Gosto muito de um programa no YouTube chamado Três Continentes, que reúne um francês (o humorista Paul Cabannes), um angolano (Baptista), um brasileiro (Maurício Meirelles) e, eventualmente, um chinês. A geografia do programa é um tanto flexível, mas não vamos exigir rigor cartográfico de humoristas. Eles costumam receber estrangeiros que moram no Brasil ou brasileiros que vivem no exterior para conversar sobre diferenças culturais, costumes e aquelas peculiaridades que fazem um povo considerar perfeitamente normal aquilo que outro classificaria como caso de internação. Acho interessantíssimo. Além de divertido, tem a vantagem de nos lembrar que o mundo não termina no Duty Free de Guarulhos.
Num episódio recente, eles receberam Chicco Mattos, um brasileiro que mora na Noruega há vários anos. Em determinado momento, o convidado explicou que por lá não existe o abismo social que conhecemos tão bem no Brasil. Do lixeiro ao médico, todos ganham semelhantemente bem (muito longe da disparidade pornográfica daqui). A fala quase descambou para uma discussão sobre se a Noruega seria socialista ou capitalista – um daqueles grenais ideológicos inócuos e estéreis, como, por exemplo, se o nazismo era de direita ou de esquerda – quando Chicco explicou que lá, é “um capitalismo em que as pessoas se importam".
Achei aquilo extraordinário.
Não só pela originalidade econômica da afirmação, mas pela simplicidade quase constrangedora. Passamos décadas discutindo o tamanho ideal do Estado, a liberdade do mercado, a distribuição da riqueza e a carga tributária, esquecendo de algo que não consta de nenhuma planilha.
Fiquei pensando que talvez aquela frase encerrasse uma das chaves para finalmente apaziguar – e, com isso, reconstruir – o Brasil.
Ainda sem saber exatamente como estabelecer essa conexão, lembrei-me de uma cena recente.
Costumo buscar meus filhos na escola para almoçarmos juntos. Chego um pouco antes e fico nas proximidades da saída, observando-os entre os demais estudantes, com a finalidade de não os constranger (pelo menos não deliberadamente). Trata-se de um experimento sociológico fascinante. Adolescentes constituem uma espécie com linguagem própria, rituais de acasalamento ainda em fase de aperfeiçoamento e uma capacidade extraordinária de achar graça em coisas que nós, adultos, não conseguimos identificar.
Numa sexta-feira, dezenas de estudantes do Ensino Médio estavam reunidos diante do colégio, eufóricos com as infinitas possibilidades do fim de semana – que eles chamam de "resenhas" (expressão que, no meu tempo, significava uma análise crítica de um livro).
É um colégio de classe média, classe média alta. Ali havia jovens de esquerda, de direita e, certamente, alguns que ainda não tinham decidido se preferiam o capitalismo ou o socialismo, mas já possuíam convicções inabaláveis sobre qual tênis comprar. Gosto de conversar com os amigos dos meus filhos e descobrir o que pensam. Alguns defendem a justiça social com entusiasmo. Outros, a liberdade econômica com igual fervor (o que faria Churchill dizer que não têm coração).
Foi então que, no meio deles na calçada, passou um rapaz. Devia ter quinze ou dezesseis anos. A mesma idade daqueles estudantes. Empurrava um carrinho de mão carregado de vergamota, que oferecia à venda a quem ousasse lhe olhar diretamente nos olhos. Caminhava pela calçada, entre mochilas caras, tênis de marca, celulares e conversas sobre o fim de semana.
Enquanto os outros adolescentes discutiam o que fariam nas próximas quarenta e oito horas, ele estava trabalhando.
E ninguém o enxergou.
O rapaz atravessou aquela pequena multidão como se fosse invisível. Não despertou curiosidade, comentário, surpresa ou sequer um olhar mais demorado. Era parte da paisagem, como o poste, a lixeira ou a placa de trânsito. A diferença é que o poste não tinha quinze anos e não precisava trabalhar para levar dinheiro pra casa.
Aquilo me doeu. Profundamente. E digo isso sem qualquer pretensão de superioridade moral. Não sou melhor do que aqueles jovens. Tampouco acredito que, na minha adolescência, tivesse sido diferente. Talvez eu tivesse olhado para o menino para, provavelmente, fingir que não o havia visto em seguida (minha geração também dominava essa técnica).
Não sabia nada sobre aquele garoto. Não sabia se estudava, se ajudava a família, se gostava do trabalho ou se preferia estar em outro lugar.
O que eu sei é que havia, naquela calçada, dois mundos separados. Num deles, a grande preocupação era viver a adolescência; no outro, era preciso empurrar um carrinho de vergamota numa sexta-feira ao meio-dia.
Volto, então, àquela expressão do brasileiro que mora na Noruega, do “capitalismo onde as pessoas se importam”.
Talvez nosso maior problema seja anterior à escolha do modelo econômico. Importamos teorias, adaptamos ideologias, reproduzimos discursos e criamos uma infinidade de explicações para o país que somos e para aquele que gostaríamos de ser. Temos liberais que defendem a liberdade, socialistas que defendem a igualdade, conservadores que defendem os valores e progressistas que defendem as mudanças. Todos defendem alguma coisa (sobretudo nas redes, onde defender uma causa exige o esforço físico de movimentar o polegar).
Enquanto isso, a desigualdade deixou de nos espantar. A miséria virou cenário. A violência, estatística. O sofrimento alheio, conteúdo.
Desconfio que a recuperação da nossa sociedade passe por um processo recivilizatório. Talvez seja necessário recuperar valores que abandonamos pelo caminho (ou, considerando nossa histórica inclinação para o “cada um por si e Deus por todos”, inventá-los): a cortesia, a empatia, o senso de comunidade e, sobretudo, a disposição de agir.
Vivemos uma época em que todos são convocados a se posicionar. É preciso ter opinião sobre tudo. O silêncio virou cumplicidade; a dúvida, covardia; a ponderação, suspeita de desvio ideológico.
Bullshit!
O mundo não precisa de mais posicionamentos. Precisa de atitudes.
Não estou propondo que deixemos de discutir política, economia ou modelos de sociedade. Essas discussões são necessárias. Mas nenhuma ideologia, por mais sofisticada, substitui a decência cotidiana. E um país não se torna civilizado apenas porque escolheu o sistema econômico correto, assim como ninguém se torna honesto por colocar uma frase de efeito na biografia do Instagram.
Não sei se a Noruega encontrou a fórmula ideal. Tenho certeza, porém, que também lá existem seus problemas e contradições. Nenhum país é perfeito. Mas me apraz a ideia de que uma sociedade possa conciliar prosperidade econômica e responsabilidade coletiva. E, sobretudo, de que isso não deveria ser uma exclusividade norueguesa, socialista, capitalista, liberal ou conservadora.
Penso novamente naquele menino com o carrinho de vergamotas. Dias depois, reencontrei-o em outra calçada ali perto, quando estava com meu filho mais velho. Era pouco mais de sete da noite. Abordei-o, perguntei como estava e fiz questão de comprar as caixas de morango que faltavam para fechar o dia (ele estava vendendo morango na ocasião).
Foi um gesto simples. Eu não precisava de morango. Eu só precisava olhar pra ele e fazê-lo ver que eu o enxergava. Eu não disse — e nem diria, para não constrangê-lo —, mas pensei que, assim como meus filhos, aquele menino também deveria ter o direito de viver a adolescência sem que o trabalho lhe roubasse as horas que deveriam ser suas.
Vou encerrar esta crônica sem nenhuma frase de efeito.
Acho que já temos frases suficientes.
O que está faltando é outra coisa.
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