Aguarde, carregando...

TERÇA - FEIRA 26/05/2026
Colunas/Cotidiano

A Era do Achismo: Quando a Ignorância Vira Opinião e o Populismo

Por que estamos substituindo o conhecimento por slogans vazios e o debate por gritos?

A Era do Achismo: Quando a Ignorância Vira Opinião e o Populismo
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
Vivemos tempos inquietantes. Em meio à maior disponibilidade de informação da história da humanidade, o que cresce de forma alarmante é a desinformação, o negacionismo e o perigoso reinado do achismo. Pessoas formam convicções profundas com base em manchetes, vídeos recortados, discursos inflamados e conteúdos de redes sociais cujo único lastro é a emoção — não a razão.
Segundo a pesquisa do Instituto Ipsos realizada em 2023, o Brasil é um dos países onde as pessoas mais acreditam em informações falsas: 62% dos brasileiros afirmaram já ter acreditado em fake news, especialmente relacionadas à política e à saúde¹. Outro estudo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que conteúdos falsos têm, em média, 70% mais chances de serem compartilhados nas redes sociais do que notícias verdadeiras². Isso explica, em parte, por que tanta gente fala com tanta convicção... mesmo sem saber do que está falando.
Essa superficialidade de pensamento está diretamente ligada a uma sociedade que tem se acostumado ao consumo raso da realidade. Um levantamento do Instituto Verificador de Comunicação (IVC) e da comScore revelou que mais de 90% das pessoas leem apenas títulos de matérias jornalísticas, e muitas vezes sequer verificam a fonte de onde elas vêm³. O resultado? Uma população vulnerável a discursos populistas, emocionalmente inflamados, que não passam por nenhum tipo de checagem lógica ou factual.
E o mais grave: quando convidadas ao debate, essas mesmas pessoas — que se apresentam nas redes como "sábias", "patriotas", "donas da verdade" — não conseguem sustentar dois minutos de argumentação sem recorrer ao grito, à desqualificação do outro ou à repetição de frases prontas extraídas de influenciadores digitais, políticos oportunistas ou canais de opinião tendenciosos.
A ausência de pensamento crítico transforma o debate público em ringue de egos e lacração. O senso comum ganha status de ciência. E nesse vácuo de reflexão, o populismo encontra solo fértil. Líderes carismáticos e oportunistas se aproveitam da ignorância coletiva para vender soluções mágicas para problemas complexos, atacando instituições, simplificando temas técnicos e estimulando a desconfiança contra qualquer pensamento que fuja do seu roteiro.
Essa atmosfera tóxica é alimentada também por uma mídia rasa, sensacionalista, que prioriza a velocidade da informação e o clique fácil em detrimento da análise aprofundada. A educação formal, por sua vez, tem encontrado dificuldades para desenvolver o pensamento reflexivo, crítico e ético — justamente o antídoto necessário contra a manipulação e o fanatismo.
Em um país em que apenas 8% das pessoas conseguem interpretar textos complexos⁴ (dados do INAF - Indicador de Alfabetismo Funcional), não surpreende que tantos se contentem com slogans e frases feitas. O debate sobre saúde pública, economia, justiça social, meio ambiente ou democracia se esvazia porque grande parte da população simplesmente não tem acesso ao repertório necessário para compreendê-los — ou, pior, não quer ter.
Precisamos urgentemente resgatar a busca pelo conhecimento como valor social. Não se trata de elitismo intelectual, mas de sobrevivência democrática. O achismo não pode mais ser tratado como opinião legítima quando contraria evidências. A crença não pode mais suplantar o dado. E a ignorância não pode continuar ocupando lugar de destaque no discurso público.
A verdade é que sem educação de qualidade, sem incentivo à leitura, à escuta ativa, ao pensamento lógico e à análise crítica, continuaremos a assistir, impotentes, a sociedade sendo guiada por gritos, mentiras e ilusões vendidas como soluções.
Ignorar a complexidade das coisas é confortável. Mas esse conforto custa caro.
Custa a dignidade do debate público. Custa a autonomia do cidadão.
Custa, por fim, a própria democracia.
Referências:
1. Ipsos (2023). Global Trust in Media Survey. Disponível em: https://www.ipsos.com/pt-br
2. FGV DAPP (2022). Desinformação e redes sociais no Brasil. Fundação Getúlio Vargas.
3. comScore & IVC (2020). O consumo de notícias no Brasil digital.
4. INAF - Indicador de Alfabetismo Funcional (2018). Instituto Paulo Montenegro / Ação Educativa. Disponível em: https://www.ipm.org.br

 

FONTE/CRÉDITOS: Alfroh Postai

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Vale Europeu Notícias
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR