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TERÇA - FEIRA 26/05/2026
Colunas/Geral

O PLACAR QUE NINGUÉM VÊ

O maior resultado do esporte amador quase nunca aparece na súmula.

O PLACAR QUE NINGUÉM VÊ
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Neste final de semana, Blumenau recebeu uma etapa do Campeonato Estadual de Vôlei Masculino Sub-16. Cinco equipes, pouco mais de sessenta meninos, vindos de Forquilhinha, Santo Amaro da Imperatriz, Florianópolis e Balneário Camboriú, além dos atletas da casa. Os jogos aconteceram no ginásio da EEB Dr Max Tavares d’Amaral— escola pública, diga-se, muito bem cuidada —, onde as equipes visitantes também ficaram alojadas, em colchões espalhados pelas salas de aula. Durante dois dias, aquele espaço deixou de ser apenas uma escola e virou uma pequena vila.

Havia jogadores, técnicos, árbitros, dirigentes, pais, mães, irmãos, avós e amigos. Gente chegando, saindo, torcendo, conversando e comendo na quitanda improvisada pelas famílias dos atletas de Blumenau para ajudar a pagar as despesas da competição. Quem veio de fora almoçou e jantou na cidade, comprou alguma coisa, abasteceu o carro, talvez tenha tomado um café antes de voltar para casa. Para realizar a rodada, a equipe anfitriã teve que contratar segurança, limpeza e serviço de enfermagem, além da arbitragem. É um pequeno evento esportivo, quase invisível para quem não participa dele, mas que aciona uma surpreendente cadeia de pessoas, serviços e relações.

Não vou entrar no argumento — verdadeiro, mas sabido à exaustão — de que o esporte afasta crianças e adolescentes das drogas, das ruas ou, em tempos mais modernos, das telas. Tampouco preciso lembrar que ensina disciplina, responsabilidade, respeito às regras, convivência com a derrota e espírito de equipe. Tudo isso importa.

Mas naquele ginásio havia outra coisa acontecendo, talvez ainda mais interessante: estava sendo produzida comunidade.

Durante um fim de semana inteiro, uma escola pública esteve aberta para a população. Repito (porque a frase merece atenção): uma escola pública esteve aberta para a comunidade na sexta de noite, no sábado e no domingo. Pessoas entraram sem pagar ingresso, sentaram-se nas arquibancadas, encontraram conhecidos, conheceram gente de outras cidades e assistiram gratuitamente a um evento esportivo de muita qualidade.

Pensemos por alguns segundos no potencial dessa ideia.

 Quantas quadras, ginásios, auditórios, pátios e salas de aula permanecem fechados justamente nos horários em que a comunidade poderia ocupá-los? Quantos campeonatos, apresentações de música, teatro, dança, feiras, exposições, oficinas, cursos, encontros de associações e atividades comunitárias poderiam acontecer nesses espaços?

Há ainda um efeito menos evidente. Enquanto os filhos jogavam, os pais trabalhavam. Vendiam bolo, organizavam alojamentos, carregavam colchões, resolviam problemas, buscavam água, recebiam delegações, faziam contas. E faziam isso juntos. Em uma época em que tanto se lamenta o enfraquecimento dos vínculos comunitários, vários adultos passaram o fim de semana trabalhando gratuitamente por algo que não era exatamente “seu”. O filho de um estava em quadra, mas o sanduíche vendido ajudava a pagar a competição de todos. O pai de um atleta acabava cuidando do filho de outro. A mãe que estava na cantina torcia também pelo menino cuja família não pôde estar presente. Parece pouco. Não é. É assim que se aprende, na prática, o significado de pertencimento.

E os próprios adolescentes observam isso. Percebem que o campeonato não nasceu pronto. Alguém abriu o ginásio. Alguém conseguiu os colchões. Alguém contratou o segurança. Alguém vendeu comida. Alguém lavou o banheiro. Alguém dirigiu centenas de quilômetros. Alguém buscou recursos. Alguém apitou o jogo. Antes mesmo de aprenderem a atacar uma bola na saída de rede, esses meninos estão aprendendo uma lição bastante adulta: as coisas coletivas só existem porque alguém se dispõe a fazê-las acontecer. Isso também é educação. Talvez das melhores.

Esse é o trabalho invisível realizado todos os finais de semana pelo vôlei, pelo handebol, pelo basquete, pelo karatê, pela ginástica, pelo judô, pelo atletismo e por dezenas de modalidades que vivem muito longe dos contratos milionários e das transmissões de televisão. O esporte amador brasileiro sobrevive, não raro, graças a uma combinação quase heroica de dirigentes teimosos, técnicos abnegados e pais que descobriram que matricular o filho numa modalidade inclui, eventualmente, vender pastel, carregar mesa, procurar patrocinador e passar o domingo dentro de um ginásio.

O Poder Público, reconheça-se, participa e ajuda dentro de suas possibilidades. Mas não pode — e provavelmente nunca poderá — fazer tudo sozinho. É aí que a comunidade e a iniciativa privada precisam compreender que apoiar o esporte não significa simplesmente colocar uma logomarca numa camiseta. As leis de incentivo ao esporte, tanto em âmbito federal quanto estadual, permitem que empresas e contribuintes destinem parte de impostos que já seriam pagos a projetos esportivos previamente analisados e aprovados. Em outras palavras: existe um caminho para transformar imposto em bola, uniforme, viagem, alimentação, professor, competição e oportunidade. Falta, muitas vezes, aproximar quem pode contribuir de quem passa o ano inteiro tentando manter esses projetos vivos.

No domingo, naturalmente, houve vencedores e perdedores. Alguém voltou para casa mais feliz com a classificação; outro ficou pensando naquele saque que poderia ter entrado. Daqui a algumas semanas haverá outra rodada e, no final do campeonato, alguém levantará uma taça. Mas esse talvez seja o resultado menos importante. Pode ser que nenhum daqueles sessenta meninos chegue a uma Olimpíada — embora, quem sabe, algum futuro campeão estivesse naquele ginásio. Pouco importa. A escola estava aberta. O ginásio estava cheio. Os pais estavam ao lado dos filhos. O comércio vendeu. Pessoas trabalharam. Cidades diferentes se encontraram. Adolescentes aprenderam a competir e a conviver. E uma comunidade ocupou um patrimônio que é seu.

Se esse for o placar, neste final de semana Blumenau, Santa Catarina e o Brasil ganharam de lavada.

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER (@escritor_fernandobecker)

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