Após quase um ano e meio à frente da Prefeitura de Blumenau, Egídio Ferrari (PL) começa a enfrentar uma cobrança cada vez mais dura: afinal, onde termina o discurso de delegado e onde começa, de fato, a postura de prefeito?
Eleito com forte apelo popular, sustentado pela imagem de autoridade, combate ao crime e promessa de ordem, Egídio assumiu o comando da maior cidade do Vale do Itajaí com capital político suficiente para imprimir uma nova marca administrativa. No entanto, passado o período inicial de expectativa, cresce a percepção de que Blumenau ainda espera respostas concretas para problemas que vão muito além de vídeos nas redes sociais, abordagens públicas e discursos inflamados.
Nas redes, o prefeito aparece com frequência. Fala firme, cobra, critica, anuncia ações e se coloca como alguém disposto a enfrentar estruturas antigas. Mas, na prática administrativa, parte da população começa a questionar se a gestão tem conseguido entregar planejamento, eficiência e resultados compatíveis com o tamanho da cidade.
O episódio envolvendo os contratos de segurança e limpeza nas escolas, firmados ainda em gestões anteriores e agora encerrados após investigação do Gaeco, expôs uma contradição política difícil de ignorar. Ao anunciar o rompimento, Egídio adotou o tom de quem rompe com um passado problemático. Criticou contratos assinados no fim do governo anterior e prometeu novo modelo para as unidades escolares.
O problema é que esse “passado” não está tão distante assim. A gestão atual é formada, em boa parte, por nomes ligados ao mesmo grupo político que comandou Blumenau nos últimos anos. Mário Hildebrandt, João Paulo Kleinübing e o próprio Egídio pertencem ao mesmo campo partidário ou político que administrou a cidade por longo período. Por isso, quando o prefeito tenta colocar toda a responsabilidade em administrações anteriores, a pergunta inevitável surge: ele está realmente rompendo com velhas práticas ou apenas tentando se descolar politicamente delas?
A situação fica ainda mais delicada quando se observa que figuras importantes da base governista tiveram participação direta em áreas hoje alvo de críticas públicas. Se contratos agora questionados passaram por secretarias e estruturas comandadas por aliados, não basta ao prefeito dizer “aqui não”. É preciso explicar quem assinou, quem fiscalizou, quem autorizou pagamentos e por que os alertas só ganharam força agora.
Blumenau não precisa apenas de vídeos bem produzidos. Precisa de gestão. Precisa de transparência. Precisa de respostas objetivas sobre contratos, saúde, educação, zeladoria urbana, mobilidade, segurança nas escolas e uso do dinheiro público.
O estilo policial de Egídio pode agradar uma parcela do eleitorado, especialmente quando o tema é segurança pública. Nesse campo, ele fala com desenvoltura, usa linguagem direta e transmite autoridade. Mas administrar Blumenau exige mais do que postura de enfrentamento. Exige coordenação, capacidade técnica, diálogo institucional, planejamento orçamentário e coragem para assumir responsabilidades.
A dúvida que cresce nos bastidores políticos é se o prefeito conseguirá sair do modo campanha permanente e assumir, de forma plena, o papel de gestor. Porque uma coisa é discursar contra irregularidades. Outra, bem diferente, é mostrar que a máquina pública está funcionando melhor, com mais controle, mais eficiência e menos improviso.
Também chama atenção a estratégia de comunicação da Prefeitura. A gestão parece apostar fortemente na exposição pública do prefeito como personagem central das ações. Remoção de pichações, abordagem a moradores em situação de rua, falas duras sobre segurança e vídeos de impacto geram engajamento. Mas engajamento não substitui política pública.
Os 51% dos eleitores que confiaram em Egídio Ferrari nas urnas provavelmente esperavam mais do que um prefeito com boa performance diante das câmeras. Esperavam solução para problemas históricos, modernização da máquina pública e uma gestão capaz de romper, de fato, com práticas que tanto foram criticadas durante a campanha.
A pergunta que fica é direta: Egídio Ferrari será lembrado como o prefeito que enfrentou os problemas de Blumenau ou como o delegado que tentou governar a cidade por meio das redes sociais?
A resposta ainda está em aberto. Mas o relógio político já começou a cobrar.
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