Se tirarmos os olhos do celular enquanto dirigimos pela Rua São Paulo [atenção: contém ironia], veremos um espetáculo melancólico. Uma vitrine vazia aqui, uma placa de "aluga-se" ali, outra loja encerrando atividades acolá. O fenômeno não é exclusivo daquela via. Ele se espalha por Blumenau e talvez por toda Santa Catarina, a nossa "ilha de prosperidade" do capitalismo brasileiro. É um processo de desertificação econômica que está avançando e engolindo lentamente nossos centros urbanos. No lugar da diversidade urbana, proliferam farmácias, grandes redes com suas lojas vultuosas e imóveis vazios. Ah, têm também as óticas, as barbearias e lojas de capinhas de celular.
É verdade que grandes redes de departamentos, supermercados, atacadões e "atacarejos" (talvez a palavra mais feia da Língua Portuguesa) nos permitem economizar alguns preciosos reais. É difícil competir com quem vende barato, compra em escala continental, paga menos impostos em muitos casos e ainda tem tudo à pronta entrega. Também é verdade que há conforto em receber produtos adquiridos pela internet na porta de casa, sem ter que procurar vaga, conversar com ninguém, sequer atravessar a rua. Mas o resultado é previsível: a pequena loja fecha, o bairro perde movimento, a rua perde vida e todos fingimos que isso é apenas o curso natural das coisas. Essa comodidade tem um custo que não aparece na nota fiscal: a morte progressiva do comércio de rua, da vizinhança, da circulação de pessoas, da pequena loja que iluminava a calçada e dava vida ao bairro.
"É a lei do mercado", dirão, como se o mercado fosse uma força da natureza, inevitável e neutra; como quem invoca uma entidade divina diante da qual resta apenas se ajoelhar. “Sobrevive o mais forte, prospera o mais rico, desaparece quem não consegue competir”. Mas essa explicação é cômoda demais. O mercado não existe sem escolhas humanas. Nessa fórmula, o consumidor é um agente decisivo. Cada compra é também um voto - silencioso, cotidiano, econômico - sobre o tipo de cidade que queremos manter. Numa espécie de democracia econômica, cada caixa registradora aberta ou fechada é consequência de milhares de decisões individuais.
Aprendemos a discutir sustentabilidade apenas quando o assunto envolve árvores, carbono e sacolas plásticas. Esquecemos que existe um ecossistema econômico igualmente frágil. Uma rua comercial é um organismo vivo: gera empregos, produz encontros, ilumina calçadas, cria sensação de segurança e mantém riqueza circulando dentro da própria comunidade. Quando ela morre, não desaparecem apenas lojas. Desaparecem rostos conhecidos, oportunidades, arrecadação, pertencimento e, pouco a pouco, a própria identidade da cidade.
Não espere um decreto salvando o comércio de rua (aliás, desconfie se o Estado quiser intervir). A reação possível começa no balcão, na feira, na padaria, na livraria, na loja de rua, na escolha deliberada de comprar de quem ainda resiste. Caso contrário, em nome de economizar alguns centavos, acabaremos pagando um preço muito maior: teremos que atravessar várias ruas São Paulo vazias, escuras, silenciosas e perigosas, perguntando-nos, tarde demais, quem foi que fechou a cidade (embora orgulhosos de termos comprado barato!).
Em tempo: eu também adoro comprar pela internet.
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