Aguarde, carregando...

Sexta-feira, 30 de Outubro 2026

Eleições 2026

AO VIVO
Apurado: 0%
Aguardando início da apuração oficial...
Colunas/Geral

O ÚLTIMO ASSOBIADOR

Crônica sobre uma espécie ameaçada

O ÚLTIMO ASSOBIADOR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Vocês já perceberam que as pessoas não assobiam mais?

Não me refiro ao assobio de chamar o cachorro, muito menos àquele, acompanhado de um comentário abjeto, dirigido às mulheres na rua.

Refiro-me ao assobio despretensioso, sem destinatário, que não pretende comunicar absolutamente nada. Aquele que começa com uma melodia conhecida, perde o rumo na terceira nota e segue adiante sem maiores compromissos com a música (ou com a humanidade).

Lembro, na infância, de conhecer grandes assobiadores. Gente capaz de executar uma canção inteira apenas movimentando os lábios, com direito a mudanças de tom e, nos casos mais virtuosos, uma espécie de solo de flauta sem flauta. Eu os admirava (e invejava!). Eram artistas anônimos, que não cobravam ingresso nem exigiam aplausos. Mas assobiavam. E isso bastava.

O assobio sempre teve uma reputação social duvidosa.

Era coisa de vagabundo, de desocupado, de sujeito que não tinha nada melhor para fazer. Ninguém imaginava um grande executivo atravessando o corredor da empresa assobiando uma marchinha. Seria imediatamente encaminhado ao departamento de recursos humanos, para uma avaliação psicotécnica ou, dependendo da melodia, psicológica.

Assobiar era um privilégio de quem podia se dar ao luxo de não estar fazendo nada.

Ou de estar fazendo alguma coisa que não exigisse o cérebro inteiro.

Penso no homem que varria a calçada, no sujeito que regava as plantas, no pedreiro que assentava tijolos, no aposentado que caminhava a esmo. Todos potenciais assobiadores. Hoje, o primeiro provavelmente está ouvindo música num fone de ouvido. O segundo acompanha um podcast sobre os sete hábitos das pessoas altamente eficientes. O terceiro escuta um especialista ensinando como ficar rico antes dos trinta. E o aposentado, se ainda caminha, deve estar aproveitando para responder às mensagens do grupo da família.

Ninguém mais se permite o desperdício de simplesmente estar onde está.

Talvez o desaparecimento dos assobios tem algo a ver com o desaparecimento dos passarinhos. À medida que a cidade avança sobre a mata, as árvores dão lugar aos prédios e os cantos vão sendo substituídos por buzinas, motores e britadeiras. Com a diferença de que, no nosso caso, não foi preciso derrubar nenhuma árvore. Nós mesmos tratamos de expulsar os pássaros da cabeça.

 

Vivemos num mundo que declarou guerra ao vazio. Cada minuto desocupado precisa ser preenchido por alguma coisa. Se estamos numa fila, sacamos o celular. Se caminhamos, colocamos os fones. Se dirigimos, ouvimos notícias. Se tomamos banho, há quem aproveite para acompanhar uma palestra sobre inteligência emocional. Até o sono virou uma oportunidade de produtividade, com aplicativos que monitoram sua qualidade e nos informam, pela manhã, que dormimos mal (antigamente, bastava acordar cansado para chegar à mesma conclusão).

O mais curioso é que não nos contentamos em estar ocupados. Precisamos ter a sensação de que estamos aproveitando o tempo. O ócio tornou-se uma espécie de delito moral. Não fazer nada é quase uma confissão de fracasso. E, para evitar essa vergonha, inventamos maneiras cada vez mais sofisticadas de não deixar a cabeça em paz. Estamos tão ocupados consumindo pensamentos alheios que já não sobra tempo para produzir os nossos.

Talvez por uma espécie de pedido de socorro intuitivo, tenho me interessado ultimamente pelo Taoísmo. Entre suas muitas ideias, há uma que me parece particularmente oportuna: a utilidade do vazio. Um quarto pode estar repleto de móveis, mas é no espaço desocupado que conseguimos caminhar, sentar, circular e viver. Podemos encher uma casa de objetos maravilhosos. Se não deixarmos espaço entre eles, teremos nada além de um depósito.

Suspeito que a cabeça funcione da mesma maneira. De tanto mobiliá-la com notícias, vídeos, opiniões, mensagens, notificações e conselhos de desconhecidos, acabamos sem espaço para circular dentro dela. A criatividade, que sempre teve hábitos meio vagabundos, não encontra onde se instalar.

[aposto que você pensou no clássico “O ócio criativo” do Domenico De Mais]

Uma boa ideia precisa de algum lugar para aparecer. E dificilmente conseguirá disputar espaço com um vídeo ensinando cinco maneiras de fazer uma omelete.

O tédio, que durante séculos foi considerado um inconveniente, talvez tenha sido um dos grandes patrocinadores da imaginação humana. Foi por não ter nada para fazer que alguém resolveu observar as estrelas, inventar histórias, desenhar nas cavernas ou descobrir que um pedaço de madeira podia produzir música. Não estou sugerindo que a humanidade teria chegado à Lua se os astronautas tivessem ficado olhando para o teto. Mas desconfio que muitas das ideias que nos levaram até lá nasceram justamente em momentos nos quais ninguém estava tentando ter uma ideia.

Talvez precisemos reaprender a desperdiçar tempo.

Caminhar sem ouvir nada. Esperar sem consultar coisa alguma. Regar uma planta sem aproveitar para aprender Francês. Permitir que um pensamento comece, se perca, encontre outro pensamento e termine num lugar absolutamente inútil [geralmente uma ideia de crônica]. É possível que não aconteça nada. O que, convenhamos, já seria uma experiência bastante original.

E quem sabe, num desses intervalos de improdutividade, a gente se surpreenda com uma melodia escapando pelos lábios. Um assobio tímido, desafinado, sem propósito, que não poderá ser monetizado, compartilhado ou transformado em conteúdo.

Seria um pequeno sinal de recuperação.

Leia Também:

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Vale Europeu Notícias
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR