Volta e meia surgem notícias de manifestações preconceituosas de catarinenses contra imigrantes de outros países e, principalmente, de outras regiões do Brasil. São episódios isolados, mas infelizmente amplificados pelo eco da internet, onde meia dúzia de idiotas consegue produzir o barulho de uma multidão. O resultado é que o estado inteiro acaba recebendo a pecha de xenófobo, como se o preconceito fosse uma tradição regional, ao lado da Oktoberfest e da cuca com farofa. Chamam-nos de Santa Catareich.
Somem-se a isso episódios ocorridos recentemente em estádios de futebol daqui, nos quais torcedores nativos foram flagrados dirigindo ofensas xenofóbicas às torcidas adversárias. Em dois incidentes recentes, coincidentemente, os times visitantes eram do Pará, cujas torcidas compareceram em grande número, reflexo da expressiva comunidade paraense que hoje vive em Santa Catarina.
É verdade que arquibancadas e caixas de comentários da internet não são os ambientes mais recomendáveis para avaliar o estágio civilizatório da humanidade. São lugares onde o chorume das opiniões costuma vir à superfície sem necessidade de escavação.
Mas não acredito que os catarinenses sejam particularmente preconceituosos. Pelo menos, não mais do que outros povos do Brasil ou mesmo do mundo. Aliás, suspeito que o problema seja universal.
O ser humano parece gostar de receber imigrantes, desde que eles tenham a delicadeza de deixar seus costumes na fronteira. São sempre bem-vindos para trabalhar, produzir, pagar impostos e movimentar a economia. Mas convém que não insistam em falar sua língua materna, manifestar publicamente suas tradições e, Deus me livre!, praticar aqui sua religião. Queremos diversidade, desde que ela não seja muito diferente. É uma condição humana, demasiadamente humana: recebemos o estrangeiro, mas esperamos que ele tenha a gentileza de deixar de sê-lo.
A série Califado, da Netflix, oferece uma provocação interessante. Ao retratar imigrantes de origem síria e as tensões entre diferentes identidades culturais na sociedade sueca que os acolheu, levanta uma questão que ultrapassa a própria trama: quando um país recebe imigrantes, deve acolher também, indistintamente, suas culturas, religiões e tradições? Ou a hospitalidade admite ressalvas? Evidentemente, acolher uma cultura não significa tolerar a violência ou o extremismo.
Nós, catarinenses, temos razões históricas para refletir sobre isso. Afinal, salvo os povos originários — e, a julgar pelas recentes descobertas arqueológicas, também eles —, somos todos descendentes de gente que chegou por aqui trazendo seus próprios costumes, crenças e idiomas, impondo-os a quem já estava. Ou você acha que os Carijós, Xokleng e Kaingang foram consultados sobre a conveniência de receber os novos moradores e seus hábitos estranhos?
Paradoxalmente, ainda hoje há quem se incomode quando os indígenas insistem em reivindicar seus territórios ou exigir que o Estado cumpra antigas promessas. Ou seja, os descendentes daqueles que chegaram exigem adaptação daqueles que já estavam.
Aliás, quem assistir ao documentário Anauê! O Integralismo e o Nazismo na Região de Blumenau, de 2015, disponível no YouTube, perceberá que o apego dos imigrantes alemães e de seus descendentes às tradições europeias também incomodava setores da sociedade e as autoridades brasileiras nos anos 1930. Aquela espécie de banzo germânico, manifestado na língua, nas festas e na reverência aos costumes dos antepassados, era por vezes interpretada como soberba ou falta de patriotismo pelos demais brasileiros. O resultado, obviamente decorrente do contexto da 2.ª Guerra, veio com a campanha de nacionalização do Estado Novo e as restrições à língua e à cultura alemãs e italianas.
Por isso, receber bem quem chega não deveria ser apenas uma questão de conveniência econômica, embora os imigrantes sejam parte importante da força de trabalho e do desenvolvimento de Santa Catarina. Deveria ser também uma questão de coerência histórica. Nossos antepassados trouxeram suas línguas, suas crenças, suas comidas e suas saudades. Não há razão para exigir que os recém-chegados abandonem as deles. Naturalmente, a convivência exige respeito às leis e aos direitos de todos. Mas respeitar não é obrigar o outro a ser igual a nós.
Mas, se o Homo sapiens é nômade por natureza, talvez seja uma das grandes contradições da condição humana essa nossa predisposição a perambular pelo mundo e, ao mesmo tempo, receber com ressalvas aqueles que fazem exatamente o mesmo Gostamos de abrir as portas, desde que o recém-chegado não se esqueça de quem é o “dono da casa”. Mas recebê-lo sem exigir que renuncie à própria identidade é um desafio muito maior.
Receber sem ressalvas exige uma grande evolução civilizatória.
E que, até chegarmos lá, ninguém seja obrigado a beber óleo queimado só porque torce para o Paysandu.
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