Uma das principais virtudes da democracia é permitir que diferentes projetos disputem o voto popular. Durante a campanha, é natural que candidatos defendam suas ideias, seus partidos e seus aliados com entusiasmo. Mas há um momento em que a eleição termina. A partir da posse, especialmente nos cargos majoritários, o prefeito, o governador ou o presidente deixa de ser o candidato de um grupo para se tornar o governante de toda a coletividade. Já que estamos em tempos de Copa do Mundo, não pode mais jogar para sua torcida, mas para todo o estádio. É para isso que ele foi eleito; é para isso que ele é pago. Uma vez empossado no cargo, a principal preocupação do político deve ser a qualidade da sua gestão, e não o enaltecimento da legenda ou de seus correligionários.
Essa mudança de postura não é apenas administrativa; ela é também institucional. Espera-se do homem público decoro, compostura e senso de representação. Suas palavras passam a carregar o peso da instituição que ocupa. Por isso, não se espera de um chefe do Executivo que contribua para acirrar ânimos, seja chamando de feia a esposa do presidente de outro país, seja afirmando que um povo que o elegeu sofre de "síndrome de grandeza" (sim, estes dois exemplos mereciam várias exclamações). A autoridade pública representa todos os cidadãos, inclusive aqueles que pensam de forma diferente.
Esse dever de moderação também alcança a comunicação institucional e as redes sociais. Quando um prefeito publica uma montagem produzida por inteligência artificial em que aparece ao lado do governador de Santa Catarina, do ex-presidente Jair Bolsonaro e do jogador da Seleção Brasileira Gabriel Martinelli, destacando simbolismos partidários após uma partida da Seleção, a mensagem transmitida deixa de ser a de um gestor municipal e se aproxima da de um agente político ainda em campanha. Ainda que a publicação seja feita em perfil pessoal, a figura do prefeito jamais se dissocia integralmente do cargo que ocupa.
Não se trata de negar convicções ideológicas ou impedir que agentes públicos tenham preferências políticas. Elas existem e são legítimas. O que se espera é que, uma vez investidos no mandato, saibam distinguir o espaço da militância do espaço da administração pública. O cidadão que votou no adversário também paga impostos, também financia a máquina pública e também tem o direito de sentir que seu prefeito governa em seu favor.
Talvez um dos maiores desafios da política contemporânea seja justamente reconstruir essa cultura republicana. Em tempos de redes sociais e polarização permanente, muitos governantes parecem acreditar que precisam alimentar diariamente sua base eleitoral. Mas a democracia amadurece quando seus dirigentes preferem unir em vez de dividir, pacificar em vez de inflamar. Afinal, um país, um estado ou uma cidade não podem viver em um eterno dérbi. Governar é, antes de tudo, representar a todos.
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