Adicione nosso site às suas fontes preferidas para acompanhar nossas notícias. 📰
Um objeto preservado no Museu Histórico de Itajaí guarda a memória de um momento importante da história do movimento negro brasileiro. O Troféu Comemorativo aos 300 Anos de Zumbi dos Palmares integra o acervo da instituição, mantida pela Fundação Genésio Miranda Lins, e foi oferecido à Prefeitura de Itajaí em 1995 pela organização do Movimento Negro Sebastião Lucas, durante as homenagens aos três séculos da morte de Zumbi, em 20 de novembro de 1695.
A peça chegou ao Museu Histórico por volta de 1997, após ser doada pela Prefeitura. Desde então, passou a integrar o patrimônio cultural do município e representa não apenas a homenagem a uma das principais lideranças da resistência à escravidão no Brasil, mas também a participação da comunidade negra de Itajaí nas mobilizações nacionais pela valorização de sua história e identidade.
A escolha do dia 20 de novembro como referência para a consciência negra surgiu em 1971, em Porto Alegre, a partir de uma iniciativa do Grupo Palmares, que tinha entre seus integrantes o poeta Oliveira Silveira. A proposta era valorizar a trajetória de resistência da população negra e a luta pela liberdade, em contraponto à narrativa centrada na abolição formal da escravidão, em 13 de maio de 1888. A data ganhou força com o Movimento Negro Unificado e passou a ser reconhecida oficialmente em diferentes momentos: foi incluída no calendário escolar pela Lei nº 10.639, de 2003; instituída como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra em 2011; e transformada em feriado nacional em 2023.
Zumbi foi o último grande líder do Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, em Alagoas. Considerado o maior e mais duradouro quilombo do período colonial, Palmares representou uma experiência de organização, autonomia e resistência à sociedade escravista. Sua história tornou-se símbolo da luta contra a opressão racial e da afirmação da liberdade e da dignidade da população negra.
O troféu recebido por Itajaí está diretamente ligado à mobilização nacional de 1995, quando os 300 anos da morte de Zumbi motivaram manifestações em diferentes estados. O ponto alto ocorreu em Brasília, com a Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e pela Vida, que reuniu mais de 30 mil pessoas para denunciar a discriminação racial e reivindicar políticas públicas para a população negra. O movimento também ampliou a articulação entre organizações urbanas, rurais e quilombolas.
Em Itajaí, a trajetória de organização da comunidade negra antecede essa mobilização. Clubes como Treze de Maio, Cruz e Souza e Humaitá fizeram parte dessa história desde o início do século XX. Em 1952, foi fundada, na Vila Operária, a Sociedade Cultural e Beneficente Sebastião Lucas, criada por trabalhadores e integrantes da comunidade negra que enfrentavam restrições de acesso aos espaços de sociabilidade frequentados pela elite branca.
A entidade homenageia Sebastião Lucas Pereira, trabalhador portuário e um dos fundadores da Sociedade Beneficente XV de Novembro. Ao longo das décadas seguintes, o clube tornou-se referência para a população afrodescendente de Itajaí e região, como espaço de convivência, resistência cultural e afirmação identitária.
A sede da Sociedade Cultural e Beneficente Sebastião Lucas recebeu tombamento municipal em 2007 e passou a ser reconhecida como Patrimônio Cultural de Itajaí. A preservação do prédio, no entanto, ainda mobiliza a comunidade negra e entidades locais. A proposta de recuperação do espaço e de sua transformação em um centro cultural afro reforça a importância de manter viva essa história.
Nesse contexto, a presença do troféu no Museu Histórico de Itajaí amplia as possibilidades de preservar e compartilhar a memória da população negra no município. Mais do que um objeto comemorativo, a peça documenta a atuação de organizações locais em um movimento nacional de valorização da história afro-brasileira e de enfrentamento ao racismo.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se