“...mas alguns dias mais tarde ele poria as mãos em mim sem meu consentimento. Tudo no meu corpo dizia que eu não queria estar ali, e, com medo, eu pensava: Finge que esse corpo não é seu. Vai acabar logo.”
Vivemos uma época curiosa. Nunca tivemos tanto acesso à informação, nunca se publicou tanto e, paradoxalmente, estamos lendo cada vez menos. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o número de leitores brasileiros caiu de aproximadamente 100 milhões, em 2019, para 93,4 milhões, em 2024. A média anual também despencou: de 4,95 para 3,96 livros por pessoa. E há um detalhe que torna a estatística ainda mais constrangedora: a conta inclui livros que o sujeito começou e abandonou na página 17. Se considerarmos apenas os efetivamente terminados, a média cai para pouco mais de dois por ano. O brasileiro, aparentemente, está conseguindo abandonar livros com a mesma eficiência com que abandona dietas [para quem ler essa crônica no futuro, dieta era o que se fazia antes de inventarem o mounjaro].
E o que estamos lendo? Basta passear pelas listas de mais vendidos para encontrar manuais de como enriquecer, ser extraordinário, acordar às cinco da manhã, desenvolver hábitos atômicos, enfoderar-se, tornar-se um sujeito de alta performance ou tomar café com Deus. Nada contra. Juro. Cada um procura na literatura aquilo de que mais lhe apetece ou precisa. Uns procuram respostas para os mistérios da existência; outros, instruções para faturar o primeiro milhão antes dos trinta. Há também os livros de colorir, que ao menos oferecem a vantagem de não exigir interpretação de texto. E, evidentemente, os romances de Colleen Hoover e companhia, que conquistaram uma legião de leitores e, sobretudo, leitoras. Não é pouca coisa. Mas é legítimo perguntar se estamos procurando nos livros apenas entretenimento, conforto e fórmulas prontas, ou também aquela experiência incômoda de descobrir que o mundo pode ser muito diferente do que imaginávamos.
A propósito, as mulheres continuam levando vantagem no hábito da leitura. Em 2024, 49% delas foram consideradas leitoras, contra 44% dos homens. A quantidade média de livros lidos, entretanto, é praticamente igual: 3,99 por mulher e 3,92 por homem. Ou seja, não se pode afirmar que elas leem muito mais. Mas há um dado interessante: entre as pessoas que compraram mais de dez livros em 2025, 62% eram mulheres. Ao que parece, enquanto parte dos homens está ocupada aprendendo a ficar milionária antes do café da manhã, muitas mulheres estão ajudando a manter as livrarias abertas.
Nesse cenário, um dos movimentos culturais mais interessantes é o dos clubes de leitura, frequentemente organizados e protagonizados por mulheres. A proposta é de uma simplicidade quase revolucionária: um grupo de pessoas combina a leitura de um mesmo livro e, depois, reúne-se para conversar sobre ele. Conversar mesmo. Pessoalmente. Sem a necessidade de publicar uma opinião definitiva, conquistar seguidores ou encerrar a discussão com um emoji de palmas irônicas.
Acho a iniciativa maravilhosa por vários motivos. Estimula a leitura, movimenta o mercado editorial, proporciona o contato com obras que talvez jamais escolheríamos espontaneamente e, sobretudo, recupera algo que estamos perdendo: o prazer de nos encontrarmos para trocar ideias. Não deixa de ser uma pequena insurreição contra o individualismo contemporâneo. Pessoas saem de casa, sentam-se juntas e escutam umas às outras. Sem algoritmo selecionando o interlocutor. Uma extravagância.
Neste final de semana, tive a satisfação — e a honra — de participar, na condição de apêndice de uma das integrantes, de um encontro do Clube das Capitus. O livro escolhido era Bom dia, inverno, de Tamara Klink.
Sou grande admirador de Amyr Klink, pai da autora, cujos relatos de navegação sempre me fascinaram.
E aqui cabe um parêntese, absolutamente dispensável, mas que não resisto a abrir. Conta-se que, durante seu governo, meu xará Fernando Henrique Cardoso foi provocado a respeito das críticas que Luís Fernando Veríssimo lhe dirigia. Teria respondido que nunca lera nada daquele rapaz, mas que gostava muito do pai, Érico Veríssimo. Não sei se a história é verdadeira. Mas, se não for, merece ser. É uma daquelas respostas que conseguem desqualificar o interlocutor e demonstrar ignorância literária na mesma frase.
Fechado o parêntese.
Eu já havia lido o livro de Tamara alguns meses antes, atraído justamente pela admiração que tenho por seu pai. Isso aconteceu, inclusive, antes de uma manifestação da autora desestimular a compra da própria obra por questões ambientais [para que estiver lendo este livro no futuro, "meio ambiente" era o que existia na superfície terrestre]. Mas deixemos essa história para outra ocasião.
O fato é que tive uma gratíssima surpresa. Tanto de forma como de conteúdo. Tamara escreve muito bem. Sua narrativa é envolvente, sensível e inteligente, sem precisar transformar cada página numa tentativa desesperada de produzir uma frase para o Instagram. E a experiência de uma jovem que inverna sozinha no Ártico, num pequeno veleiro oferece muito mais do que uma aventura marítima. Há ali reflexões sobre medo, solidão, coragem, liberdade e, especialmente, sobre a condição feminina.
Antes de prosseguir, permitam-me outra digressão. Prometo que esta tem relação com o assunto.
Tenho profunda antipatia pela utilização da estratégia do lugar de fala como instrumento para encerrar discussões. Não pela ideia original, que reconhece a importância das experiências de quem vive determinada realidade, mas pela sua transformação numa espécie de carteira de habilitação para emitir opiniões. Se você não pertence a determinado grupo, estaria automaticamente desautorizado a participar do debate. Pouco importa o que estudou, pesquisou ou refletiu. Falta-lhe a credencial.
Considero isso um empobrecimento intelectual. Debater pressupõe justamente o encontro de perspectivas diferentes. A experiência pessoal é uma fonte valiosíssima de conhecimento, mas não pode ser a única. Do contrário, um oncologista que nunca teve câncer estaria impedido de discutir a doença, e um historiador precisaria ter participado da Revolução Francesa para escrever sobre ela. O conhecimento humano ficaria seriamente prejudicado, especialmente no que diz respeito aos dinossauros.
Mas há uma diferença fundamental entre ter legitimidade para participar de uma conversa e imaginar que se compreende integralmente a experiência do outro.
E foi justamente essa diferença que o livro de Tamara me ajudou a perceber.
Em determinado capítulo, a autora descreve as agruras de ser mulher — e, naquele momento, uma jovem de apenas 23 ou 24 anos — num universo predominantemente masculino. A desconfiança sobre sua capacidade, os gracejos inconvenientes, as insinuações, o assédio, as ofensas e aquela coleção de pequenas e grandes violências que, de tão repetidas, alguns homens ainda insistem em tratar como naturais.
O trecho que abre esta crônica é particularmente perturbador. Não por apresentar uma situação desconhecida, infelizmente, mas pela maneira como revela o que se passa na cabeça de uma mulher submetida a uma violência. A estratégia desesperada de se desligar do próprio corpo. Esperar que termine. Sobreviver.
E foi aí que me dei conta de algo que talvez pareça contraditório com o que escrevi poucos parágrafos acima.
Eu posso estudar o machismo estrutural, discutir o assédio, compreender intelectualmente a misoginia, reconhecer o gaslighting e condenar todas essas manifestações. Posso até ter argumentos consistentes sobre cada uma delas. Mas jamais saberei, verdadeiramente, o que significa atravessar a vida sob determinadas ameaças simplesmente por ser mulher.
Não sei o que é avaliar, antes de entrar num elevador, se o homem que está lá dentro representa algum perigo. Não sei o que é precisar calcular a roupa, o horário, o caminho, a bebida ou a cordialidade de uma resposta para evitar uma interpretação indesejada. Não sei o que é ter minha competência questionada antes mesmo de demonstrá-la, por uma característica que nada tem a ver com minha capacidade.
E não saber não me impede de participar do debate. Apenas deveria me obrigar a ouvir mais.
Reconheço, aliás, que pertenço a uma geração educada dentro de uma cultura machista, ainda que muitos de nós tenhamos passado boa parte da vida sem perceber a extensão disso. Tenho procurado me desconstruir - expressão que confesso utilizar com algum desconforto, pois me dá a impressão de que serei obrigado a remontar todas as peças depois. Nesse processo, meus filhos têm sido meus maiores algozes. E professores. Apontam comportamentos, corrigem expressões, questionam convicções que eu julgava perfeitamente civilizadas. Às vezes exageram. Às vezes eu resisto. E, não raramente, descubro que estão certos. Uma situação particularmente desagradável para um pai.
Mas talvez seja justamente para isso que sirvam os bons livros.
Não apenas para confirmar aquilo em que acreditamos, distrair-nos durante uma viagem ou ensinar a organizar as finanças pessoais. Os grandes livros nos transportam para existências que jamais viveremos. Permitem-nos enxergar o mundo pelos olhos de alguém que não somos. E, quando temos a oportunidade de conversar sobre eles com outras pessoas, essa experiência se multiplica. Cada leitor percebe algo diferente, traz sua história, suas convicções, suas feridas. O livro deixa de ser apenas uma conversa silenciosa entre autor e leitor e passa a ser uma conversa entre muitos mundos.
Saí do encontro das Capitus com a sensação de ter aprendido mais do que esperava. Sobre o livro, sobre as mulheres, sobre os outros e, principalmente, sobre mim.
Continuo acreditando que ninguém deva ser impedido de falar por não possuir determinada experiência. Mas começo a desconfiar de que o maior problema dos debates contemporâneos não seja a falta de lugar de fala.
É a falta de disposição para ouvir.
E, para isso, felizmente, não é preciso nenhuma credencial. Basta abrir um livro. E, de vez em quando, fechar a boca.
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