Ser professor no Brasil é resistir diariamente em meio a um campo minado. Não bastasse a precariedade estrutural das escolas públicas, os salários baixos e a ausência de condições dignas de trabalho, os educadores agora enfrentam outro inimigo silencioso, porém corrosivo: a banalização de sua autoridade. Cada vez mais, a sala de aula torna-se palco de disputas que em nada contribuem para a formação dos alunos — disputas entre pais ausentes, políticos oportunistas e gestores sem qualquer preparo técnico.
A educação vem sendo terceirizada por muitos responsáveis que, por inúmeros motivos — inclusive estruturais e sociais —, abandonaram o seu papel formador e transferiram para a escola o encargo de ensinar não só português e matemática, mas também ética, empatia, limites, afeto e comportamento. Como destacou o psicólogo Rossandro Klinjey, vivemos uma era de “pais infantilizados” que estão criando “crianças tirânicas”. Chegam à escola sem limites, e o professor se vê sozinho para lidar com as consequências da ausência de uma estrutura familiar sólida.
Se, por um lado, a escola tenta preencher lacunas que não são suas, por outro é sufocada por pressões externas e ingerências políticas rasteiras. Parlamentares — muitos sem qualquer experiência ou formação na área — propõem alterações curriculares com base em agendas ideológicas ou meramente populistas. Tentam transformar a escola em palanque, atropelando o conhecimento técnico construído por educadores, pesquisadores e especialistas. O objetivo? Ganhar likes nas redes sociais, capitalizar eleitores e lacrar em vídeos curtos, enquanto a realidade das salas de aula é ignorada.
Não se trata de um embate entre esquerda ou direita, conservadorismo ou progressismo. Trata-se de responsabilidade. Trata-se de respeitar os espaços técnicos e o trabalho sério de quem se dedicou à construção do saber pedagógico. Interferências dessa natureza deslegitimam o professor, reduzem a educação a slogans e deixam a escola vulnerável a interesses de ocasião.
Enquanto discutem ideologia, a infraestrutura das escolas públicas brasileiras grita por socorro. Segundo o Censo Escolar 2023, quase 40 mil instituições não possuem acesso à água tratada. Mais de 120 mil não têm laboratório de ciências. A internet ainda é um recurso de elite: menos de 15 mil escolas possuem conectividade adequada. Como formar cidadãos críticos e preparados para o mundo digital se ainda lutamos por saneamento básico e eletricidade estável?
A desvalorização do professor também é gritante. De acordo com levantamento do Politize!, 99% dos docentes do ensino básico recebem menos de R$ 3.500 por mês por uma jornada de 40 horas semanais. Sem perspectiva, muitos abandonam a profissão, enquanto os que resistem são obrigados a conciliar múltiplos empregos e enfrentar, diariamente, o descrédito de seu papel.
A evasão escolar — sintoma direto dessa conjuntura — escancara a falência do sistema: em 2022, mais de 2 milhões de crianças e adolescentes deixaram a escola, segundo o UNICEF e o Ipec. O recorte social é cruel: entre os mais pobres, a taxa de abandono ultrapassa os 17%. Isso não é apenas um problema educacional. É uma bomba-relógio social.
A pergunta que precisamos fazer com urgência é: quem está, de fato, disposto a defender a educação pública brasileira? Porque enquanto o debate permanecer refém de interesses imediatistas e gestores amadores, a escola seguirá sangrando, e o país seguirá condenando gerações inteiras ao fracasso.
A escola precisa ser protegida. E o professor, valorizado, ouvido e respeitado. Sem isso, qualquer discurso sobre “futuro do Brasil” não passa de retórica vazia.
Alfroh Postai
Mestre em Ciências da Educação pela Universidade Privada de Guairá - PY (2022); Graduado em Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade Luterana do Brasil (2005), e Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2006) e graduação em Técnicas Comerciais, Contabilidade e Custos e Mecanografia e Processamento de Dados pela Universidade do Estado de Santa Catarina (1988). Pós graduado em Educação Escolar, com ênfase em docência para o Ensino Superior, Ciências Exatas, Tecnológicas e Naturais pelo Instituto Superior do Litoral do Paraná (INSULPAR), pós graduação em Educação na Cultura Digital pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ex Secretário Municipal de Educação do município de Timbó. Professor de Economia, Gestão de Pessoas, Gestão Pública e do terceiro setor e Tecnologias Educacionais .
FONTE/CRÉDITOS: COLUNISTA - Alfroh Postai
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