A disputa política no Brasil chegou a um ponto em que até o futebol, uma das maiores paixões nacionais, passou a ser transformado em palco de provocação ideológica. O que antes era apenas comemoração, emoção e união em torno da Seleção Brasileira, agora também aparece contaminado por bordões partidários, gritos de ataque e tentativas de transformar cada gol em munição eleitoral.
Nos últimos dias, publicações nas redes sociais envolvendo deputados, pré-candidatos e apoiadores de diferentes campos políticos chamaram atenção pelo tom exagerado das comemorações. Entre os casos que ganharam repercussão está o do deputado federal Sargento Fahur, nome político de Gilson Cardoso Fahur, parlamentar pelo Paraná e figura conhecida pela forte presença nas redes e por discursos de linha dura na segurança pública. A própria página da Câmara dos Deputados registra Fahur como deputado federal com mandato de 2023 a 2027 pelo Paraná.
Em um vídeo que circulou nas redes, Fahur aparece comemorando gol da Seleção Brasileira com o grito “gol, chupa PT”, frase que rapidamente provocou comentários, críticas e reações. A cena foi registrada em publicação de rede social que descreve o parlamentar usando a comemoração de um gol do Brasil para criticar o Partido dos Trabalhadores.
O episódio, embora possa ser tratado por seus apoiadores como brincadeira ou deboche político, revela um retrato preocupante da política brasileira atual: a incapacidade de separar a disputa eleitoral de momentos coletivos da sociedade. A Seleção Brasileira, historicamente, sempre foi símbolo nacional, capaz de reunir torcedores de diferentes partidos, religiões, classes sociais e regiões. Quando um gol vira pretexto para atacar adversários políticos, o esporte deixa de ser celebração e passa a ser usado como ferramenta de provocação.
A crítica não está no direito de um parlamentar se manifestar politicamente. Esse direito existe e deve ser respeitado. O problema está no empobrecimento do debate público, quando representantes eleitos reduzem sua comunicação a bordões, gritos e encenações feitas para viralizar. A política deixa de apresentar soluções para saúde, segurança, educação, economia e infraestrutura, e passa a disputar quem gera mais barulho nas redes sociais.
Fahur não é um caso isolado. A política brasileira, de modo geral, foi tomada por personagens que perceberam que o exagero rende curtidas, compartilhamentos e engajamento. A consequência é uma arena pública cada vez mais infantilizada, onde o confronto simbólico vale mais do que a entrega concreta de resultados. Enquanto isso, problemas reais continuam exigindo respostas sérias.
O mais irônico é que muitos desses agentes públicos ocupam cargos de grande responsabilidade, têm estrutura de gabinete, acesso a recursos públicos, emendas parlamentares e influência direta sobre decisões nacionais. No caso de Fahur, a página da Câmara mostra sua atuação parlamentar, incluindo emendas destinadas ao Paraná em áreas como atenção primária à saúde, assistência hospitalar e transferências especiais.
Diante disso, cabe ao eleitor refletir: o Brasil precisa de representantes que transformem até jogo de futebol em guerra partidária, ou de lideranças capazes de atuar com maturidade, respeito institucional e foco nos problemas da população?
A democracia permite crítica, ironia e posicionamento político. Mas quando tudo vira deboche, grito e provocação, a política perde grandeza. E quando até o gol da Seleção vira palanque, fica evidente que parte da classe política brasileira não está mais interessada em unir o país, mas em manter a sociedade permanentemente dividida.
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