Antes mesmo do segundo turno das eleições, rascunhei uma charge que acabei não publicando (@doutorsandoval). Mais por preguiça do que por medo de fazer inimizades (embora, nos tempos atuais, a preguiça seja uma excelente forma de autopreservação)
Na charge, dois homens aguardavam num ponto de ônibus. Um deles comentava com o outro:
“Depois do resultado das eleições, agora estou torcendo pelo Super El Niño!”
A piada é ótima (modéstia às favas!). Talvez você não ache agora, mas reconhecerá sua genialidade (de novo!) quando a euforia ou a indignação eleitoral arrefecer.
O fato é que a piada funcionaria qualquer que fosse o resultado das urnas. Bastaria trocar os personagens de lugar. A frustração, a raiva e a sede de vingança seriam rigorosamente as mesmas, apenas com os sinais invertidos. O que hoje é revolta amanhã seria comemoração. E vice-versa. A coerência, como se sabe, é uma virtude que exigimos apenas dos adversários.
O fenômeno é curioso: os “perdedores” (faço questão das aspas) parecem torcer para que o(s) eleito(s) pelos “vencedores” fracassem. Como se uma eventual catástrofe econômica, social e até mesmo climática(!) pudesse ser contabilizada como vitória pessoal.
Uma inflação descontrolada? Eu falei!
Uma crise institucional? Bem feito!
Uma tragédia anunciada? Não digam que não avisei!
O prazer quase orgasmático de estufar o peito e dizer, mal tentando disfarçar o sorriso no canto dos lábios, "eu não falei?" parece compensar qualquer prejuízo coletivo. Até mesmo o próprio.
É como se estivéssemos todos num barco e metade dos passageiros torcesse para que o capitão batesse num iceberg. A outra metade, naturalmente, faria o mesmo se o capitão fosse outro. E, enquanto a água invadisse os camarotes, haveria gente comemorando o naufrágio porque, afinal, tinha razão sobre a incompetência do comandante.
O problema é que, no fundo do mar, não há vencedores. Apenas passageiros com opiniões muito bem fundamentadas.
Essa peculiaridade da alma humana me fez lembrar do famoso julgamento de Salomão.
Conta a narrativa bíblica que duas mulheres disputavam a maternidade de um bebê. Ambas afirmavam ser a mãe verdadeira. Sem exames de DNA, câmeras de segurança ou grupos de WhatsApp capazes de produzir provas duvidosas, o rei resolveu a controvérsia com uma proposta aparentemente absurda: dividir a criança ao meio e entregar metade a cada uma.
A mãe verdadeira, desesperada, preferiu abrir mão do filho para que ele continuasse vivo. A outra aceitou a divisão. Salomão, então, identificou a verdadeira mãe.
Sempre admiramos a sabedoria do rei. E, naturalmente, o amor da mãe, capaz de renunciar ao próprio direito para preservar a vida do filho.
Abro um breve parágrafo para confessar algumas inquietações sobre essa passagem bíblica que me assombram desde pequeno: e se a mãe verdadeira tivesse demorado um segundo a mais para reagir, Salomão teria deixado cortarem o bebê? E se as duas tivessem gritado ao mesmo tempo, como ele decidiria? E se a falsa mãe, mais esperta, tivesse percebido a armadilha e feito uma interpretação teatral digna de Oscar? Encerro o parágrafo.
Mas a beleza dessas histórias está justamente nas interpretações que permitem. Durante séculos, concentramos nossa atenção na inteligência do rei e na generosidade da mãe verdadeira.
Talvez esteja na hora de olhar para a outra mulher.
Aquela que, diante da possibilidade de perder a disputa, preferiu que ninguém ficasse com a criança.
Aquela para quem a derrota pessoal era tão intolerável que justificava a destruição do próprio objeto da disputa.
Aquela que confundiu justiça com vingança e transformou o desejo de vencer numa disposição para destruir.
Não lhes parece familiar?
É exatamente o que estamos fazendo quando desejamos o fracasso de um governo apenas porque não votamos nele. Quando comemoramos uma notícia ruim porque ela constrange o adversário. Quando torcemos para que uma política pública dê errado, não porque seja necessariamente ruim, mas porque seu sucesso poderia obrigar-nos a reconhecer algum mérito em quem desprezamos.
E reconhecer mérito no adversário, convenhamos, tornou-se uma humilhação quase insuportável.
Não estou sugerindo que viremos a casaca, deixemos de fiscalizar, criticar ou combater governos. Pelo contrário. A oposição é indispensável à democracia. "¡Si hay gobierno, soy contra!" Mas existe uma diferença abissal entre desejar que um governante seja responsabilizado por seus erros e desejar que ele cometa erros para que possamos responsabilizá-lo.
Uma coisa é querer que o capitão seja substituído porque conduz mal o barco. Outra é torcer pelo iceberg.
O mais desconcertante é que nenhum dos lados parece perceber a própria contradição. Todos se dizem preocupados com seu futuro. Todos afirmam defender o povo, a democracia e as próximas gerações. Todos juram amar o país.
Mas, se o país prosperar sob o comando do adversário, há quem considere isso uma tragédia pessoal.
Talvez porque, para algumas pessoas, estar certo seja mais importante do que estar bem. E ver o outro errado seja ainda melhor do que estar certo. Esse é o barulho dos nossos tempos.
No julgamento de Salomão, a mãe verdadeira aceitou perder para que o filho pudesse viver. A falsa preferiu que o filho morresse para não precisar aceitar a derrota.
Nós parecemos cada vez mais dispostos a ocupar o lugar da segunda.
Com uma diferença importante: naquela história, o bebê pertencia a uma das mulheres.
O Brasil pertence a todos nós.
E, se continuarmos insistindo em cortá-lo ao meio, não haverá metade suficiente para ninguém.
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