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A ARQUEOLOGIA DAS CERTEZAS

O passado parece uniforme porque esquecemos suas contradições.

A ARQUEOLOGIA DAS CERTEZAS
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Já fui acusado de discutir o sexo dos anjos quando deveria estar me preocupando sobre problemas práticos. Particularmente – e como perco o amigo, mas não perco a metáfora – , reputo, no mínimo, interessante saber se essas entidades celestiais também padecem de problemas de próstata ou enfrentam os inconvenientes da menopausa.

Deixando a metáfora de fora (optei pelo "fora", em vez de "lado", intencionalmente), o mais recente sexo dos anjos que me cativou são as civilizações que habitaram a região amazônica antes da chegada dos europeus. Acho que comprar três livros referentes ao tema e assistir a uma infinidade de documentários sobre o assunto não chega a caracterizar hiperfoco. Até porque continuo atento a questões contemporâneas, como a exploração de petróleo justamente na foz do Amazonas.

 

Aliás, recomendo uma pausa na leitura deste texto e uma pesquisa do porquê o rio Amazonas recebeu esse nome. É surpreendente.

 

Bem-vindo de volta.

Estudar o passado sem a (justa) preocupação de encontrar nele explicações para o presente tem suas vantagens. Uma delas é permitir que certas reflexões, aparentemente secundárias, ganhem vida própria. São pensamentos que orbitam o assunto principal até que, sem pedir licença, assumem o centro da conversa.

Uma dessas reflexões satélites que vem povoando minha cabeça – metáfora, para que te quero! – diz respeito ao que resolvi chamar de estratificação do passado.

Explico (ainda recorrendo às metáforas).

Imagine que, ao longo de muitos anos, alguém vá depositando areia, pedras e entulho sobre outras camadas de areia, pedras e entulho. Tudo sem método, planejamento ou preocupação estética. Com o passar do tempo, o peso das camadas superiores comprime as inferiores, acomodando os materiais e produzindo estratos que, vistos muito depois, podem transmitir uma impressão enganosa de ordem e uniformidade.

Um arqueólogo que escave aquele terreno encontrará camadas aparentemente coesas. Caberá a ele reconstruir, a partir dos vestígios, a complexidade dos acontecimentos que as produziram. O perigo estará justamente em confundir a aparência organizada do resultado com a desordem do processo.

Com a História acontece algo semelhante.

O tempo exerce uma pressão silenciosa sobre os acontecimentos. Vai comprimindo as contradições, apagando as divergências, arredondando as arestas e transformando milhões de experiências individuais em meia dúzia de afirmações categóricas. O que foi caótico passa a parecer inevitável. O que foi controverso ganha aparência de consenso. O que foi vivido por pessoas diferentes, com interesses diferentes, acaba resumido a uma única vontade coletiva.

Nada como bons exemplos:

Para nós, por exemplo, os vikings eram guerreiros ferozes que atravessavam mares para invadir, pilhar e saquear outros povos. Esquecemos que também eram agricultores, comerciantes, navegadores e pais de família. Nem todo nórdico acordava pela manhã disposto a incendiar um mosteiro.

Na Rússia de 1917, dizemos que o povo derrubou o czar e fez a Revolução. Como se milhões de russos, espalhados por um território gigantesco, tivessem despertado numa terça-feira chuvosa com a mesma convicção política e a mesma disposição revolucionária. Ora, havia milhões de monarquistas, socialistas de diferentes tendências, liberais, camponeses interessados sobretudo em terra e milhões de pessoas preocupadas em conseguir pão.

Em setembro de 1822, o Brasil proclamou sua independência de Portugal. Hoje, a frase soa como a manifestação de uma vontade nacional. Mas, à época, havia brasileiros favoráveis à ruptura, outros leais à Coroa portuguesa e uma imensa população que sequer participava das decisões políticas. A independência, que nossos livros escolares acomodaram num grito às margens do Ipiranga, foi um processo muito mais contraditório, desigual e conflituoso.

A História, vista de longe, tem essa mania de transformar multidões em personagens individuais. A Rússia quis. O Brasil decidiu. Os vikings invadiram. Como se países e povos fossem criaturas dotadas de uma única cabeça, um único coração e, sobretudo, uma única opinião.

E onde pretendo chegar com tudo isso?

 

Peço vênia para tocar em carnes ainda vivas.

 

As eleições de outubro expuseram um Brasil rachado, fracionado, dividido por convicções políticas que, em muitos casos, ultrapassaram os limites da civilidade. A retórica chegou a flertar com a ideia de uma guerra civil, cujo estopim, felizmente, não se acendeu.

E logo apareceram os especialistas em transformar milhões de pessoas numa única caricatura.

"O Sul é assim."

"O Nordeste é assado."

"Os brasileiros querem isso."

"O povo não aceita aquilo."

Há quem esteja bradando separar o Sul do resto do Brasil! [o que para mim não seria de todo ruim: o Figueirense voltaria automaticamente para a Série A do novo país 😉]

Mas basta olhar os números com um mínimo de atenção para perceber a estupidez dessas sentenças. Houve milhões de nordestinos que votaram em Flávio Bolsonaro e milhões de sulistas que votaram em Lula. Nenhuma região pensa em bloco. Nenhum estado possui uma consciência política uniforme. Nenhuma eleição concede ao vencedor o direito de falar em nome da totalidade dos cidadãos.

Mas a generalização é conveniente. Economiza raciocínio, dispensa nuances e, de quebra, oferece um inimigo facilmente identificável. É muito mais simples odiar "os nordestinos", "os sulistas", "a esquerda" ou "a direita" do que admitir que, por trás de cada rótulo, existem pessoas com histórias, medos, esperanças e contradições que não cabem num slogan.

O mesmo raciocínio vale para as relações internacionais.

Dizer que "o Brasil está alinhado com os Estados Unidos", ou que "o Brasil se entregou à China", pode servir a um discurso político, mas não descreve a complexidade de uma sociedade. Governos estabelecem alianças, firmam acordos e definem políticas externas. Países, porém, são habitados por pessoas que não necessariamente compartilham as preferências de seus governantes. E, mesmo entre os eleitores de um presidente, há divergências profundas sobre praticamente tudo.

A maioria, aliás, está ocupada demais tentando sobreviver para dedicar seus dias às grandes disputas ideológicas que mobilizam os mais barulhentos.

Era assim também entre os alemães das décadas de 1930 e 1940, entre os russos de 1917 e entre os brasileiros de 1822, 1888, 1889, 1930 ou 1964. Cada um desses períodos teve suas particularidades, seus responsáveis, suas vítimas e suas escolhas morais. Teve muita discussão, briga, debates, embates, discórdias. Mas, em todos eles, também havia milhões de indivíduos cuja preocupação imediata era trabalhar, alimentar os filhos, pagar as contas e chegar vivos ao dia seguinte.

Naturalmente, isso não significa que todos fossem indiferentes, inocentes ou igualmente responsáveis pelos acontecimentos. Significa apenas que nenhuma sociedade pode ser honestamente reduzida à narrativa de seus protagonistas mais ruidosos.

O problema é que estamos fazendo com o presente aquilo que o tempo costuma fazer com o passado. Estamos comprimindo artificialmente as diferenças, eliminando as nuances e produzindo, em tempo real, uma estratificação de certezas.

Pior: fazemos isso deliberadamente.

Não esperamos que os séculos apaguem as contradições. Nós mesmos nos encarregamos do serviço. Escolhemos uma camada, damos a ela o nome de um povo inteiro e passamos a tratá-la como se fosse uma verdade geológica.

Talvez, daqui a duzentos anos, algum historiador escreva que "os brasileiros do início do século XXI eram profundamente divididos entre dois projetos inconciliáveis de nação". E não estará inteiramente errado. Mas sua frase deixará de fora os milhões que não cabiam em nenhum dos dois projetos, os que mudaram de opinião, os que votaram contrariados, os que se abstiveram e os que simplesmente estavam preocupados com o preço do arroz.

Não sei se consegui chegar exatamente aonde pretendia. Talvez porque, como já me acusaram, tenha certa inclinação para discutir o sexo dos anjos quando o mundo exige respostas práticas.

Mas, romântico que sou, ainda acredito que reconhecer a complexidade humana seja uma dessas providências práticas que poderiam nos poupar de muitas tragédias.

Afinal, a História não é feita de povos que pensam. É feita de pessoas que pensam – e que, felizmente, nem sempre pensam da mesma maneira.

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FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

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