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TERÇA - FEIRA 26/05/2026
Notícias/Cotidiano

Em tempos de pavio curto: quando a política vira culto, intolerância e ameaça à convivência

Bolsonarismo, polarização, desinformação e radicalização transformaram o debate público brasileiro nos últimos anos.

Em tempos de pavio curto: quando a política vira culto, intolerância e ameaça à convivência
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Bolsonarismo, polarização, desinformação e radicalização transformaram o debate público brasileiro nos últimos anos. Mas chamar uma corrente política de “doença mental” não é correto: os fatos apontam para fenômenos sociais e políticos mais complexos — e igualmente preocupantes.

O Brasil parece ter desaprendido, em muitos momentos, uma das regras mais elementares da democracia: discordar não transforma o outro em inimigo.

Famílias romperam relações por causa de candidatos. Amizades terminaram. Discussões em bares, igrejas, locais de trabalho e redes sociais passaram rapidamente da divergência para o insulto. Em situações extremas, diferenças políticas terminaram em ameaças, agressões e até mortes.

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Não se trata apenas de impressão. Um levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global registrou 714 episódios de violência política entre novembro de 2022 e outubro de 2024, entre assassinatos, atentados, ameaças, agressões e ofensas. Considerando o monitoramento iniciado em 2016, foram contabilizados 1.583 episódios de violência política. O ano de 2024 foi o mais violento da série analisada.

É nesse ambiente que surge uma pergunta desconfortável: como uma preferência política pode passar a ocupar tamanho espaço na identidade de uma pessoa a ponto de qualquer crítica ao líder ser recebida como uma ofensa pessoal?

Bolsonarismo é uma “doença mental”?

Não.

Embora a expressão seja utilizada frequentemente em discussões políticas, não existe diagnóstico psiquiátrico chamado “bolsonarismo”, assim como votar em Lula, Bolsonaro ou qualquer outro político não constitui, por si só, um transtorno mental.

Segundo a definição utilizada pela Organização Mundial da Saúde, um transtorno mental envolve uma alteração clinicamente significativa da cognição, da regulação emocional ou do comportamento. Portanto, preferência partidária ou identificação ideológica não pode simplesmente ser transformada em diagnóstico médico.

Para analisar o fenômeno político, termos como radicalização, polarização afetiva, desinformação, personalismo e culto à personalidade são muito mais adequados do que “doença mental”.

Isso também evita outro problema: usar transtornos mentais como sinônimo de violência, irracionalidade ou fanatismo reforça preconceitos contra milhões de pessoas que realmente enfrentam problemas de saúde mental.

Quando o político deixa de ser representante e passa a ser tratado como símbolo absoluto

Existe, entretanto, um aspecto do bolsonarismo que pesquisadores vêm estudando: sua forte identificação pessoal com Jair Bolsonaro.

Pesquisas acadêmicas sobre comunicação política analisaram a comercialização de símbolos, produtos e mensagens associadas a Bolsonaro e apontaram estratégias de engajamento construídas em torno de uma lógica de culto à personalidade. Outros estudos discutem o papel da personalização e da identificação emocional entre políticos e seguidores nas redes sociais brasileiras.

É importante fazer uma distinção: isso não significa que todo eleitor de Bolsonaro faça parte de uma “seita”.

Milhões de brasileiros votaram nele por motivos bastante diferentes — conservadorismo, segurança pública, rejeição ao PT, liberalismo econômico, religião, insatisfação com o sistema político ou identificação pessoal.

O problema democrático surge quando o apoio deixa de ser crítico e condicionado aos atos do político e passa a funcionar como fidelidade incondicional.

Nesse estágio, qualquer notícia negativa pode ser automaticamente classificada como mentira; decisões judiciais tornam-se perseguição; jornalistas passam a ser tratados como inimigos; adversários deixam de ser cidadãos com opiniões diferentes; e o próprio político passa a receber uma espécie de imunidade moral de seus seguidores.

Ataques às urnas ultrapassaram a simples divergência política

Um dos episódios mais importantes ocorreu em julho de 2022.

Ainda presidente da República, Bolsonaro convocou embaixadores estrangeiros para uma reunião no Palácio da Alvorada na qual voltou a atacar o sistema eletrônico de votação.

Posteriormente, por 5 votos a 2, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível por oito anos, contados a partir das eleições de 2022. A maioria considerou que houve abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

O próprio julgamento demonstra por que é necessário cuidado na análise: dois ministros divergiram. Um deles entendeu que a reunião não possuía gravidade suficiente para comprometer a legitimidade da eleição. A decisão final, entretanto, foi pela inelegibilidade.

Essa diferença é essencial numa democracia: discordar de uma decisão judicial é permitido; ignorar que ela existe ou inventar fatos sobre seu conteúdo não é informação, é desinformação.

A radicalização saiu das telas e chegou às ruas

Depois da derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022, grupos de apoiadores passaram a permanecer diante de quartéis pedindo intervenção militar.

Um dos frequentadores do acampamento montado diante do Quartel-General do Exército em Brasília foi George Washington de Oliveira Sousa.

Ele acabou condenado a nove anos e quatro meses de prisão pela tentativa de atentado com explosivo nas proximidades do Aeroporto de Brasília, ocorrida em dezembro de 2022. Em depoimento à CPMI do 8 de Janeiro, confirmou que frequentava o acampamento.

O episódio mostra até onde uma narrativa política radicalizada pode chegar quando pessoas deixam de aceitar os limites institucionais da disputa eleitoral.

O 8 de Janeiro tornou-se o maior símbolo dessa ruptura

Em 8 de janeiro de 2023, milhares de pessoas que contestavam o resultado das eleições avançaram sobre a Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e Palácio do Planalto foram invadidos e depredados.

Três anos depois dos ataques, o STF informou que 1.399 pessoas haviam sido responsabilizadas criminalmente pelos atos antidemocráticos, incluindo condenações e acordos previstos em lei.

É impossível explicar um evento daquela dimensão apenas dizendo que centenas ou milhares de pessoas “enlouqueceram”.

A questão é política, social e comunicacional.

Durante meses circularam narrativas sobre fraude eleitoral, intervenção militar, prisões de autoridades e supostas operações que nunca aconteceram. Quando indivíduos permanecem inseridos apenas em grupos que repetem as mesmas informações, a capacidade de confrontar versões diferentes da realidade pode diminuir.

Bolsonaro foi condenado pelo STF no processo sobre tentativa de golpe

Os desdobramentos posteriores foram ainda mais graves.

Em setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro e integrantes do chamado núcleo principal da ação penal relacionada à tentativa de ruptura institucional.

Bolsonaro recebeu pena de 27 anos e três meses de prisão, a maior entre os réus daquele núcleo, e foi considerado pelo tribunal líder da organização criminosa descrita no processo.

O acórdão da condenação foi posteriormente publicado pelo STF, e, em novembro de 2025, a Corte determinou o início do cumprimento das penas dos condenados após a rejeição dos recursos então analisados.

Pode-se concordar ou discordar politicamente das decisões do Supremo. Mas um debate baseado em fatos precisa distinguir discordância jurídica da afirmação de que nenhum processo, julgamento ou condenação ocorreu.

Marcelo Arruda: quando uma discussão política termina em morte

Talvez um dos exemplos mais dolorosos da intolerância política recente tenha ocorrido antes mesmo das eleições de 2022.

O guarda municipal e militante petista Marcelo Arruda comemorava seus 50 anos em uma festa com temática ligada ao PT e a Lula, em Foz do Iguaçu, quando Jorge Guaranho, declarado apoiador de Bolsonaro, foi ao local.

Após provocações e uma discussão, Guaranho retornou armado e matou Arruda.

Em fevereiro de 2025, foi condenado pelo Tribunal do Júri a 20 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado. O júri reconheceu as qualificadoras apresentadas pela acusação, incluindo a divergência política relacionada ao crime.

É difícil encontrar demonstração mais extrema do que acontece quando alguém deixa de enxergar o adversário político como ser humano.

Mas seria errado afirmar que toda intolerância vem da direita

Esse ponto precisa ser dito mesmo em um artigo crítico ao bolsonarismo.

Intolerância política não possui carteira de filiação partidária.

Os levantamentos nacionais sobre violência política registram vítimas e episódios envolvendo diferentes campos políticos. O crescimento da hostilidade é um problema estrutural brasileiro, não uma característica genética de eleitores de uma determinada ideologia.

Um estudo de 2025 analisou aproximadamente 5,2 milhões de publicações de 2.307 influenciadores políticos brasileiros no Twitter/X, durante e após as eleições de 2022. Os pesquisadores identificaram picos de incivilidade em momentos de forte tensão política e observaram um ciclo em que manifestações hostis de um campo provocavam respostas hostis do outro.

Curiosamente, naquele recorte específico, influenciadores individuais identificados com a esquerda apareceram como importantes disseminadores de conteúdo classificado como incivil — muitas vezes justamente ao reproduzir, denunciar ou responder a episódios associados à violência da extrema direita. Os próprios pesquisadores descrevem esse mecanismo como um ciclo de retroalimentação da polarização.

Isso demonstra por que reduzir o problema a “eles são loucos e nós somos normais” apenas reproduz aquilo que se pretende criticar.

Redes sociais transformaram indignação em produto

Existe ainda um incentivo econômico pouco discutido.

Nas redes sociais, indignação gera clique.

Clique gera comentário.

Comentário gera compartilhamento.

Compartilhamento aumenta alcance.

E alcance pode virar dinheiro, influência e poder político.

Pesquisadores da FGV tratam a polarização como um fenômeno capaz de influenciar profundamente julgamentos e decisões individuais. A instituição mantém uma linha específica de estudos sobre como preferências ideológicas afetam percepção, informação e comportamento.

Outro estudo sobre incivilidade política aponta que conteúdos hostis podem reduzir confiança política e aumentar a polarização, embora os efeitos sejam complexos e dependam do contexto.

Nesse sistema, o político moderado que diz “precisamos analisar” frequentemente perde espaço para aquele que grita “traidor”, “comunista”, “fascista”, “golpista” ou “inimigo”.

A consequência é uma política cada vez mais emocional e menos racional.

“Meu político pode tudo”

Este talvez seja o estágio mais perigoso do personalismo.

Quando surge uma denúncia contra o adversário, ela é imediatamente aceita.

Quando a mesma denúncia atinge o próprio grupo, exigem-se centenas de provas.

Quando um opositor mente, é desonesto.

Quando o líder favorito mente, “foi tirado de contexto”.

Quando o adversário é condenado, “a Justiça funcionou”.

Quando o político preferido é condenado, “todo o sistema está comprado”.

Esse padrão não pertence exclusivamente ao bolsonarismo, mas ganhou enorme visibilidade no movimento criado em torno de Bolsonaro.

E é exatamente aí que a democracia começa a perder espaço para o fanatismo.

Político não é Deus

Jair Bolsonaro é um político.

Luiz Inácio Lula da Silva é um político.

Governadores, deputados, senadores, prefeitos e vereadores são políticos.

Todos podem acertar. Todos podem errar. Todos podem mentir. Todos podem ser investigados. Todos devem ser criticados. E todos estão submetidos à Constituição e às leis.

Nenhum deles merece devoção religiosa.

Quando uma sociedade transforma políticos em figuras infalíveis, deixa de fiscalizá-los.

E o cidadão que deveria perguntar “o que esse governante está fazendo pelo país?” passa a perguntar “como posso defender meu líder?”

Essa pequena mudança representa uma enorme diferença.

O verdadeiro perigo não é discordar — é deixar de aceitar o direito do outro existir

O Brasil não precisa eliminar direita ou esquerda.

Precisa recuperar a capacidade de convivência democrática.

Um eleitor conservador não é automaticamente fascista.

Um eleitor de esquerda não é automaticamente comunista.

Um bolsonarista não pode ser tratado automaticamente como criminoso ou doente mental.

E um crítico de Bolsonaro não pode ser tratado como inimigo do Brasil.

A responsabilização deve ser individual e baseada em atos.

Quem ameaça deve responder pela ameaça.

Quem agride deve responder pela agressão.

Quem divulga deliberadamente desinformação deve responder dentro dos limites da lei.

Quem tenta romper a ordem democrática deve responder pelos seus atos.

Mas milhões de cidadãos não podem ser diagnosticados, criminalizados ou desumanizados simplesmente pelo voto.

O extremismo começa justamente quando deixamos de enxergar pessoas e passamos a enxergar apenas rótulos.

Talvez o maior desafio do Brasil não seja descobrir qual lado grita mais alto.

É reaprender algo muito mais simples:

discordar sem odiar, criticar sem ameaçar e votar sem transformar políticos em deuses.

FONTE/CRÉDITOS: REDAÇÃO

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