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TERÇA - FEIRA 26/05/2026
Notícias/Saúde

Dia Mundial sem Tabaco: tecnologias inovadoras disfarçam cigarros eletrônicos e representam risco à saúde

A Fundação do Câncer, através de seu diretor executivo Luiz Augusto Maltoni, adverte sobre o avanço do consumo entre jovens.

Dia Mundial sem Tabaco: tecnologias inovadoras disfarçam cigarros eletrônicos e representam risco à saúde
© Joédson Alves/Agência Brasil
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Em um cenário preocupante para a saúde pública, o consumo de cigarros eletrônicos, ou vapes, tem crescido exponencialmente entre os jovens no Brasil, impulsionado por novas tecnologias de disfarce. Este aumento acende um alerta sobre a potencial elevação de casos de câncer, conforme adverte o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, diretor executivo da Fundação do Câncer, em alusão ao Dia Mundial sem Tabaco.

A preocupação expressa pela Fundação do Câncer alinha-se diretamente com a campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial sem Tabaco, celebrado neste domingo (31 de maio). O tema da OMS, “Desmascarando o apelo, combatendo a dependência de nicotina e tabaco”, reforça a urgência da questão.

Apesar da proibição da comercialização de cigarros eletrônicos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil desde 2009, o uso desses dispositivos continua a crescer de forma acelerada. A facilidade de aquisição em redes sociais, sites e no comércio informal tem sido um fator crucial para essa expansão.

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A Receita Federal tem demonstrado a escala do problema com apreensões significativas. Somente entre janeiro e fevereiro de 2026, foram confiscadas 238.801 unidades de cigarros eletrônicos em todo o país, o que representa uma média diária superior a 4 mil dispositivos.

A ameaça dos dispositivos disfarçados

Muitos desses dispositivos são projetados para serem discretos, não emitindo cheiro perceptível ou utilizando aromatizantes que mascaram sua natureza. Alguns liberam apenas vapor, passando despercebidos e facilitando o início de um vício precoce, que pode levar à formação de uma nova geração de dependentes de nicotina.

Graças a esses disfarces, os vapes deixam de se assemelhar a cigarros eletrônicos tradicionais e, à primeira vista, não aparentam perigo. Eles assumem novas formas e funções, sendo camuflados ou embutidos em acessórios, integrando-se ao cotidiano de maneira quase invisível.

Um exemplo notável desses formatos inovadores são os "vaporizer hoodies", moletons que incorporam vaporizadores diretamente ao tecido. Nesses modelos, o bocal do dispositivo permanece oculto na ponta do cordão do capuz, permitindo que o usuário inale nicotina com total discrição.

Maltoni critica essa estratégia, afirmando que "de uma maneira totalmente articulada, e muito mal articulada do ponto de vista da ética, criam até casaco com bocal escondido para a pessoa fumar".

Tais disfarces possibilitam que jovens utilizem vapes em ambientes como o metrô ou a escola sem serem notados. "Tudo para tornar o jovem viciado", complementa o diretor, ressaltando a intencionalidade por trás dessas inovações.

Para Luiz Augusto Maltoni, a proliferação desses dispositivos camuflados ameaça décadas de progresso nas políticas de controle do tabaco no Brasil. O país, que se tornou referência mundial na redução da prevalência de fumantes, vê seus avanços comprometidos.

"O que estamos vendo agora é um risco real de retrocesso, agora embalado em tecnologia e integrado ao cotidiano dos jovens", alerta o especialista.

Campanha "Spoiler: ele não te ama"

Em comemoração ao Dia Mundial sem Tabaco, a Fundação do Câncer intensificou seu Movimento Vape Off, lançando a campanha "Spoiler: ele não te ama". A iniciativa consiste em um filme, estruturado como reportagem, onde três jovens anônimos relatam suas experiências com um "relacionamento abusivo" que resultou em adoecimento.

O objetivo principal é conscientizar a juventude sobre a natureza enganosa da propaganda da indústria de cigarros eletrônicos, evidenciando os reais malefícios que esses dispositivos causam à saúde.

"E sugere que quem nunca experimentou que não experimente para não viciar. E quem já está fumando que pare", enfatiza Maltoni, reforçando o apelo à prevenção e à cessação.

A Fundação do Câncer destaca que os cigarros eletrônicos mais recentes incorporam avanços tecnológicos e interatividade. Muitos possuem telas sensíveis ao toque, jogos, recursos musicais e sistemas de troca de mensagens, alinhando-se perfeitamente aos hábitos de uso de celulares, tablets e redes sociais dos jovens.

Há até dispositivos que "reagem" à interrupção do uso, emitindo alertas sonoros e estabelecendo um ciclo de estímulo contínuo. Maltoni analisa que esse fenômeno representa uma preocupante fusão entre a dependência química e a dependência digital.

"O vape deixa de ser apenas um dispositivo e passa a funcionar como um acessório interativo, integrado à rotina", alerta o diretor, sublinhando a estratégia de normalização do uso.

Dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 revelam um cenário alarmante: a experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024.

Essa estatística significa que o número de jovens nessa faixa etária que já experimentaram ou utilizam cigarros eletrônicos quase dobrou, um crescimento que o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni considera "alarmante".

Impactos na saúde e desenvolvimento juvenil

Milena Maciel de Carvalho, consultora da Fundação do Câncer na área de tabagismo, enfatiza que a questão dos cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos transcende a esfera do comportamento ou da escolha individual.

Ela explica que "a exposição à nicotina na adolescência pode afetar o desenvolvimento do cérebro, especialmente áreas relacionadas à atenção, aprendizagem, humor e controle de impulsos, além de aumentar a vulnerabilidade à dependência de nicotina ao longo da vida".

Além disso, Milena Maciel de Carvalho acrescenta que "esses dispositivos também podem expor os usuários a substâncias tóxicas, incluindo partículas ultrafinas, compostos orgânicos voláteis e metais pesados. Também estão associados a riscos respiratórios e cardiovasculares".

Necessidade de medidas restritivas e exemplos internacionais

O diretor executivo da Fundação do Câncer defende a implementação de medidas mais rigorosas no Brasil para coibir a produção e comercialização de vapes. Ele cita o exemplo da Inglaterra, um país historicamente liberal e berço do desenvolvimento da indústria do tabaco.

Contudo, diante da "catástrofe" provocada pela indústria do tabaco e pelos cigarros eletrônicos, especialmente os problemas pulmonares em jovens, a Inglaterra adotou uma medida drástica: proibiu a venda de qualquer produto de tabaco para indivíduos nascidos após 1º de janeiro de 2009.

Adicionalmente, o governo inglês expandiu as restrições sobre a publicidade, promoção, apresentação e o apelo dos vapes direcionados a crianças e adolescentes. "Eu acho que a gente tem que caminhar nesse sentido", conclui Maltoni, sugerindo um caminho similar para o Brasil.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

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