O ser humano definitivamente tem alguma predileção por tragédias, encândalos e teorias da conspiração. Ainda vou mandar um e-mail para o Yuval Harari perguntando se isso vem de fábrica ou se adquirimos depois. Talvez esteja aí uma das explicações para o sucesso secular dos tabloides, da imprensa marrom e, mais recentemente, de qualquer sujeito com um celular, uma conta numa rede social e uma catástrofe para anunciar.
Aliás, tenho observado um fenômeno curioso: tradicionais veículos de comunicação, que antigamente olhavam os tabloides com certo constrangimento aristocrático, começaram a disputar com eles a mesma poça de lama. Repostam, agora com a respeitabilidade de sua logomarca no canto, vídeos de brigas, acidentes, perseguições e toda sorte de desgraça humana. Descobriram aquilo que o algoritmo já sabia: uma tragédia prende nossa atenção muito mais do que um cachorro fingindo desmaiar (e olha que cachorro fingindo desmaiar é difícil de superar!).
Mas as redes sociais parecem ter aperfeiçoado uma modalidade ainda mais sofisticada: a tragédia que ainda não aconteceu. O alarmismo. Toc-toc-toc. Bato na madeira três vezes. Tem gente vivendo de likes obtidos com prenúncios apocalípticos do Super El Niño, da tempestade do século, do colapso econômico, da próxima pandemia e, naturalmente, da Guerra Mundial versão 3.0. Dias desses até brinquei, numa charge, que, se algum desses apocalipses flopar como floparam o bug do milênio e o fim do mundo pelo calendário maia, vai ter gente decepcionada. E o pior é que eu nem duvido. O profeta digital tem um problema que o profeta bíblico não tinha: precisa entregar engajamento toda semana.
Isso vale para o clima, para a saúde, para a economia, para a geopolítica e até para a astrologia (ou você nunca foi aconselhado a tomar cuidado com os relacionamentos profissionais porque Mercúrio estava retrógrado?). Uma previsão preocupante rapidamente vira uma certeza assustadora; uma possibilidade vira “prepare-se”; um modelo meteorológico vira contagem regressiva. O problema não está, evidentemente, na ciência, nos alertas ou na prevenção — todos indispensáveis. Está na transformação da cautela em espetáculo. Entre informar que existe risco e anunciar que o cavaleiro do Apocalipse já dobrou a esquina existe uma distância razoável, embora aparentemente pequena demais para caber numa postagem.
E o impacto disso vai além da briga por atenção. Costuma-se brincar que economistas são como meteorologistas que têm o poder de influenciar o clima: se todos anunciarem uma crise econômica e todos acreditarem, consumidores deixam de consumir, empresários deixam de investir e a previsão começa a colaborar com a própria realização. Os alarmistas das redes talvez não tenham tamanho poder, mas conseguem interferir concretamente na vida das pessoas (e não apenas nas fugazes conversas de elevador).
Dias desses conheci uma expressão ótima: “enchente seca”. É quando a água não chega, mas seus efeitos econômicos sim. Pessoas cancelam compromissos, reservas, viagens e eventos porque receberam a informação – geralmente depois de atravessar cinco grupos de WhatsApp e três perfis especializados em catástrofes - de que uma calamidade está a caminho. Às vezes ela vem. Às vezes não. Às vezes chove muito, mas em outra cidade, outra bacia hidrográfica ou outro ponto da região. Nuvens carregadas transitando pelo céu ainda precisam cair em algum lugar.
Não estou dizendo, obviamente, que devemos desprezar uma previsão de ressaca no mar e sair de barco, ignorar um alerta de granizo e estacionar o carro debaixo da única nuvem preta da cidade ou organizar um piquenique na encosta durante um aviso de deslizamento. Informação séria existe para orientar decisões. Prudência é uma coisa; viver permanentemente na antevéspera do fim do mundo é outra. O problema começa quando perdemos a capacidade de distinguir risco de certeza, prevenção de pânico e informação de conteúdo produzido para nos manter olhando para a tela.
Talvez precisemos reaprender a conviver com uma palavra que as redes sociais detestam: “talvez”. Talvez chova. Talvez caia um cacau. Talvez a economia piore. Talvez surja outra pandemia. Talvez uma guerra se amplie. O futuro, para desgosto dos algoritmos e dos profetas profissionais, continua sendo teimosamente incerto.
De toda forma, se algum dia o Apocalipse realmente chegar, certamente haverá alguém transmitindo ao vivo, pedindo para ativarmos o sininho e prometendo explicar, no próximo vídeo, os cinco sinais de que o mundo pode acabar antes do fim de semana.
Toc-toc-toc
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