Seu candidato tem projetos ou virou político de estimação? Eleitor precisa olhar além das bandeiras em 2026
Saúde, educação, segurança, emprego, renda e infraestrutura deveriam ocupar o centro do debate eleitoral. Com a campanha de 2026 prestes a começar oficialmente, a pergunta que cada eleitor precisa fazer é simples: o que, de concreto, meu candidato pretende entregar à população?
O Brasil entra novamente em período decisivo. No dia 4 de outubro de 2026, mais de 150 milhões de eleitores poderão escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Se houver segundo turno para presidente ou governador, a nova votação será realizada em 25 de outubro.
Antes de escolher nomes, partidos, cores ou ideologias, existe uma pergunta que deveria anteceder todas as outras:
O que seu candidato está apresentando de concreto para melhorar sua vida?
Não a vida do político.
Não a estrutura partidária.
Não a guerra permanente das redes sociais.
A sua vida, a vida da sua família e a realidade da cidade, do estado e do país.
Em uma eleição marcada por forte polarização, talvez esteja chegando a hora de substituir parte da discussão sobre “quem você odeia” por perguntas muito mais importantes: onde estão os projetos para saúde? O que será feito pela educação? Como melhorar a segurança pública? De onde virão os investimentos para infraestrutura? Como gerar empregos e aumentar a renda?
Campanha começa: promessa precisa virar proposta
O calendário eleitoral torna este debate ainda mais atual.
Os partidos tiveram até 5 de agosto para realizar suas convenções. O prazo para registro das candidaturas termina às 19h de 15 de agosto, e a propaganda eleitoral geral começa oficialmente no domingo, 16 de agosto.
A partir daí, discursos, vídeos, entrevistas, programas eleitorais, redes sociais e eventos de campanha ocuparão cada vez mais espaço.
Mas existe uma diferença enorme entre slogan eleitoral e projeto de governo.
Candidatos aos cargos do Poder Executivo precisam apresentar uma proposta de governo no processo de registro da candidatura. O próprio manual do CANDex 2026, sistema utilizado pela Justiça Eleitoral, relaciona a proposta de governo entre os documentos dos candidatos aos cargos executivos.
Esses documentos podem ser consultados pelo cidadão por meio do DivulgaCandContas, sistema oficial da Justiça Eleitoral que reúne informações sobre candidaturas e contas eleitorais.
Portanto, em vez de conhecer apenas aquilo que chega pelo WhatsApp, Facebook, Instagram, TikTok ou pelo discurso de um cabo eleitoral, o cidadão possui ferramentas para procurar informações oficiais.
Saúde: qual é a proposta?
Quando um candidato fala em saúde, o eleitor pode ir além do tradicional “vamos melhorar o atendimento”.
Como?
Vai ampliar hospitais?
Reduzir filas?
Contratar profissionais?
Fortalecer a atenção básica?
Investir em saúde mental?
Ampliar atendimento especializado?
Criar novos serviços?
Comprar equipamentos?
E principalmente: quanto isso custará e de onde virá o dinheiro?
Também é importante observar qual cargo está sendo disputado. Presidente e governador possuem responsabilidades diferentes, enquanto deputados têm papel essencial na elaboração das leis, fiscalização do Executivo e discussão e aprovação dos orçamentos. Segundo o TSE, o presidente conduz diretrizes federais que incluem saúde e educação; governadores respondem por políticas estaduais nessas áreas; deputados legislam e fiscalizam os respectivos governos.
Prometer algo que nem sequer pertence às atribuições daquele cargo pode ser uma boa peça de propaganda, mas não necessariamente uma proposta viável.
Educação precisa ir além de discurso
Na educação, a cobrança deveria seguir o mesmo caminho.
O candidato apresenta propostas para professores?
Fala sobre estrutura das escolas?
Ensino técnico?
Universidades?
Creches?
Educação inclusiva?
Tecnologia?
Formação profissional?
Combate à evasão escolar?
Qualificação para o mercado de trabalho?
A educação brasileira funciona com responsabilidades compartilhadas entre União, estados e municípios. A legislação educacional distribui atribuições entre esses entes, e o Sistema Nacional de Educação reforça a necessidade de cooperação entre os diferentes níveis de governo.
Por isso, uma proposta séria deveria explicar não somente o que pretende fazer, mas também como aquela medida será executada dentro das competências do cargo disputado.
Segurança pública: promessa fácil, execução complexa
Segurança provavelmente será um dos assuntos mais explorados durante a campanha.
É um tema que desperta medo, revolta e emoção — e justamente por isso precisa ser analisado com cuidado.
É relativamente fácil subir em um palanque e anunciar que “vai acabar com o crime”.
Difícil é explicar como.
Quantos policiais serão necessários?
Haverá concursos?
Equipamentos?
Inteligência policial?
Tecnologia?
Integração das forças de segurança?
Valorização dos profissionais?
Políticas para fronteiras?
Sistema prisional?
Investigação?
Prevenção?
Governadores têm responsabilidade direta sobre importantes estruturas estaduais de segurança pública, enquanto União e Congresso possuem outras competências legislativas, administrativas e orçamentárias. O próprio TSE destaca segurança pública entre as áreas de atuação dos governos estaduais.
O eleitor pode, portanto, perguntar se aquilo que está sendo prometido é realmente responsabilidade daquele candidato ou apenas uma frase criada para gerar aplausos.
Infraestrutura: cadê o projeto e o dinheiro?
Estradas, pontes, mobilidade, saneamento, prevenção de enchentes, energia, ferrovias, aeroportos e acesso à internet afetam diretamente o desenvolvimento econômico.
Especialmente em Santa Catarina, infraestrutura aparece continuamente entre as principais reivindicações de moradores e setores produtivos.
Mas novamente surge a diferença entre anunciar uma obra e explicar sua execução.
Onde será construída?
Qual será o custo?
Existe projeto?
Qual será a fonte do recurso?
É atribuição federal ou estadual?
Existe previsão orçamentária?
Qual é o prazo?
Promessa sem prazo, orçamento, responsabilidade definida ou fonte de financiamento merece ser examinada com cuidado.
E a classe trabalhadora?
Outra pergunta importante deveria ser feita principalmente por quem acorda cedo, trabalha, paga impostos e no final do mês precisa fazer contas para equilibrar o orçamento.
O candidato apresenta alguma política que possa melhorar concretamente a vida do trabalhador?
Emprego e renda?
Qualificação profissional?
Transporte?
Habitação?
Saúde?
Segurança?
Creches para quem precisa trabalhar?
Redução da burocracia para pequenos negócios?
Desenvolvimento econômico?
Política industrial?
Apoio ao pequeno produtor?
Esses temas podem gerar opiniões diferentes sobre quais soluções seriam melhores. É justamente para escolher entre essas alternativas que existe a eleição.
O importante é saber qual é a proposta e quais serão suas consequências.
E a classe média?
A classe média também precisa observar aquilo que aparece — e aquilo que não aparece — nos programas.
Tributação, custo de vida, crédito, juros, segurança, educação, planos de saúde, serviços públicos, habitação e emprego qualificado afetam diretamente milhões de famílias.
Um candidato pode prometer reduzir impostos e, simultaneamente, aumentar despesas.
Outro pode defender mais serviços públicos, mas precisar explicar como financiá-los.
Não existe obrigação de o eleitor concordar com uma determinada visão econômica.
Existe, porém, uma pergunta legítima:
A conta fecha?
E quem mais precisa do Estado?
Para a população de menor renda, uma decisão política pode representar a diferença entre ter ou não acesso a alimentação, moradia, transporte, atendimento médico, escola e oportunidade de emprego.
A Constituição brasileira estabelece entre os objetivos fundamentais da República reduzir as desigualdades sociais e regionais, além de garantir o desenvolvimento nacional. Também coloca cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho, livre iniciativa e pluralismo político entre os fundamentos do Estado brasileiro.
Isso não determina qual partido possui a melhor solução.
Determina, porém, que políticas públicas precisam ser discutidas olhando para pessoas reais e problemas reais.
Seu candidato virou “político de estimação”?
Talvez esta seja uma das perguntas mais incômodas da eleição.
Quando foi que deixamos de fiscalizar políticos e começamos a defendê-los como se fossem integrantes da nossa família?
Político não deveria precisar de torcida organizada.
Precisa de fiscalização.
O eleitor pode gostar de um candidato. Pode admirar sua trajetória, concordar com sua ideologia e defender suas propostas.
O problema começa quando o apoio se transforma em autorização para tudo.
Se o adversário erra, o eleitor exige punição.
Quando seu candidato erra, procura justificativa.
Se uma denúncia atinge o outro lado, acredita imediatamente.
Quando envolve seu próprio grupo, tudo passa a ser perseguição.
Se o adversário gasta dinheiro público, é desperdício.
Se o favorito faz exatamente a mesma coisa, encontra-se uma explicação.
Nesse momento, deixa-se de avaliar um representante público e passa-se a proteger uma identidade política.
Política não deveria funcionar como futebol
No futebol, o torcedor permanece com seu clube na vitória ou na derrota.
Na política, essa lógica pode ser perigosa.
O governante trabalha para o cidadão.
É remunerado com recursos públicos.
Administra impostos pagos pela sociedade.
Toma decisões que interferem diretamente na saúde, educação, segurança, economia e infraestrutura.
Por isso, nenhuma autoridade deveria receber um cheque em branco do eleitor.
Presidente não é ídolo. Governador não é ídolo. Senador não é ídolo. Deputado não é ídolo.
São representantes temporariamente escolhidos pela população.
A própria Constituição estabelece que todo poder emana do povo, sendo exercido por representantes eleitos ou diretamente nos termos constitucionais.
Deputado também precisa ser cobrado
Nas eleições gerais, a atenção costuma ficar concentrada nas disputas para presidente e governador.
Mas em 2026 o eleitor também escolherá deputados federais e estaduais e dois senadores por estado. O Senado terá 54 de suas 81 cadeiras renovadas.
Deputados federais discutem leis nacionais, fiscalizam o governo federal e votam o orçamento. Deputados estaduais realizam funções semelhantes no âmbito estadual. Senadores também possuem atribuições legislativas e constitucionais específicas.
Por isso, para candidatos ao Legislativo, algumas perguntas são fundamentais:
O que já fez?
Quais projetos apresentou?
Como votou?
Comparece às sessões?
Fiscaliza ou apenas aparece nas redes sociais?
Que pautas pretende defender?
Não vote apenas contra alguém
Talvez um dos maiores riscos da polarização seja transformar eleições exclusivamente em rejeição.
“Vou votar porque odeio o outro.”
“Meu candidato precisa ganhar para derrotar aquele grupo.”
“Qualquer um serve, desde que o outro não vença.”
É perfeitamente legítimo rejeitar um candidato.
Mas uma eleição dura quatro anos — e um mandato de senador dura oito.
Depois que termina a campanha, desaparecem memes, jingles e carreatas.
Ficam as consequências das decisões tomadas nas urnas.
Antes de votar, faça perguntas
Quando seu candidato aparecer prometendo transformar o Brasil ou Santa Catarina, talvez valha fazer um pequeno exercício.
Pergunte:
Qual é seu projeto para saúde?
Qual sua proposta para educação?
Como pretende melhorar a segurança?
O que apresenta para geração de emprego e renda?
Qual projeto existe para infraestrutura?
Quanto custará?
De onde sairá o dinheiro?
Essa promessa pertence realmente às atribuições do cargo?
Qual é o histórico desse candidato?
Quem financia sua campanha?
O que aparece em seu programa oficial?
O TSE disponibiliza o DivulgaCandContas, justamente para que o eleitor possa consultar dados oficiais sobre candidaturas e financiamento eleitoral.
Em outubro, a escolha é sua — e a consequência também
Direita, esquerda, centro, conservadores, progressistas, liberais e outras correntes continuarão apresentando visões diferentes sobre o país.
Isso faz parte da democracia.
O que não deveria fazer parte de uma democracia madura é acreditar que determinado político está acima da crítica.
Em 4 de outubro, o eleitor terá seis escolhas diante da urna: deputado federal, deputado estadual ou distrital, dois votos para senador, governador e presidente da República.
Até lá, talvez a melhor pergunta não seja:
“De que lado você está?”
Mas:
“Que projeto você está escolhendo?”
Porque partido pode ter bandeira.
Candidato pode ter número.
Eleitor pode ter ideologia.
Mas depois da eleição, hospital, escola, estrada, emprego, salário, segurança e impostos não perguntam em quem você votou.
Eles fazem parte da realidade de todos.
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