Quem acompanhou as campanhas eleitorais logo depois da redemocratização – como eu acompanhei – deve se lembrar da chamada “festa da democracia”. E era uma festa mesmo. Tinha carreata, comício, showmício, outdoor, santinho, galinhada, corpo a corpo e horário eleitoral gratuito, que atrasava a novela, mas era assistido com uma curiosidade semelhante à que temos diante de um acidente na estrada: ninguém gostaria que estivesse acontecendo, mas já que está, vamos olhar. Havia até marketeiros políticos tratados como gênios da comunicação, alguns premiados internacionalmente. Era uma época em que eleger um governador aparentemente exigia as mesmas habilidades necessárias para lançar uma nova marca de refrigerante.
Com o tempo, nossa democracia foi “amadurecendo”. Vieram os escândalos de caixa dois, os abusos de poder econômico, as intermináveis discussões sobre financiamento público ou privado, as novas regras eleitorais e uma Justiça Eleitoral cada vez mais intervencionista, presente para estabelecer o que pode, o que não pode e o que talvez possa. O barulho das campanhas foi diminuindo, diminuindo, diminuindo, até chegarmos ao estágio atual da evolução democrática: meia dúzia de carros adesivados circulando pelas ruas e algumas bandeirolas nas calçadas, nas quais o vento se encarrega de deformar o rosto dos candidatos de maneiras que nem a oposição conseguiria.
No mundo virtual, evidentemente, a campanha continua vigorosa. Ali não temos carreatas, mas temos o algoritmo. Ele sabe onde você mora, sua idade, seus interesses, o time para o qual torce, o que pesquisou ontem e provavelmente já desconfia em quem você votará antes mesmo de você decidir. Antigamente, o candidato precisava apertar sua mão na feira. Hoje basta aparecer entre um vídeo de receita de pão de queijo e outro de um cachorro fingindo que desmaiou. Houve progresso.
Resta apenas uma dúvida de natureza contábil, quase filosófica: onde os partidos conseguiram enfiar os bilhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha? Porque, olhando para as ruas, não parece fácil gastar tudo aquilo. Imagino que imprimir bandeirolas tenha ficado caríssimo. Ou talvez exista algum fornecedor cobrando pelo metro quadrado de democracia.
Há, entretanto, algo que atravessou todas essas transformações sem sofrer qualquer abalo: a escassez de propostas. Quando aparecem, costumam pertencer a três categorias. As genéricas — “vou melhorar a saúde”. As inexequíveis — “vou acabar com a violência”. E as que dependem de outro cargo — o candidato ao Executivo promete mudar a lei e o candidato ao Legislativo promete colocar mais policiais nas ruas. É como contratar um encanador que promete trocar a instalação elétrica. Pode até ser uma ótima ideia. Só talvez fosse conveniente avisar o eletricista.
Também mudaram as bandeiras. Houve um tempo em que fotografar ao lado de crianças carentes parecia requisito obrigatório de qualquer campanha. Hoje os animais conquistaram esse espaço eleitoral. Cachorros, especialmente, tornaram-se importantes cabos eleitorais. Não votam, não discutem política no grupo da família e dificilmente cobrarão a promessa depois da eleição. Sob certos aspectos, constituem o eleitorado ideal.
Faço toda essa longa introdução, entretanto, por um motivo muito mais importante. Setembro chegou. É quando os ipês-amarelos florescem e Blumenau, por alguns dias, oferece aquelas paisagens bucólicas – ou edílicas, palavra que usamos quando “bonita” parece pouco – capazes de fazer até quem está preso no trânsito diminuir a velocidade para olhar. A natureza se esforça: céu (às vezes) azul, árvore florida, pétalas amarelas espalhadas pelo chão. Aí, bem no meio da composição, surge a cara de um candidato balançando numa bandeirola.
E talvez essa seja a melhor metáfora da nossa democracia contemporânea. Depois de bilhões em financiamento eleitoral, décadas de aperfeiçoamento institucional, centenas de resoluções e incontáveis discursos sobre cidadania, chegamos ao momento em que o cidadão só deseja contemplar um ipê em paz. Mas precisa disputar a calçada com a fotografia de um candidato e com a motoneta de um adolescente. Contra o candidato ainda existe o voto. Contra a motoneta, pelo que sei, a democracia ainda não encontrou solução.
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