Existe uma expressão curiosa, geralmente pronunciada com um suspiro e acompanhada de um olhar perdido no horizonte: “no meu tempo”.
Conheço pessoas que se ofendem quando os filhos perguntam como eram as coisas no tempo delas (ela sabe de quem estou falando). “Ora, meu tempo é agora!”, respondem, indignadas, como se os filhos tivessem acabado de solicitar informações sobre a descoberta do fogo. Não deixam de ter razão. Tecnicamente, enquanto estivermos vivos, o tempo é nosso (embora, a partir de certa idade, ele comece a cobrar ágio).
Confesso que sempre senti uma saudade nostálgica – com o perdão da redundância – do lirismo de ser jovem no Estreito (não o de Ormuz, mas o de Florianópolis) dos anos 1960, quando meus pais e meus tios tinham a idade em que eu gostaria de tê-los conhecido. Fico imaginando como seria tomar banho nas águas límpidas de onde viria a ser chamada de “Praia do Cagão”; torcer para Adaírton, Zezinho e Deodoro Trilha no recém-inaugurado estádio Orlando Scarpelli; ou assistir um faroeste no Cine Glória (onde mais tarde seria a Danceteria Metrô) nas matinês de domingo. Sempre quis saber como era viver naquela época. Provavelmente tão cheio de problemas quanto o nosso, mas com a vantagem de que os problemas antigos, vistos de longe, parecem ter uma delicadeza que os atuais não possuem.
Mas os ventos acabaram me levando para outras bandas, onde – graças a Deus e ao professor Artur – pude viver minha própria juventude idílica. O meu tempo. Que, naturalmente, considero muito melhor do que o dos outros (embora não passe de uma informação empírica).
No meu tempo – leia-se anos 1990 – a Oktoberfest tinha o famoso Castelinho, onde a juventude blumenauense se reunia para paquerar e brigar, não necessariamente nessa ordem. O melhor pavilhão era o C, território dos milhares de universitários “estrangeiros” que vinham estudar na FURB – estrangeiros, no caso, eram os nascidos a mais de quarenta quilômetros de Blumenau. Os playboys e as patricinhas nativos circulavam exibindo suas pulseiras de camarote, numa época em que o conceito de influenciador ainda não existia, mas o de gente querendo aparecer já estava bastante desenvolvido.
Havia também o lendário pavilhão G – “g” de grama – sobre o qual todos falavam e mentiam ter frequentado. O horário de verão (lembram dele?) começava em pleno fim de semana de Oktober, roubando uma hora de festa da juventude. Centenas de ônibus de turismo ocupavam as imediações da PROEB e um enorme terreno baldio defronte ao Corpo de Bombeiros era transformado em estacionamento. Tínhamos o Skol Rock na Prainha. A turistada interditava a Rua XV ao meio-dia de sexta-feira, devolvendo-a à população em algum momento indeterminado da semana seguinte.
Não havia controle de entrada. Por isso, batia-se recordes de público que hoje certamente seriam objeto de investigação do Ministério Público, do Corpo de Bombeiros ou de uma CPI. Era praticamente impossível transitar entre os pavilhões, chegar ao banheiro ou reencontrar alguém. Perder um amigo na multidão significava, muitas vezes, só voltar a vê-lo na segunda-feira. E ninguém se desesperava. Não havia WhatsApp para perguntar onde ele estava, nem GPS para localizá-lo. Se estivesse vivo, apareceria.
Eram tempos magnificamente ilustrados pelo saudoso Horácio Braun, que, ao lado de Ingo Penz, criou o Choppmotorrad, uma daquelas ideias que só poderiam surgir numa cidade em que a criatividade e o consumo de chope sempre mantiveram relações bastante próximas.
Pausa para um suspiro.
Hoje, observo a multidão vestida com trajes típicos de milhares de reais, não raro importados da Alemanha. Cada brinde é fotografado, filmado e publicado no Instagram, preferencialmente ao som de Sweet Caroline. Rapazes desfilam de Lederhosen e tênis da Vans, e moças circulam de sexy-fridas. Grupos se organizam em confrarias que lembram guildas iniciáticas, com nomes, heráldica, hierarquias e rituais próprios.
Os desfiles na Rua XV ganharam uma grandiosidade capaz de provocar inveja à Broadway e uma regulamentação que faria o carnaval da Sapucaí parecer um bloco de sujos. Os pavilhões estão lindamente decorados, aproximando-se dos de Munique. Há cervejarias artesanais, espaços temáticos, experiências gastronômicas e toda uma infraestrutura que transformou a festa num espetáculo de organização, beleza e eficiência.
Foi então que me lembrei do Barco de Teseu.
Para quem não conhece ou lembra, trata-se de um antigo paradoxo filosófico: se um barco tiver, ao longo dos anos, todas as suas peças substituídas, continuará sendo o mesmo barco?
É uma questão que atormenta os filósofos há séculos e que, aplicada à Oktoberfest, provavelmente seria resolvida depois do terceiro caneco, quando todos concordariam que o importante é o barco não afundar.
Não sou tolo de arrumar briga gratuita, muito menos de receber a pecha de ressentido. Por isso, afirmo, com toda a convicção que a prudência recomenda, que a Oktoberfest apenas evoluiu. Ficou maior, mais bonita, mais organizada, mais segura, mais internacional. Continua sendo a mesma festa. Apenas trocaram algumas tábuas, o convés, as velas, o mastro, o timão e, possivelmente, o próprio Teseu.
Mas talvez o problema nem seja o barco.
Afinal, também nós fomos substituindo nossas peças ao longo do caminho. Nós, rapazes do Castelinho, perdemos cabelos, ganhamos barriga, trocamos os tênis por sapatos confortáveis e a disposição de atravessar um pavilhão lotado pela preocupação de encontrar uma mesa. O que antes chamávamos de aventura hoje chamamos de falta de organização. O que era uma noite inesquecível, agora seria motivo para uma reclamação na ouvidoria ou um textão no Facebook.
Talvez, portanto, a Oktoberfest continue exatamente a mesma. Quem mudou fomos nós. Ou talvez tenham mudado os dois – o que é uma solução filosoficamente pouco elegante, mas bastante conveniente.
De qualquer maneira, no “meu tempo”, sem overposting, sem cervejarias artesanais e sem a necessidade de registrar cada instante para provar que estivemos felizes, vivíamos um sonho.
Um sonho em que o chope era mais barato, as noites mais divertidas e a festa parecia não ter fim.
É claro que nada disso é necessariamente verdade.
Mas essa é justamente a grande vantagem do passado: ele não tem mais como se defender.
Comentários
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Login Cadastre-seVocê foi de uma precisão cirúrgica!
viva a Oktober!
Viva Blumenau!
Viva o chopp, completo, com glúten!!!
Joao Marcos.