência artificial sobre a origem do universo, mas sem paciência para ouvir a avó contar, pela décima vez, uma arte que o pai ou a mãe fez quando era criança.

E aqui está a ironia: a inteligência artificial consegue reunir praticamente todo o conhecimento registrado pela humanidade, mas não tem a menor ideia de como era o cheiro da cozinha da minha avó. Nem sabe reproduzir a voz com que ela chamava os netos para a mesa.

E, por mais que evolua, a IA jamais conseguirá me contar uma história que só minha avó conhecia e que eu não tive tempo de ouvir.

Talvez eu esteja exagerando. É possível. A nostalgia tem o péssimo hábito de transformar o passado num lugar maravilhoso.

Mas, quando penso no amor que recebi dos meus avós, nas tardes que passei na casa deles e em tudo o que aprendi sem sequer perceber que estava aprendendo, chego a uma conclusão um tanto melancólica.

Nessa história toda, quem tem mais a perder não são os avós.

São os netos.

E, infelizmente, quando perceberem, talvez já não haja ninguém do outro lado para atender à chamada.

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FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

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