Desde que Jair Bolsonaro ascendeu à presidência em 2018, um discurso ganhou força nas redes sociais e palanques: a desconfiança nas urnas eletrônicas. “Queremos voto impresso, auditável!”, clamavam apoiadores do então presidente, alegando, sem provas consistentes, que o sistema eleitoral brasileiro poderia ter sido fraudado. Mas há uma pergunta que permanece engasgada na garganta da própria militância: por que, então, não houve nenhuma contestação ou auditoria quando Bolsonaro venceu em 2018?
O questionamento é simples e explosivo: se havia suspeitas tão graves sobre fraudes, por que a própria base bolsonarista não exigiu o voto auditável naquele momento? Por que o discurso só se intensificou após a possibilidade real de derrota em 2022?
Silêncio conveniente?
Em 2018, Bolsonaro foi eleito com mais de 57 milhões de votos. O sistema que o elegeu era o mesmo que mais tarde passou a ser atacado. Não houve auditoria independente bancada pelo então presidente eleito, tampouco mobilização para exigir a impressão dos votos. Nem mesmo o Exército, que passou a ser envolvido no processo de apuração anos depois, foi acionado para verificar supostas irregularidades na época.
Voto auditável ou estratégia de desgaste?
O debate sobre voto impresso auditável — que teve até Proposta de Emenda Constitucional (PEC) derrubada em 2021 — transformou-se em bandeira política. Porém, especialistas em segurança digital e representantes do TSE reiteraram inúmeras vezes: o sistema é auditável, seguro e passou por testes públicos. O que faltou, dizem, foi honestidade intelectual e compromisso com a democracia por parte de alguns setores.
“O discurso do voto auditável não se trata de transparência. É uma ferramenta de deslegitimação prévia da derrota eleitoral”, afirmou à época o cientista político Leonardo Avritzer. Para críticos, o bolsonarismo usou a pauta como pólvora eleitoral, e não como uma luta genuína por melhorias no processo democrático.
Narrativa sob demanda
O que fica evidente, após a poeira das eleições baixar, é que a narrativa da fraude só aparece quando o resultado desagrada. Bolsonaro foi eleito por urnas que, segundo seus aliados, não são confiáveis. Mas o silêncio de 2018 desmonta o argumento: ou o sistema funciona — inclusive para ele — ou nunca funcionou, e sua eleição também deveria ser questionada.
Curiosamente, quem mais grita por “voto auditável” hoje é quem mais se beneficiou do sistema que diz combater.
Conclusão
A contradição expõe mais do que incoerência: revela um projeto de poder que manipula desconfianças para fins próprios. A pergunta que não quer calar segue no ar: se havia fraude, por que Bolsonaro não pediu recontagem ou auditoria em 2018? O silêncio da vitória talvez fale mais alto que os gritos da derrota.
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