Um dos lugares mais férteis da minha infância ficava à sombra da cadeira de balanço da minha bisavó Bertolina. Era ali, sentado aos seus pés, que eu escutava histórias - ou seriam estórias? nunca soube distinguir direito - sobre os grandes personagens da nossa família.
“Grandes”, esclareça-se, não no sentido de terem realizado grandes feitos. Embora houvesse, sim, alguns memoráveis: um peixe cujo tamanho (maior que a canoa) se comenta até hoje na vila de pescadores; ou uma fuga improvável da ira de um boi durante uma farra. Coisas assim. Grandes o bastante para garantir a seus protagonistas um lugar na mitologia familiar.
Quando eu me punha aos pés da minha avó, sabia que qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, ou com fatos e situações da vida real não era mera coincidência. Muito pelo contrário.
Havia, por exemplo, um casal de parentes dela cujos nomes, imperdoavelmente, não consigo recordar. Para não os condenar ao anonimato, chamemo-los de Bilica e Maloca, apelidos perfeitamente compatíveis com a época e lugar.
Tia Bilica e Tio Maloca moravam na Costa da Lagoa, nos anos 1940, e faziam filhos à reviria, embora nenhum vingasse. Ninguém sabia se o fato de serem primos-irmãos tinha alguma relação com aquelas tristezas todas de enterrar os filhos bebês, um após o outro, vencida todos os anos por uma esperança teimosa, que invariavelmente renascia na forma de outra gravidez.
Até que um deles finalmente vingou. Vingou o suficiente, pelo menos, para justificar a viagem até a cidade para registrá-lo. Chamaram-no de Valdir.
Em vão.
Valdir morreu depois de seis meses, três dias e muitas lágrimas.
Daí que deram uma breve trégua ao útero de Tia Bilica. Dois anos mais tarde nasceu Bia, que ficou, embora sempre doentinha. E, passados outros dois, veio outro menino.
Esse também foi ficando.
Ganhou peso, atravessou semanas, meses e até anos.
Embora Bia também tivesse sobrevivido, Tia Bilica e Tio Maloca não ousaram registrar o novo menino. Talvez por superstição. Talvez por prudência. A solução encontrada foi mais simples: o menino ficou com o nome e os documentos do irmão morto.
O segundo Valdir era, portanto, quatro anos mais novo do que afirmava sua certidão de nascimento.
Foi assim que Valdir acabou servindo no 63º BI aos quatorze anos de idade.
Conta-se que era o único recruta do batalhão que ainda não tinha barba nem pelos púbicos, circunstância que, num quartel, evidentemente não passaria despercebida. Foi alvo de gozações dos demais recrutas, que provavelmente jamais imaginaram estar dividindo alojamento com um soldado que, juridicamente, tinha dezoito anos e, biologicamente, preferia estar soltando pandorga na rua.
Mas acredite: essa não é, nem de longe a história mais bizarra de Tia Bilica e Tio Maloca.
Como visto, Bia foi a primeira filha do casal Bilica e Maloca a sobreviver o suficiente para chegar a criança. Antes dela, viera o primeiro Valdir, que morreu ainda de colo. Depois, viria o outro Valdir, que herdou do primeiro o nome, os documentos e quatro anos de idade que nunca viveu.
Mas o acontecido se deu quando Bia ainda era bebê de peito.
Até então, os primeiros quatro filhos que Bilica e Maloca haviam enterrado tinham morrido da mesma maneira. Minguavam. Nasciam fortes, gorduchos, rosados. Mas, com o passar das semanas, iam perdendo o viço, a força. Definhavam. Por mais que os pais cuidassem, alimentassem, rezassem ou mandassem benzer, não havia simpatia, chá ou promessa a santo que desse conta. E morriam. Um depois do outro.
A família vivia da pesca, como quase todas as outras da Costa da Lagoa naquele tempo.
Todas as madrugadas, por volta das duas ou três horas, Tio Maloca despertava antes mesmo que o galo pensasse em cantar. A casa, de chão de terra batida e paredes de madeira, permanecia mergulhada na escuridão. Para não acordar a mulher e o nenê, que dormiam amontoadas sob as pesadas cobertas de tear, se levantava com cuidado e se vestia com o casaco de lã à luz de lamparina a querosene.
Na noite anterior, a esposa já lhe deixara preparado o farnel: uma lata com farinha de mandioca, algum peixe frito que sobrara da janta e uma garrafa de café. Dependendo da época do ano, ainda acrescentava uma porção de cachaça, que ajudava a esquentar o peito quando o vento sul prometia.
Antes de sair, Maloca tomava uma caneca de café preto, forte e adoçado com mascavo. Depois, abria a porta de madeira e desaparecia na madrugada.
Deixava para trás a mulher e o nenê, que dormia agarrado ao peito da mãe.
Fora assim durante anos. Uma rotina de trabalho duro, vento sul e filhos enterrados um depois do outro.
Da casa, seguia por uma trilha até o rancho de pesca, onde se encontrava com os demais pescadores da comunidade. Ali, antes de lançar as canoas na água, avaliavam as estrelas, a direção do vento e o movimento das águas. Era a previsão meteorológica daqueles impávidos.
Na madrugada do acontecido, porém, Maloca deixou casa para trás e caminhava no breu da noite sem lua quando deu de cara com Jandyra, sua cunhada, que vinha - ou ia, nunca ficou esclarecido - sabe-se lá de onde para sabe-se lá onde.
A jovem Jandyra também nascera e crescera naquela colônia e, por isso, conhecia os costumes, as crendices e as superstições dos pescadores. Sabia, portanto, que não deveria estar por ali.
Porque a tradição dizia, havia gerações, que cruzar com uma mulher de cabelos pretos no caminho para a pesca antes do amanhecer era sinal de mau agouro. E dos grandes.
Maloca nem deixou ela esboçar explicação. Destilou sobre ela uma série de impropérios indizíveis, deu meia-volta e tomou o caminho de casa.
Naquela madrugada, não haveria pesca pra ele.
Ao chegar, abriu a porta com cuidado. A lamparina ainda ardia, lançando sombras compridas pelas paredes. Bilica continuava dormindo, e o marido, que não queria acordá-la, aproximou-se da cama na ponta dos pés.
Foi então que viu.
À primeira vista, pareceu-lhe que havia alguma coisa se mexendo sobre o peito da mulher.
Chegou mais perto.
E o que enxergou foi tão absurdo que precisou se apoiar na parede para não cair.
Uma cobra comprida, escura e lustrosa, estava deitada entre sua mulher e a menina.
A cabeça da serpente permanecia grudada ao seio de Bilica, de onde sugava o leite. Na outra extremidade, Bia, adormecida, chupava-lhe o rabo, como se fosse o bico do peito da mãe.
Valha-me Deus!
Estavam explicados os quatro enterros, as crianças que nasciam fortes e morriam minguadas, as rezas sem resposta, as promessas inúteis e o desespero de uma mãe que via os filhos definharem sem compreender por quê.
A cobra lhes roubava o leite.
Enquanto os bebês emagreciam, a maldita engordava. E, pelo visto, vinha fazendo aquilo havia anos, entrando sorrateiramente na cama do casal depois que o pai saia e se servindo do alimento que deveria sustentar as crianças.
Maloca sabia que um movimento brusco poderia fazer a serpente atacar a mulher ou a filha.
Ficou imóvel, observando.
Esperou que a cobra terminasse de mamar, soltasse a mamica da mulher e começasse a deslizar para fora da cama.
Só então apanhou o facão.
E, com um golpe certeiro, partiu a desgraçada ao meio.
Conta-se que, em vez de sangue, verteu da serpente uma quantidade espantosa de leite, que se espalhou pelo chão de terra batida.
Foi só depois disso que Maloca acordou a mulher e lhe contou o que havia acontecido.
Imagine o susto da Tia Bilica – que cheguei a conhecer já velhinha, quase cega e surda – ao descobrir que, durante filhos, dividira a cama com uma cobra sem jamais desconfiar.
Daquele dia em diante, Bia cresceu, engordou, aprendeu a andar e a falar. Depois dela, nasceu o segundo Valdir, que também vingou. E vieram Araquém, Iracema e Antenor, todos vivos e saudáveis, para espanto de quem já se acostumara a ver aquela família vestida de luto.
Contam que Jandyra – que, infelizmente, não conheci - jurou até a morte que não tinha saído de casa naquela noite.
EM TEMPO. Quando chegar minha vez se sentar naquela cadeira de balanço, acrescentarei para meus netos meu ponto: que Jandyra amanheceu com um corte misterioso na barriga.
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