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DOMINGO,30 DE AGOSTO DE 2026
Colunas/Geral

DUAS MARCAS DE BOLACHA

Como conseguimos transformar a abundância em cansaço

DUAS MARCAS DE BOLACHA
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Esta semana recebi a visita dos meus pais, um jovem casal de 75 e 72 anos. Orgulhoso, instalei-os diante da minha TV digital, onde ostento nada menos que seis plataformas de streaming, cada uma delas com milhares de filmes, séries e documentários, além do YouTube — do qual, faço questão de registrar, sou assinante Premium. Ou seja: enquanto eu trabalhava, meus pais tinham diante de si entretenimento suficiente para atravessar umas três ou quatro encarnações sem repetir um episódio.

No segundo dia, porém, meu pai fez um pedido que interpretei quase como uma ofensa pessoal: queria uma antena interna para a televisão. Dessas que captam canal aberto. Lá fomos nós comprá-la. Confesso que fiquei um pouco surpreso e até frustrado: era como oferecer a alguém a Biblioteca de Alexandria e ouvi-lo perguntar onde ficam as revistas velhas.

Instalada a antena, sentei-me algum tempo com eles diante da TV. E foi quando percebi uma coisa curiosa: nós simplesmente assistimos televisão. Ninguém passou meia hora entrando e saindo de aplicativos, lendo sinopses, consultando avaliações, assistindo trailers e tentando decidir onde investir os preciosos cinquenta minutos que restavam antes de dormir. Ligamos a televisão e havia alguma coisa passando. Era aquilo. E aquilo, de repente, pareceu extraordinariamente confortável.

É verdade que meu pai escolheu (sim, mesmo na minha casa, o controle da TV é e sempre será dele) justamente um canal de notícias que, em poucos minutos, conseguiu apresentar dois assassinatos, três acidentes, uma enchente, uma guerra e a previsão de alguma catástrofe econômica. A ansiedade que havíamos economizado por não precisar escolher o que assistir acabou parcialmente devolvida pelo conteúdo escolhido. Ainda assim, aquela pequena experiência me fez pensar numa hipótese: talvez nosso cérebro, moldado durante milhares de anos para lidar com a escassez, simplesmente não esteja sabendo muito bem o que fazer com a abundância.

O Homo sapiens chegou até aqui tendo poucas opções para quase tudo. Pouca comida — quando havia comida —, poucos objetos, poucos caminhos, poucos estímulos. Durante praticamente toda a nossa história, encontrar alguma coisa já era uma vitória; já escolher entre cinquenta versões dela é um problema recentíssimo. Então, de uma hora para outra, colocamos diante do mesmo cérebro ancestral vinte marcas de molho de tomate, dez mil músicas, milhões de vídeos, centenas de restaurantes e dezenas plataformas de streaming. E ainda estranhamos estar cansados antes mesmo de começar.

Há um prazer esquecido em não precisar escolher. Coisa boa é entrar numa mercearia de praia e descobrir que existem duas marcas de bolacha: uma boa e uma que você vai levar porque a boa acabou. Coisa boa é deixar o rádio tocar sem precisar montar uma playlist perfeita para acompanhar os próximos vinte minutos da vida, enquanto se leva os filhos na escola. Coisa boa era ir a uma balada e descobrir, entre as pessoas que efetivamente estavam ali, de quem viriam os foras que estávamos dispostos a tomar. Não havia a sensação de que, talvez, deslizando o dedo mais uma vez, apareceria alguém melhor.

Hoje até temos nomes às angústias produzidas por essa abundância. Por exemplo, a FOMO (Fear of Missing Out), o medo de estar perdendo alguma coisa melhor enquanto fazemos aquilo que escolhemos fazer, e a FOBO (Fear of Better Options), o medo de tomar uma decisão porque talvez exista uma opção superior logo adiante. Juntas, elas produzem uma situação curiosa: nunca tivemos tantas possibilidades de escolha e talvez nunca tenhamos gastado tanta energia temendo escolher errado. O sujeito passa vinte minutos procurando um filme, escolhe um, assiste quinze minutos e continua pensando naquele outro que quase escolheu.

Meus pais, evidentemente, não estão imunes a tudo isso. Também investem, tempo scrollando pelo Facebook e também precisam escolher, diariamente, entre as diferentes versões da realidade que lhes aparecem na tela do celular - talvez uma escolha bem mais complicada do que decidir entre Netflix e canal aberto. Mas a anteninha do meu pai ficou ali como uma pequena lição. Talvez liberdade não seja ter infinitas possibilidades à disposição. Talvez liberdade seja poder viver tranquilamente com algumas delas. Às vezes, menos é mais. E, em certos dias, tudo o que a gente precisa é ligar a televisão e aceitar o que estiver passando.

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

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