Aguarde, carregando...

Segunda-feira, 18 de Maio 2026
Notícias/Educação

Iniciativas buscam apoiar mães na ciência e combater o 'efeito tesoura'

Movimentos e políticas públicas visam garantir permanência e ascensão de mulheres com filhos na carreira acadêmica, enfrentando desafios de produtividade e reconhecimento.

Iniciativas buscam apoiar mães na ciência e combater o 'efeito tesoura'
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Apesar de o Brasil formar mais doutoras do que doutores há mais de duas décadas, mulheres ainda são minoria em posições de docência em graduação e pós-graduação, além de receberem apenas um terço das bolsas de produtividade científica. Esse cenário, conhecido como 'efeito tesoura', que aponta para um declínio progressivo da presença feminina conforme a carreira avança, tem um impacto ainda maior sobre as mães, tema que tem ganhado destaque em discussões recentes no meio acadêmico. O movimento Parents in Science, fundado em 2016, busca justamente debater a parentalidade entre pesquisadores e criar condições para o retorno e a progressão na carreira científica.

A pesquisadora Fernanda Staniscuaski, fundadora do Parents in Science, relata que a maternidade a levou a uma pausa em sua ascensão profissional, um período que se estendeu e se tornou um ciclo difícil de romper. "Quanto menos a mulher produz, menos ela vai ter oportunidade para ganhar financiamento, para conseguir bolsas para orientandos e obviamente isso vai fazer com que ela produza menos ainda. Existe essa pausa por causa da maternidade e ela tem que ser reconhecida. Mas a gente precisa das condições de retorno," afirma Staniscuaski.

O Parents in Science, que hoje conta com mais de 90 cientistas associados, a maioria mulheres, tem como uma de suas principais frentes a coleta de dados. O Brasil carece de um levantamento oficial sobre o número de pesquisadores e docentes com filhos, o que dificulta a mensuração do impacto da parentalidade na carreira. No entanto, os dados existentes já evidenciam o ônus desigual no cuidado com os filhos entre homens e mulheres, mesmo no ambiente acadêmico, onde os padrões sociais desiguais são reproduzidos.

Leia Também:

Números revelam disparidades

Um estudo recente do Parents in Science analisou a entrada e permanência na docência de pós-graduação, comparando pais e mães. O levantamento, com dados de cerca de mil docentes, mostrou que 43,7% dos pais deixaram seus programas por iniciativa própria, enquanto 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Em contrapartida, entre as mães, apenas 24,6% saíram voluntariamente, e 66,1% foram descredenciadas por não atingirem a produção mínima exigida.

A dificuldade de reinserção após o descredenciamento também é maior para as mães. Entre aqueles que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, comparado a 25% dos pais. Para os que saíram a pedido, a taxa de não retorno foi de 25% para mães e 7,1% para pais.

Fernanda Staniscuaski ressalta que, além da questão de gênero, a raça também influencia significativamente, com mulheres pretas, pardas e indígenas sendo os grupos mais sub-representados. Ela enfatiza a necessidade de cruzar essas barreiras com outras, como a das mães de filhos com deficiência, que também ocupam menos espaços.

Acesso e permanência na graduação

Os desafios começam antes mesmo da pós-graduação. A assistente social Cristiane Derne, mestranda na PUC/Rio, enfrentou dificuldades durante a graduação na UFRJ. Ela conciliava trabalho, longos deslocamentos e os cuidados com o filho, o que a levou a pensar em desistir. "Tem a cobrança de horas complementares, estágio, projeto de extensão... às vezes o filho adoece e a gente precisa faltar, às vezes não tem com quem deixar. Eu me deparei com muitas meninas que acabaram desistindo", relata.

A UFRJ oferece um auxílio-educação, mas que não contemplava Cristiane. O coletivo de mães da UFRJ foi fundamental, oferecendo informações sobre direitos e acolhimento emocional. Essa experiência a motivou a estudar os coletivos de mães pesquisadoras em nível nacional em seu mestrado.

Atlas da Permanência Materna

O Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade publicou o Atlas da Permanência Materna, compilando políticas de permanência em universidades federais. O levantamento indicou que a principal medida é a assistência financeira (63 de 69 instituições), com valor médio de R$ 370. A oferta de benefícios para a pós-graduação é limitada, e apenas oito universidades possuem cuidotecas.

O Ministério da Educação lançou um edital de R$ 20 milhões para a implantação de cuidotecas. As autoras do Atlas criticam a insuficiência financeira, que transfere o ônus do cuidado para a esfera privada, levando ao esgotamento e evasão. "Na prática, a insuficiência financeira devolve o ônus logístico do cuidado para a esfera privada, culminando em um esgotamento físico e mental que frequentemente empurra a estudante para a evasão antes da consolidação do seu rito de passagem para a vida intelectual", apontam Kamila Abreu e Ivana Moura.

Diversidade e novas perspectivas

A professora de geografia e doutoranda Liziê Calmon, mãe de uma menina de 10 anos, questionou sua permanência na carreira acadêmica devido ao acúmulo de responsabilidades. Contudo, ela percebeu que a experiência da maternidade agrega valor à ciência brasileira. "A experiência da maternidade traz para a gente um olhar mais apurado para algumas realidades que nem sempre estão sendo olhadas por outras pessoas."

Liziê integra o coletivo Filhas de Sabah, que articulou a lei do Marco Legal Mães na Ciência no Rio de Janeiro. A legislação prevê que o trabalho de cuidado conte como pontuação em processos seletivos de bolsas e editais. "Ao invés de olhar como um problema, isso vai ser visto como um ponto positivo, porque as habilidades que a gente desenvolve quando tem que cuidar de alguém não tem nenhuma outra experiência que se equipare", defende.

Editais específicos e ações compensatórias

O Rio de Janeiro também foi pioneiro com o primeiro edital de financiamento voltado para mães cientistas, lançado em 2024 pela Faperj em parceria com o Parents in Science e o Instituto Serrapilheira. A iniciativa apoiou 134 mães e terá uma nova edição em março de 2025, inspirando seleção semelhante em Pernambuco.

A presidente da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão da Faperj, Leticia de Oliveira, considera o edital exclusivo uma ação "compensatória" necessária. Ela explica que o mérito acadêmico, medido pela produtividade, não reflete a realidade de quem tem filhos, pois a licença-maternidade implica em uma pausa natural. A Faperj também estende a avaliação curricular em dois anos para candidatas que se tornaram mães nos cinco anos anteriores à inscrição.

"Se fosse só uma questão de justiça já seria suficiente, mas é muito mais do que isso. Vários trabalhos mostram que uma ciência diversa, feita por pessoas diversas, gera uma melhor ciência, porque você expande as perguntas e aumenta a capacidade de interpretação dos resultados. Então é também por excelência," destaca Oliveira.

Ações nacionais e inclusão

A presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Pires de Carvalho, afirma que a inclusão é fundamental para uma ciência melhor. A Capes lançou o programa Aurora, que concede bolsas para professoras de pós-graduação gestantes ou mães agregarem um pesquisador de pós-doutorado às suas equipes, auxiliando na continuidade das pesquisas durante a licença maternidade.

"É uma forma de não parar a produção acadêmica dessa mulher durante a chegada do filho. Mas beneficia também os orientandos", explica Carvalho. Ela reforça que o desafio é garantir a permanência das mulheres na pesquisa, mesmo após a maternidade, combatendo o "viés implícito" que leva à escolha de homens em detrimento de mulheres em igualdade de condições.

A legislação também tem avançado: uma lei sancionada em julho de 2024 prorroga por seis meses a data de conclusão de cursos em caso de gestação de risco ou cuidados com a criança, estendendo o prazo para bolsistas. Outra lei, em vigor desde abril de 2025, proíbe a discriminação por maternidade em processos de seleção e renovação de bolsas, ampliando o período de avaliação de produtividade em casos de licença-maternidade.

FONTE/CRÉDITOS: Tâmara Freire - Repórter da Agência Brasil
Comentários:

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Vale Europeu Notícias
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR