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DOMINGO,30 DE AGOSTO DE 2026
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O ÚLTIMO QUE SAIR DO SHOPPING APAGA A LUZ

Inteligência artificial, concentração econômica e economia circular podem estar empurrando o velho sistema para sua próxima reinvenção

O ÚLTIMO QUE SAIR DO SHOPPING APAGA A LUZ
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Há uma batalha ideológica em andamento entre esquerda e direita. Não chega a ser exatamente uma batalha de ideias porque, para isso, seriam necessárias ideias. Digamos que seja apenas uma batalha. Funciona como discussão de futebol: o sujeito defende seu time com paixão, embora nenhum dos jogadores tenha nascido no bairro, metade esteja negociando com o adversário e o centroavante beije o escudo desde que o pagamento esteja em dia.

No campo da ideologia é parecido.

A esquerda tem seus dogmas. A direita também. E um dos mais queridos desta é o capitalismo.

Não o capitalismo atual, naturalmente. Mas aquele capitalismo de antigamente. Aquele em que o indivíduo, armado de talento, trabalho, inteligência e uma garagem emprestada pelos pais, cria sua própria empresa, enfrenta concorrentes em condições razoavelmente iguais e enriquece sem que o Estado meta muito o bedelho.

É um capitalismo saudosista (com era a Seleção Brasileira de 1982). O problema é que ele não existe mais (nem ela). Ele mudou.

No Brasil, o capitalismo que verdadeiramente prospera, do tipo exportação, é o chamado capitalismo de compadrio, expressão sofisticada para uma ideia bastante simples: é obviamente válido trabalhar muito, inovar, assumir riscos e, o mais importante, conhecer alguém. De preferência alguém em Brasília.

No capitalismo clássico (por quem o pessoal da direta levanta bandeiras nas sinaleiras), o empresário procura clientes; no capitalismo de compadrio, procura o ministro.

Grandes empresas aproximam-se do Estado, conseguem financiamentos privilegiados, incentivos, contratos, benefícios regulatórios e outras pequenas ajudas que costumam ser pequenas apenas no nome.

Banco Master, JBS, Odebrecht, Camargo Corrêa, Eike Batista e outros personagens da história econômica recente brasileira poderiam explicar melhor.

Antes que alguém interrompa a leitura para culpar Lula, o PT, Bolsonaro, Fernando Henrique, Getúlio Vargas ou dom Pedro II, convém esclarecer: não é exatamente esse o ponto.

O empresário brasileiro sofre. E muito!

Temos burocracia, insegurança jurídica, corrupção e um sistema tributário que parece ter sido criado numa noite de bebedeira entre um contador, um tributarista e o diabo.

O Legislativo também tem sua preciosa dose de culpa: costuma criar benefícios com grande generosidade. Principalmente porque a conta será paga por outra pessoa. Geralmente o empresário.

Tudo isso é verdade.

Mas há um pequeno problema: lojas também estão fechando nos Estados Unidos. E na Europa. Shopping centers estão se reinventando. Bancos fecharam agências. Livrarias sumiram. Agências de viagem viraram quase uma lembrança.

Ou seja, aquele capitalismo clássico está minguando ao redor do mundo, sendo substituído por um novo, perverso.

O que aconteceu?

A internet aconteceu.

Primeiro ela nos convenceu de que seria maravilhoso comprar sem sair de casa. Depois descobrimos que, se ninguém sair de casa para comprar, talvez não seja necessário ter tantas lojas. Foi uma descoberta importante. Principalmente para quem tinha loja.

O pequeno comerciante passou décadas preocupado com o concorrente do outro lado da rua. Um dia descobriu que seu verdadeiro concorrente estava na China, tinha duzentos mil funcionários, conhecia seus hábitos de consumo e entregava gratuitamente na terça-feira (às vezes na segunda).

As grandes empresas de tecnologia cresceram de tal maneira que já não vendem apenas coisas. Controlam o lugar onde procuramos as coisas, onde compramos as coisas, onde anunciamos as coisas e, principalmente, sabem quais coisas desejamos antes de nós mesmos.

Quando começávamos a nos acostumar com essa transformação, chegou a inteligência artificial.

A internet havia atacado o comércio.

A IA entrou no escritório: advogados, médicos, jornalistas, professores, contadores, designers, programadores, tradutores e outros profissionais que passaram anos tranquilizando os filhos com a frase “estude para não precisar trabalhar com as mãos” descobriram que talvez o problema agora sejam justamente os trabalhos feitos com a cabeça.

Não significa que essas profissões desaparecerão. Provavelmente não. Mas um advogado com inteligência artificial poderá fazer o trabalho de três. Um contador, de cinco. Um programador, de dez. Os números são ilustrativos (espero!).

Surge então um pequeno inconveniente para o capitalismo: se cada vez menos pessoas forem necessárias para produzir cada vez mais coisas, quem terá dinheiro para comprar as coisas? Por isso uma ideia que durante muito tempo pareceu conversa de estudante de Ciências Sociais depois da terceira cerveja começou a aparecer também entre economistas, governos e bilionários do Vale do Silício: renda básica universal.

A lógica é curiosa: as máquinas produzirão; as pessoas receberão (algum) dinheiro; e usarão o dinheiro para comprar aquilo que as máquinas produziram.

De toda forma, o que me tranquiliza (ou quase) é que a humanidade possui uma característica admirável: ela sempre encontra um jeito.

Quando uma profissão desaparece, inventamos outra.

Há vinte anos ninguém imaginaria que alguém pudesse ganhar dinheiro filmando a própria reação enquanto outra pessoa abre uma caixa. Hoje isso existe (tem até um nome pra isso: “unboxing”). Seu filho dirá que assistir um vídeo desses é “satisfatório”.

Enfim. Talvez parte da próxima transformação venha da implementação da chamada economia circular.

Explico.

O capitalismo funciona mais ou menos assim: tiramos uma coisa da natureza; transformamos em outra coisa; vendemos; usamos; jogamos fora; tiramos outra coisa da natureza.

É um sistema econômico bastante eficiente, desde que se disponha de um planeta infinito...

A economia circular propõe mudar a lógica: fabricar, usar e depois consertar, reutilizar, compartilhar, remanufaturar, reciclar e transformar o resíduo novamente em matéria-prima.

Um celular usado, por exemplo, deixa de ser lixo e vira aparelho recondicionado, fonte de componentes ou depósito de metais valiosos. Uma peça industrial deixa de ser sucata e pode ser remanufaturada. Entulho pode virar material de construção. Roupas podem voltar ao mercado. Produtos podem ser projetados para durar, desmontar e retornar à indústria.

E aqui aparece uma possibilidade interessante.

Talvez o pequeno empresário não consiga competir com uma multinacional na fabricação de um celular. Provavelmente não consegue. Mas alguém precisará consertá-lo. Recondicioná-lo. Recolhê-lo. Transportá-lo. Recuperar seus componentes. Reciclar sua bateria. Reaproveitar seus metais. Certificar o aparelho usado. Revender o aparelho recuperado.

Ou descobrir alguma coisa completamente nova para fazer com aquilo.

(Ou seja, existe mais possibilidade do que lojas de capinhas).

O capitalismo concentrado pode destruir mercados. Mas os restos desses mercados também são mercados.

Há uma coincidência histórica interessante acontecendo diante de nós: De um lado, temos máquinas capazes de produzir cada vez mais utilizando cada vez menos trabalho humano. Do outro, temos um planeta pedindo que paremos de produzir tantas coisas para usar durante pouco tempo e jogar fora.

Talvez os dois problemas possam conversar.

Não acredito que a economia circular salvará o planeta.  Mas talvez a economia circular ajude a reinventar uma parte do capitalismo: menos baseado em extrair, fabricar, consumir e descartar; mais baseado em reparar, reutilizar, compartilhar, transformar e prestar serviços.

Não seria a primeira reinvenção.

Depois da Grande Depressão veio o New Deal. Depois da Segunda Guerra, o Estado de bem-estar social. Depois vieram liberalização, globalização e internet. Agora chegaram a inteligência artificial, a concentração econômica e uma conta ambiental que ficou tempo demais na gaveta.

Talvez estejamos diante de outra dessas mudanças.

Talvez a economia circular seja uma das peças do New Deal da era pós-inteligência artificial.

Mas, se há uma coisa que o capitalismo demonstrou nos últimos dois séculos, é uma extraordinária capacidade de sobrevivência.

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER

Comentários

Autor da postagem
Jose Arcino Silva • 30/08/2026 10:47
Eh! Cara! Será que estas novas fases do capitalismo, vai extinguir essa profissão carrapato que surgiu no capitalismo, esse tal de lobista?
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