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DOMINGO,30 DE AGOSTO DE 2026
Colunas/Geral

MEU BISAVÔ LIA AS ESTRELAS; EU PROCURO SINAL.

Sobre aquilo que nossos antepassados sabiam, nós esquecemos e nossos filhos talvez nem saibam que existiu.

MEU BISAVÔ LIA AS ESTRELAS; EU PROCURO SINAL.
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Meu bisavô era pescador e sabia se orientar pelas estrelas. Olhava para o céu e sabia onde estava, para onde ia e, provavelmente, quanto tempo faltava para chover. Seu filho, meu avô, já não dominava tanto a astronomia, mas entendia dos ventos. Meu pai, ao que me consta, não sabe de estrelas e talvez entenda um pouco de ventos. E eu, para ser honesto, estou mais próximo de me perder no estacionamento de um shopping do que de atravessar um oceano guiado pelo Cruzeiro do Sul.

Não que eu seja completamente inútil. Sei ler mapas. Sei preencher um cheque (habilidade tão valorizada atualmente quanto saber selar um cavalo). Sei postar uma carta no correio e dizer onde fica o Leste. Também conheço vários ditados populares, o que me coloca numa curiosa categoria de pessoas que sabem coisas que ninguém mais perguntou.

Aliás, tenho pra mim que os ditados populares talvez sejam a forma mais eficiente de armazenamento de dados já inventada pela humanidade. Durante séculos, gerações observaram o comportamento do tempo, dos animais, dos vizinhos e dos parentes, condensando tudo em frases curtas e fáceis de decorar.

Graças a isso, eu sei que “cerração baixa, sol que racha”. Não preciso abrir aplicativos meteorológicos, consultar imagens de satélite e assistir a um meteorologista apontando para manchas coloridas numa tela. Basta olhar pela janela. Nossos avós previam o tempo com uma precisão assustadora usando apenas os olhos e uma experiência acumulada que hoje valeria menos curtidas do que um vídeo de um gato brincando com uma borboleta.

Experimente testar uma criança ou adolescente com alguns ditados populares. Complete a frase: “Quem não tem cão...” e espere a resposta. Há uma boa chance de ouvirem algo envolvendo inteligência artificial, criptomoedas ou um influenciador digital. No início é engraçado. Depois preocupante. Por fim, constrangedor. Porque percebemos que não foram eles que esqueceram. Fomos nós que paramos de transmitir.

A humanidade passou milênios acumulando conhecimento. Aprendemos a reconhecer o clima, as plantas, os ciclos da natureza, os perigos da floresta e os riscos de confiar dinheiro a certos parentes. Então surgiu a tecnologia e concluímos que não precisávamos mais lembrar de nada.

É assustador pensar que o homo sapiens chegou até aqui acumulando habilidades que acabamos renunciando em menos de 50 anos, nos transformando em ineptos que sabem aplicar filtros em fotos mas não diferenciar uma fruta comestível de uma não (basta ver se passarinho come #ficaadica).

Hoje carregamos no bolso um aparelho capaz de acessar praticamente todo o conhecimento humano e o utilizamos, em boa parte do tempo, para discutir com desconhecidos e assistir pessoas dançando.

Talvez eu esteja sendo injusto. Afinal, cada geração perde algumas habilidades e ganha outras. O problema é que nem sempre temos certeza da qualidade da troca. Meu bisavô sabia se orientar pelas estrelas. Meus filhos sabem alterar a senha do Wi-Fi. Torço apenas para que nunca aconteça uma pane elétrica de grandes proporções. Porque, quando isso ocorrer, o descendente do pescador aqui será encontrado girando o celular para o céu, procurando sinal na constelação de Touro.

Em tempo: um baita perfil para seguir no Instagram é o @raizes_assorianas_oficial, que preserva conhecimento dos antigos açorianos de Florianópolis

FONTE/CRÉDITOS: FERNANDO BECKER (@ESCRITOR_FERNANDOBECKER)

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